Comida processada

Abril 12th, 2013

Eu gosto muito de comer, mas há um tipo de alimentos que tenho alguma relutância em ingerir: a comida processada.

Sempre ouvi dizer que onde há fumo há fogo e se essa comida foi processada foi porque fez mal a alguém.

O problema é que ficamos sempre sem saber que tipo de mal fez, porque não aparece nada escrito nos rótulos (o que está mal e a ASAE devia ver essa questão, que seguramente lhes escapou).

Fico sempre inquieto na altura de abrir a boca para ingerir comida que sei que foi processada, porque uma coisa é um alimento ser processado por fraude gustativa – porque disse que sabia a uma coisa e afinal tinha outro sabor -, outra coisa é saber que determinada comida foi processada porque há fortes indícios de ter causado a morte de alguém.

Ainda assim, e apesar das dúvidas que remanescem no meu espírito – e que causam uma pontinha de remorso aqui e ali -, continuo a acreditar que a comida tem direito à sua presunção de inocência até prova em contrário.

É por esse motivo que continuo a consumir snacks, gomas, gelados, bolachas e refeições ultracongeladas, até que se prove que a comida é de facto culpada dos crimes que a acusam.

Acredito e sou defensor dos direitos fundamentais dos cidadãos de todos os géneros, e acho que esses mesmos direitos devem ser alargados também aos géneros alimentícios.

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Arroz de miúdos

Outubro 13th, 2011

Ontem puseram-me em cima da mesa um arrozinho de miúdos.

Devo-vos dizer que foi muito bom, apesar de ter sido difícil acabar com aquela brincadeira.

É todo um festim que se espalha livremente pelo prato fora, numa espécie de jogo do gato e do rato que culmina em foguetins de sabor apurado, num ciclo que dá vontade de nunca quebrar.

Ainda por cima calhou-me um daqueles bem malandrinhos, que não pára quieto, o que cria dificuldades acrescidas a toda a operação degustativa.

Só lhe faltava mesmo pôr a língua de fora e cantar “nããão meee apaaanhas! nhé nhé nhé nhé nhé nhé” enquanto fugia a esconder-se por debaixo do garfo.

Esta malandrice, dá-me, porém, ainda mais gozo no momento da ingestão do dito arroz.

Pelo prazer que emana das palavras acima já depreenderam com certeza que sou aquilo a que se pode chamar um “pedourmet”, ou seja, um pedófilo gourmet, alguém que gosta de comer miúdos no seu arroz.

Se for com sangue, melhor ainda.

Sei que há muita gente que só de pensar neste tipo de pratos tolhe imediatamente a boca, transformando-a num pequeno esfincter tolhido, e franze o nariz até chegar com ele ao centro dos olhos, mas que querem que vos faça?

Se estivéssemos a falar de algo servido por um gigante que tivesse surpreendido miudagem humana na sua despensa, à procura de um saco de feijões mágicos , e que os tivesse castigado atirando-os para a panela onde cozinhava arroz, aí sim, ainda podia ter uma pitada de sentimento de culpa.

Mas assim não.

Assim saí do restaurante muito consoladinho!

De gigante, no final desta estória, além do prazer só mesmo a barriga e o sono.

 

Homens do luxo

Agosto 4th, 2011

Muitas vezes nem damos por eles.

Andam pela noite enquanto descansamos, limpam tudo e sacrificam-se por nós enquanto dormimos, fazendo aquilo que os outros não fazem e vivendo num mundo de luxo pestilento.

A realidade deste sub-mundo pode ser chocante para muitos.

Os homens do luxo vestem a rigor e percorrem as estradas enganchados na parte de trás de carros de grandes dimensões, os “machibombos” – como lhes chama Manoel d’Avillez e Orey, a pessoa que nos guiou nesta reportagem -, que o público em geral se habituou a apelidar de limousine.

A missão destes homens passa muitas vezes por saltar dentro e fora dos “machibombos” em ruas repletas de lojas, para aí recolherem a mais variada espécie de sacos, de conteúdo muitas vezes inominável, que carregam a custo para dentro dessas abjectas viaturas.

Outra das difíceis tarefas destes homens é palmilhar as várias concentrações nocturnas de gente, em espaços muitas vezes apinhados de gente, onde cada vez mais abunda o pó – que eles inalam ao estilo de aspirador industrial – e onde as luzes dos flashes os põe sob risco permanente de cegueira.

A recolha de luxo continua noutros espaços, onde têm contacto com coisas que o comum cidadão nem sequer pensa em tocar: relógios de ouro, trufas, diamantes, peles, iates, suites presidenciais, champanhe, caviar, alta costura…

Tudo lhes passa pelas mãos, com sacrifício mas sem queixumes, cientes de que esta vida difícil não é para todos, só para os mais preparados.

Exilados à vista de todos, são muitas vezes confinados a espaços que são exclusivamente frequentados por outros como eles, sendo mesmo em alguns casos fortemente vigiados, para que não tenham contacto com as outras pessoas.

Isso traz-lhes problemas de integração e de comunicação, que se reflectem a curto prazo nos vários tiques verbais que adquirem.

A escuridão da noite, meio que privilegiam para não incomodar ninguém, por vezes serve-lhes de capa, para que passem despercebidos, mas é nossa obrigação tomar conhecimento da sua dura realidade e agradecer-lhes, porque alguém tem que fazer esse trabalho por nós.

Mudar de canal

Julho 21st, 2011

Já repararam que  Amsterdão, Veneza ou Bruges são cidades extremamente televisivas?

Não digo isto pela sua beleza indiscutível, mas sim porque a sua estrutura é criada por diversos canais.

É de tal forma que os seus habitantes, quando têm que mudar de casa, não chamam a esta acção uma “mudança”, chamam-lhe zapping, porque normalmente implica que mudem de canal.

E já viram que desagradável que deve ser viver com esta ideia de, mudando de casa, ter de o fazer para um canal deferente?

Imaginem se a crise bate mesmo forte, como ameaça, nestes países: os canais vão ter que ser privatizados e aí vai ser difícil transitar nestas cidades.

Acho que pode ser uma boa ideia, para animar a malta e ajudar a esquecer os problemas, criar uma franchising de bares académicos (normalmente apelidados BA) nestas cidades, com a marca “BA Canal”.

Sucesso garantido!

 

Trabalho absorvente

Março 1st, 2011

Os bebés deviam usar trabalho em vez de fraldas, porque o trabalho é uma coisa extremamente absorvente, e ainda por cima parece que está cada vez mais barato.