Cabidela de “pica-no-chão”

Agosto 4th, 2010

Ontem ao final de tarde/princípio de noite, tive o imenso prazer de me sentar debaixo de uma ramada de uma tasca, num banco corrido de granito.

Debaixo dessa frescura estavam colocadas em cima da mesa, também de pedra, uma broa e um chouriço caseiros partidos toscamente aos bocados, e umas malguinhas de barro à espera da frase dita alto e bom som pela senhora que nos recebeu – “Ó Paulo! Bóta binho ós sinhuores!”.

O cenário ideal estava montado para receber aquilo que nos tinha levado ali: um arroz de cabidela feito com um verdadeiro “pica-no-chão”, caseirinho e de carne dura e escura, de tamanho generoso, porque todos os elementos da mesa eram meninos de bom alimento, confeccionado de uma forma divinal, só possível por ter sido feita da forma que foi sendo ensinada ancestralmente de mães para filhas (sim, porque os homens não entravam na cozinha!).

E é este imenso prazer de degustar aquilo que nos é tão tradicional, e que nos é servido com a genuinidade que só o povo português sabe ter, que me leva a escrever hoje, porque me preocupa que se perca esta hospitalidade popular, que se proíba aquilo que nos identifica enquanto nação, que se restrinjam os nossos saberes e sabores a leis super proteccionistas feitas por alguém que com certeza nunca sequer teve interesse de provar tais iguarias.

É claro que, olhando à minha volta, encontrei mil e uma razões para a ASAE fechar aquele espaço – que acredito que esteja mais do que ilegal aos olhos da lei – mas estava lá porque quis, porque assim é que sabe bem e faz sentido, porque só se conseguem aqueles paladares fugindo do produto embalado, padronizado e certificado, porque esta é a nossa herança e deve ser preservada, porque senão qualquer dia os nossos filhos pensam que os galos vivos e à solta num campo são tão perigosos e invulgares como um leão selvagem.

Acho muito bem que se regulamente, que se cuide da saúde pública, mas não me lembro de ninguém ter morrido de cabidelite e julgo que é um crime contra a nossa identidade nacional o excesso de  legislação, que restringe a confecção com produtos originais a este e outro tipo de comida, que são muito mais que isso, são valores ancestrais que devem ser preservados.

E com isto tudo, já ia mais uma garfada e um golinho do “carrascão”.

Gloucestershire Cheese Rolling cancelado

Maio 13th, 2010

Más notícias para os perseguidores de queijo e os apaixonados por esta magnífica tradição popular.

Anualmente organizava-se em Maio, a cerca de seis quilómetros e meio de Gloucester, na colina de Cooper, uma corrida cujo objectivo era apanhar um queijo que era lançado por uma colina.

Ora, por esta altura, já os perseguidores de queijo estariam a aquecer as rótulas e a preparar os músculos para descer vertiginosamente colina abaixo, não fosse o facto de as autoridades britânicas – vá-se lá saber porquê! – terem considerado que esta prova era perigosa para a saúde dos intervenientes.

Por mais que me esforce, não consigo perceber esta medida, até porque, já diz o ditado, “a descer todos os santos ajudam” e por isso só posso interpretar aqueles supostos trambolhões como uma forma divertida que os santos arranjaram para aumentar a atractividade da corrida, intervindo à posteriori, já fora do alcance das objectivas, para a cura de eventuais mazelas.

No vídeo abaixo é notório que as autoridades de saúde britânicas exageram, porque há o cuidado de fazer esta prova numa colina com bastante vegetação e no fundo da colina estão “apanhadores” de pessoas para garantir que elas param – com placagens a fazer lembrar o rugby – antes de embater nos duríssimos fardos de palha atrás deles.

Eu, e muitos fãs da perseguição ao queijinho, vamos ficar a torcer para que estas corridas voltem e para que ganhem até dimensão política, sendo os candidatos a governantes escolhidos pelos seus méritos na apanha do queijo, à melhor de… deixa cá ver… à melhor de 150, vá.

Mapa etno-musical de Portugal

Março 26th, 2010

Muito interessante o mapa etno-musical de Portugal, que pode ser encontrado no site do Instituto Camões, concebido pelo mítico Júlio Pereira, que foi responsável pela selecção dos exemplos musicais, contando ainda com  redacção de João Luís Oliva e ilustração de Sara Nobre.

É uma maneira muito fácil e intuitiva de percorrer o país, conhecendo a sua música e instrumentos tradicionais.

Excelente para mostrar aos mais novos e recordar os mais velhos e, acima de tudo, extremamente útil para ajudar preservar a memória das nossas tradições e divulgá-las, para que não esmoreçam.