Ideia peregrina

Setembro 16th, 2011

Existe uma expressão idiomática que se costuma usar com ironia quando se pretende identificar uma ideia descabida.

Já ouviram falar, de certeza, em alguém que teve uma “ideia peregrina”.

Além da transtornante imagem mental de uma ideia a peregrinar, parece-me que esta expressão é um dos maiores contra-sensos da língua portuguesa.

Ora façam lá esta análise comigo.

Se a ideia é descabida, é legítimo dizer que não tem pernas para andar, certo?

Os peregrinos, tradicionalmente, caminham para o local de peregrinação, correcto?

Faltando as pernas à ideia, esta não pode caminhar, pelo que se dá uma espécie de curto-circuito linguístico que retira lógica à expressão, porque, não tendo possibilidade de fazer o seu caminho, a ideia não peregrinará.

Uma forma mais correcta de denominar este tipo de ideias seria, por exemplo, “ideias com necessidades especiais”.

Além de mais exacta linguísticamente esta expressão, as ideias poderiam ostentar um autocolante identificativo e assim conseguiriam até arranjar com mais facilidade lugar para estacionar, e ficarem lá, bem quietinhas no seu sítio.

Grau de homossexualidade

Setembro 14th, 2011

Segundo a Associação Portuguesa de Canonistas (APC) – cuidado, não confundir com camionistas -, a declaração de nulidade de um casamento em que um dos cônjugues é homossexual depende do “grau” em que este se encontra.

Ora cá está mais um conceito iluminado do órgãos eclesiásticos, que brilhantemente arranjam uma forma de arrumar a homossexualidade dentro de uma gradação organizada.

Não temais meus irmãos, pois podeis ser só medianamente panisguinhas ou ligeiramente mariquinhas!

Fala-se mesmo de “medicina de correcção” para alguns casos de “grau” mais baixo, numa tirada absolutamente retro-medieval de se lhe tirar o chapéu.

A dúvida está na forma como aferir esse “grau” de homossexualidade.

Sendo um caso médico – como é alegado -, seria de esperar que a APC tivesse acesso a um qualquer aparelho, tipo alcoolímetro, que indicasse cientificamente o teor de homossexualidade no sangue, mas não, o que se sugere é uma perícia psiquiátrica.

Só que isso acaba por ser muito vago e por isso vou deixar aqui algumas sugestões concretas.

Para começar deve-se responder a uma bateria de sessenta questões, divididas por seis temas diferentes: moda, futebol, automóveis, bricolage e construção, arranjos florais, estética e artigos de beleza.

As respostas a estas perguntas revelarão de imediato uma tendência inequívoca, mas insuficiente ainda para a determinação de “grau”.

De seguida os examinados deverão ir para a parte prática desta avaliação, sendo equipados com um capacete detector de estímulos cerebrais e postos perante diferentes cenários reais.

Serão provocados para entrar numa discussão, caminharão numa rua de lojas, visitarão uma sex-shop, assistirão a um jogo de futebol e a um desfile de moda, e ser-lhes-à dada a hipótese de decorarem uma sala, um quarto e de escolherem o seu guarda roupa e penteado para três situações distintas (para uma festa, para estarem confortáveis em casa e para trabalhar).

As suas reacções e resultado das suas acções serão monitorizadas e a partir daí serão obtidos dados científicos para a atribuição de “grau”.

A leitura destes resultados funcionará de forma distinta para homens e mulheres, já que os “sintomas” diferem de género para género.

No final, e de acordo com a escala já avançada pela APC, deverão passar a usar, na parte interior das suas vestes, um pequeno talão em que será indicado o seu “grau”, à imagem da escala de eficiência energética dos electrodomésticos actualmente em vigor.

Luzes coloridas

Setembro 6th, 2011

É engraçada a capacidade que as luzes coloridas têm para atrair determinadas coisas ou pessoas para determinadas  coisas ou locais.

Há luzes coloridas onde esse poder de atracção é francamente notório e é por isso que o lixo se sente impelido a saltar para os camiões com luzes amarelas rotativas.

As moscas também não resistem a uma bela luz azul, e, mesmo sabendo que o seu destino será fatal, entregam-se a elas de asas abertas.

A luz roxa – também apelidada de negra – tem a capacidade de atrair os dentes para fora da boca, dando origem a fenómenos idênticos a uma concentração de pessoas disfarçadas de gatos de Cheshire, do País das Maravilhas.

Os homens também não resistem a casas com luz vermelha, vá-se lá saber porquê.

Deve ser por isso que Las Vegas é uma cidade especial, que fascina tanta gente.

Las Vegas caracteriza-se por ser um sítio com luzes de todas as cores, tamanhos e feitios e por isso atrai um variado leque de pessoas, sendo mesmo plausível pensar que possa lá ser encontrada uma espécie única de ser vivo, o lixo humano sorridente e amosquitado.

Este ser vivo já terá sido avistado em algumas discotecas, mesmo cá em Portugal, e é fácil de identificar pelo ar aparvalhado com que reage às luzes coloridas.

Pode ser detectado em ambiente controlado – mesmo em vossas casas se suspeitarem de alguém – através da utilização de um caleidoscópio.

Sejam muito cuidadosos, no entanto, porque a exposição prolongada às luzes coloridas pode causar danos irreversíveis a estes indivíduos.

Insónia

Setembro 2nd, 2011

Hoje tive uma insónia.

Das grandes.

Devo até estar quase a ter um estiramento da córnea, de tal forma os meus olhos estão neste momento esbugalhados.

Tenho a certeza de que se pode lidar bem com o aparecimento do chamado bugalho ocular – tenho amigos proficientes na matéria – mas a mim, devo confessar, causa-me algum desconforto.

Não passei pelas brasas.

Não ferrei o galho.

Não preguei olho.

Primeiro porque – embora não parecendo – estamos no Verão e recuso-me a acender a lareira, segundo porque o cão do meu vizinho chegou primeiro, terceiro porque desconfio que sujava a cama e a dor talvez não permitisse a correcta sintonização da SonhoTV.

Acho que devia ser possível processar o sono, por danos materiais e morais.

“Xô dôtor juíz, fiz tudo o que estava ao meu alcance para que não faltasse nada a este senhor. Esfalfei-me a trabalhar, cheguei ao fim do dia estourado, tinha uma cama confortável à disposição, com lençóis lavadinhos e uma companhia que aquece o coração, mas vai-se a ver e este suposto profissional que tem escrito na porta do escritório “sono profundo” foi do mais incompetente que encontrei até hoje. Nem um minutinho, xô juíz, este fulano conseguiu que eu ficasse a dormir. É por isso que peço justiça, xôtôr, e que o afaste de vez do mundo dos sonos para que mais ninguém tenha que passar nas mãos deste indivíduo o que eu passei hoje à noite.”

Se calhar, sem dar por ela, foi a minha primeira sessão de preparação pré-natal, no que ao sono compete.

É algo que atormenta qualquer candidato a papá, as noites sem dormir, e havendo tantos sítios onde se trabalha as mais variadas formas de bem estar, parece-me importante que se crie um espaço onde nos possamos preparar devidamente para a privação de sono.

Acho que se devia pensar mais nisto, e com alguma seriedade.

Eu frequentaria de bom grado uma espécie de ginásio – um Soninca – onde se fizessem flexões de pálpebras, alongamento de bocejos, tonificação dos músculos espreguiçadeiros ou abdominais das células indutoras dos sonhos acordados, tudo para que lidássemos da melhor forma com o dia a seguir a noites intermináveis, sem dormir.

Fica aqui a minha pré-inscrição, senhores dos ginásios.

Imposto sobre heranças e doações

Agosto 29th, 2011

O nosso Presidente da República mostrou-se recentemente favorável ao ressurgimento de um imposto sobre heranças e doações.

Estas declarações deixaram muita gente estupefacta e indignada, julgando este imposto estapafúrdio.

Esta reacção deve-se ao facto de nem todos terem a faculdade de possuir uma massa cinzenta luminescente, como a do nosso Presidente, associado a um baixo conhecimento geral sobre o modus operandi do nosso povo no que à matéria fiscal diz respeito.

Seria aconselhável que todos parássemos um pouco para pensar no reais efeitos desta medida, ante de criticarmos levianamente.

É sabido, por muito que se queira encobrir este facto, que o povo português tem uma tendência natural para fugir aos impostos – ou pelo menos tentar.

Sendo assim, o que aconteceria se este imposto existisse?

Os portugueses morreriam menos, ou pelo menos empenhar-se-iam muito mais para que isso acontecesse, só pelo facto de saberem que assim não iam contribuir para engordar os cofres do estado.

Além da satisfação geral das famílias, pela manutenção durante mais tempo da convivência com os seus entes queridos, obter-se-ia também uma poupança significativa nos gastos com funerais.

Este efeito alargador da sobrevivência dos portugueses é, no entanto, factor de preocupação para os profissionais do sector, estando prevista para os próximos dias uma manifestação junto ao Cemitério dos Prazeres, organizada pela Confederação Nacional de Mortes (C.N.M), que objecta com veemência esta medida, dada a instabilidade que a mesma acarreta para as carreiras destes profissionais.

Segundo Josué Jazigo, presidente da C.N.M, “toda a gente diz que a Morte é certa, e não é por acaso, já que nos últimos anos temos mostrado a nossa dedicação e profissionalismo. Por isso parece-me inadequado criarem-se condições para a desestabilização do sector. Sem matéria prima não conseguimos trabalhar e temos objectivos exigentes para cumprir, por causa do acordo com a Troika, que não podem ser postos em causa!”

Quando questionado até onde as Mortes estariam dispostas a ir, Josué Jazigo afirmou: “A nossa luta será até ao fim! Não nos provoquem porque não vamos ficar quietos. Com a Morte não se brinca!”.

A Cooperativa de Fabricantes de Ceifeiras Manuais e a União dos Tecelões de Mantos Negros com Capuz estão solidários com as Mortes e estarão também presentes na manifestação, distribuindo simbolicamente mantos tingidos e ceifeiras com lâminas quebradas aos transeuntes.

Espera-se uma grande afluência de Mortes a este acontecimento, tendo a TVI e o Correio da Manhã garantido o exclusivo da cobertura em directo do evento.