A cueca enquanto marca identitária

Agosto 28th, 2012

Tenho para mim que a cueca é o objeto pessoal que mais nos define enquanto pessoas.

É pena que ainda ninguém tenha estudado academicamente o impacto da cueca na formação do caráter ou a sua importância enquanto marca identitária.

Boxers, cuecões, gola alta, fio dental, slips.

Rotos, engomados, com esquissos rupestres, coloridos ou cinzentões, com bonequinhos ou lisos, largos ou apertados, com pinga ou sem pinga.

Todas estas variáveis do universo cuequês identificam, sem margem para dúvidas, a personalidade da pessoa que as utiliza.

Não acho correta a catalogação das pessoas pelo tipo de vestuário visível exteriormente.

Betos, punks, dreads ou rockabillys, todos têm por baixo algo que não mostram, mas onde reside de facto a sua afirmação enquanto pessoas.

Na cueca.

Se pensarem bem, a expressão “quero-te saltar para a cueca” tem sido das mais injustiçadas no que à sua interpretação diz respeito, já que o que ela realmente significa é “quero entrar no mais intímo de ti e conhecer-te tal como verdadeiramente és”.

Nada mais romântico, diria eu, mas as pessoas regra geral não entendem a frase desta maneira.

Uma das maiores dificuldades de historiadores e investigadores de outras eras, reside no facto de as cuecas não resistirem ao passar do tempo, decompondo-se.

Seria bastante mais fácil perceber a evolução humana tendo acesso às cuecas dos nossos antepassados.

Que impurezas esconderiam as arianas cuecas de Hitler?

O que tentava Marilyn Monroe esconder quando o vento soprava por baixo da sua saia?

Quão elásticas seriam as cuecas de Churchill?

A que cheirariam as milagrosas cuecas de Cristo?

Que pinturas ostentariam as surreais cuecas de Salvador Dali?

Terá sido Pedro Álvares Cabral o inventor do fio dental?

O conhecimento destas pequenas peças de vestuário abrir-nos-ia a porta de uma nova enciclopédia histórica, certamente.

Melhor ainda seria se pudéssemos conhecer os nossos contemporâneos dessa forma.

Daniel Oliveira, se me estás a ler, presta atenção a este conselho: encontrarás muito mais emoção nos teus convidados, e revelações surpreendentes, se perguntares “o que dizem as tuas cuecas?”.

Pornografize a sua performance

Agosto 23rd, 2012

Segundo um estudo publicado por cientistas britânicos, os halterofilistas que assistem a vídeos pornográficos conseguem levantar com maior facilidade os pesos.

Ora aí está um estudo que se foca no essencial e que contribui decisivamente para a melhoria das condições de vida de uma série de gente.

E para o aumento da competitividade.

Tudo será diferente doravante nos ginásios e empresas onde sejam levantadas coisas à força de braços.

Nos ginásios, os canais desportivos habitualmente sintonizados nas televisões serão substituídos por canais com conteúdos pornográficos.

É um dois-em-um para os ginásios, que, ao mesmo tempo que aumentam a performance dos seus utentes, poupam no valor de subscrição dos canais, já que o desporto televisivo em Portugal, como se sabe, é bastante mais caro que o sexo televisionado.

Ainda no desporto, já estará a ser estudada uma parceria entre os organizadores do Homem Mais Forte do Mundo e os representantes dos produtores de filmes pornográficos americanos, para instalar ecrãs gigantes nos recintos destas competições.

A ideia subjacente a esta iniciativa é a de que, vendo pornografia em tamanho gigante, se obterá resultados verdadeiramente extraordinários.

Noutras áreas não será tão fácil ter resultados similares.

Há muito tempo que o Sindicato dos Estivadores e o Sindicato dos Técnicos de Handling, estariam a negociar com os patrões a montagem de televisões com pornografia permanente junto dos respectivos postos de carga e descarga.

O investimento é muito avultado e a resistência do patronato tem sido enorme, mas como os resultados estão agora comprovados cientificamente já terá sido alvitrada pelos patrões a hipótese de ter essas televisões disponíveis até ao final do ano.

Para já só é possível assistir pornografia no bar do pessoal e nos telemóveis, o que não tem o mesmo efeito, já que alguns profissionais não conseguem guardar a memória do que viram o tempo suficiente para obter aumento de produtividade no regresso ao posto de trabalho.

Diz-se em surdina, nos corredores da política mundial, que já estará na forja um novo estudo, que comprova que assistir a vídeos pornográficos durante a votação de leis ajuda os políticos a tomar a decisão mais correta, principalmente se quiserem optar por abstenções violentas.

Na área da saúde, há investigadores que se debruçam sobre os impactos do visionamento de pornografia em doentes com paralisias várias e também nas maternidades se está a estudar a hipótese de instalar televisões com vídeos pornográficos na sala de partos, para as parturientes fazerem mais força no momento devido.

Desconfia-se no entanto que neste caso isso traga à memória o que as levou até ali, criando muita confusão e sensação de dejá vu, podendo, portanto, não ter os efeitos desejados.

Seja como for meus amigos, está visto que a pornografia está aí para ficar, agora com a ciência a dar-lhe a devida validação, como já se justificava há muito.

Se querem ter resultados extraordinários e força sobre humana, já sabem, pornografizem-se.

 

Acidentes estúpidos

Abril 9th, 2012

O denominador comum de um relato sobre qualquer tipo de acidente é o facto de este ser sempre descrito como sendo estúpido.

É tão comum esta adjetivação que conseguimos identificar a maior ou menor gravidade de um acidente pelo grau de estupidez alcançado pelo mesmo.

Um acidente menor, como um tropeção numas escadas, será descrito como um acidente estúpido, enquanto uma queda de uma ravina será descrito como uma estupidez de todo o tamanho.

O que fazer para modificar esta situação?

Os mais precipitados dirão que, se todos os acidentes são estúpidos, há que torná-los instruídos, criando portanto escolas especiais para acidentes, onde estes se possam sentar – atabalhoadamente, de certeza – nos bancos e aprender a ser menos estúpidos.

Mas o caminho não é por aí.

Temos que ir ao cerne da questão, que é a base de toda a estupidez dos acidentes, os criadores de tudo o que é estúpido à face da Terra, as pessoas.

É possível diminuir o índice de acidentes de todo o género fazendo uma campanha de desestupidificação coletiva.

Para quê gastar milhões em campanhas de segurança rodoviária com foco na diminuição da velocidade, se nos basta aumentar ligeiramente a inteligência da generalidade dos condutores?

Há que abandonar todo o avultado investimento em imposição de apertadas normas de segurança e higiene no trabalho e trazer para as empresas programas que permitam o exercitar dos marcadores somáticos dos trabalhadores.

É um trabalho que se prevê difícil, para um país com tanta gente com propensão ao acidente, mas pode ser que no final se passe a ouvir nos cafés as pessoas comentarem que um colega de trabalho morreu num acidente verdadeiramente astuto e perspicaz.

 

 

Vernáculo Nortenho a Património Imaterial da Humanidade

Abril 2nd, 2012

O Fado foi, no final do último ano, reconhecido como sendo Património Imaterial da Humanidade.

Todos os portugueses se devem sentir orgulhos por este reconhecimento e é importante que saibamos capitalizá-lo de forma eficaz, mas ao mesmo tempo sustentável.

É importante também que nos apercebamos da real importância de vermos reconhecido internacionalmente aquilo que é tão genuinamente nosso.

Os alentejanos já se aperceberam disso e não foram de preguiças, preparando já a candidatura do seu Cante.

É altura de, mais a norte, surgir também uma candidatura forte a Património Imaterial da Humanidade.

Pela sua pureza, enraizamento e marca identificativa de um povo, devemos começar a preparar com afinco a candidatura do Vernáculo Nortenho!

Divulguemos este linguajar ao mundo, orgulhosos do nosso património, da forma que estas gentes têm para se exprimir, que as torna tão singulares.

Das vendedeiras do Bolhão às sargaceiras da Apúlia, passando pelos pescadores de Viana do Castelo ou dos pastores em Trás-os-Montes, mudando aqui e ali o sotaque e o cantar, existem elementos transversais à forma como se fala “cá em cima”, com um espontaneidade que não se encontra em mais lado nenhum.

Temos que divulgar e dignificar esta forma de falar, editar diálogos em disco, transcrever frases ditas entre buzinas de carros, gravar discussões e emiti-las on-line, levar os turistas aos sítios onde se fala assim e explicar o real conteúdo do que ali se diz.

Imaginem um autocarro de turistas a parar no Bolhão, propositadamente para assistir a diálogos  – devidamente legendados em tempo real -, deste género:

– Oube lá! Essas sardinhas num soum minhas?

– Fuoood@$$e! Tás a falar cum queim car@!#o? Aichas c’ando aqui a roubar sardinhas ó o car@!#o?

– Se calhar sou ceguinha noum? Num te vi ali a falar co pan€!€iro do teu home e a bires aqui pegar na saquinha, noum?

– Bai-te incher de muoscas, oube lá. Tá maluquinha ó o car@!#o! Fu%&asse! P*+a que pareu! Passa-te ó car@!#o auntes que te fu%&a o focinho.

– Tenho medo de ti não, ó badalhoca? Dá cá essa m€§da antes que lebes quatro p*+as!

– Tu e mais quantas? Bai fazer br%ches a cabalos, bai-te ganda f%&er! Inda num tinhas pintelhos na c%na e já eu lebeba baldes à cabeça, tás a oubir ó morc%na do car@!#o?

– Era baldes na cabeça e p|$$as na buoca noum sua p*+a de m€§da? Dá cá o filho da p*+a do saco, já disse ,car@!#o!

– Porque que é que o car@!#o do saco habia de ser teu, diz lá?

– É meu porque tem um cordel azul nas badanas, num teim?

– Tem um cordel tem! E esta m€§da é azul por acaso, ó p%rca do car@!#o? Esta m€§da é ruoxo, fu%&asse!

– Eia, fu%&asse! Desculpa! Num foi por mal, mas é um saco igual ao meu car@!#o, e ao longe essa m€§da parecia um cordel azul. Num biste aí o meu saco noum?

– Quero que se fu%&a lá o teu saco, ó o car@!#o. Sai lá daí que beim aí fregueses, baita f%&er.

– Badalhoca.

– A tua mãe.

É este património linguístico que a humanidade não pode dar-se ao luxo de perder.

Com tantos sinais que, por pudor, ainda nos vemos obrigados a utilizar nas transcrições, está-se a perder a genuinidade e fluidez, está-se a perder a riqueza.

Por isso é que não podemos ficar parados e devemos agir para preservar e dignificar o vernáculo nortenho, lutando para o seu reconhecimento e valorização ao nível mundial, car@!#o!

 

 

 

Redes soxiais

Janeiro 5th, 2012

No final do ano passado, veio a público a notícia de que José Castelo Branco – essa personagem rococó – terá alegadamente participado em “orgias”, sendo mesmo sugerido pela comunicação social que este tipo de encontros será comum entre algumas celebridades e pessoas anónimas, formando uma rede secreta de convívios deste género.

Logo houve quem se sentisse enojado com esta notícia, insurgindo-se de forma acalorada contra este tipo de eventos.

São pessoas que têm algumas dificuldades em ver para além do óbvio.

Libertemo-nos por um momento da imagem mental de ver esta bicha gerontófila nua e envolvida em atos que impliquem qualquer tipo de contacto sexual seja com o que for, vivo ou morto ou assim-assim, para nos concentrarmos no fenómeno sociológico a que podemos estar a assistir.

É já amplamente conhecido o fenómeno das redes sociais e o seu impacto na sociedade contemporânea.

É também hoje aceite como uma necessidade o estabelecimento de conexões sociais que tragam benefícios para a vida profissional.

Ora, estes eventos – que alguns teimam em confundir com orgias – mais não são do que reuniões em que se propicia o estreitamento de laços profissionais e sociais, por via do sexo em grupo.

Serão, usando o jargão empresarial, ações de networking ao nível da genitália grupal, que poderão bem ser uma tendência de futuro, a ter em conta para quem quer ter sucesso no mundo dos negócios.

Segundo rezam as crónicas – entre um Pai Nosso e uma Avé Maria, para desenjoar – está prevista a cibernetização deste tipo de redes, associando o conceito de networking genital de grupo ao das comuns redes sociais on-line.

Este novo conceito ficará conhecido por “redes soxiais” e terá expectávelmente uma adesão massiva dos vários sectores da sociedade com estômago isento de patologias graves.

É todo um novo mundo de oportunidades que se abre, literalmente, por isso estejam atentos e não se espantem se um dia receberem um mail com um convite de um amigo para aderir à página cujo logótipo apresentamos abaixo em primeira mão.