Cortes com estilo

Maio 27th, 2010

A nossa classe política é um bocado trapalhona na apresentação de medidas impopulares, e estes últimos cortes – ou medidas de austeridade, como lhe queiram chamar – apresentados pelo governo são prova disso mesmo.

Oram vejam como eu acho que eles deviam ter apresentado as coisas:

“Caros cidadãos,

Numa avaliação feita às nossas contas públicas, levada a cabo por uma entidade independente, a revista Vogue, chegou-se à conclusão que temos um sistema económico-financeiro demasiadamente rétro e ineficaz.

Assim sendo, decidiu o Governo pedir a colaboração da consagrada estilista portuguesa Fátima Lopes, para nos ajudar a instituir cortes corajosos, mais ousados, mais modernos e seguindo as tendências minimalistas adoptadas no panorama externo, dotando o País de uma imagem mais consentânea com os padrões exigidos internacionalmente e mantendo-nos na vanguarda das políticas de contenção orçamental.

Estes novos cortes parecerão estranhos, e mesmo incómodos inicialmente para alguns, mas ajudarão seguramente a reduzir de sobremaneira os custos supérfluos, utilizando de forma mais comedida os nossos recursos.

A sobre-exposição a que ficaremos sujeitos, e a que certamente os mais tradicionalistas não estarão habituados, deverá ser encarada por todos como uma manifestação de arrojo, audácia e modernidade, e um acréscimo de sensualidade e glamour para os portugueses.

Decidiu também o Conselho de Ministros – seguindo aliás as recomendações de Sua Excelência, o Presidente da República – convocar a cidadã Sofia Aparício, para, numa adaptação das linhas de conduta e conselhos práticos que já nos vinha dando no seu programa 86-60-86, nos ajudar a alcançar as medidas ideais e a emagrecer substancialmente as contas do Estado.”

Não era muito melhor assim? Enganavam-nos na mesma, sofríamos que nos lixávamos da mesma forma, mas com muito estilo!

Dependência do chocolate

Maio 17th, 2010

Comecei recentemente a ter cuidados redobrados com a alimentação e uma das coisas que cortei primeiro, e radicalmente, foi o consumo de chocolates.

Ciente de que me é difícil resistir tendo chocolates por perto, e que os consumia diariamente, pedi à minha namorada para esconder todos os que houvesse lá em casa, mas ela foi ainda mais longe e deu-os todos.

Até aqui tudo foi pacífico, mas dois dias depois de ter começado esta “dieta” dei por mim sozinho a abrir e fechar portas, a remexer nas gavetas e a vasculhar todas as prateleiras à procura de um pedacinho de chocolate, um bombom ou um simples M&M’s que porventura tivesse ficado esquecido.

Cheguei então à conclusão que o meu consumo anterior de chocolate era já mecânico e compulsivo, que começava a “ressacar” e que me tinha tornado, portanto, num chocodependente.

Não tive suores frios nem tremores, mas confesso que senti uma certa ansiedade quando não encontrei chocolates em lado nenhum e pergunto-me: como é que me tornei num chocainómano?Tudo começou de certeza com uma Pintarola ou um Smartie colorido, ainda criança, seguidos de uma ou outra Bomboca, com textura fofinha por dentro e chocolate estaladiço por fora.

Sem dar por ela comecei a consumir pó também ainda novo, misturado no leite, lembro-me bem do Suchard Express ou do Cola Cao, que ajudaram ao crescimento da minha dependência.

Ao longo da vida fui alargando o consumo às mais variadas formas: em gelado, em mousse,  em bolo, em bolacha, em rebuçados, branco, de leite ou negro, com recheio ou em fondue.

Cheguei até a pensar fazer máscaras faciais, os meus sonhos eróticos envolviam corpos cobertos de chocolate e nos últimos tempos já andava na fase do noir com 82% de cacau e isso devia ter-me servido de alerta.

Felizmente  parei antes de ser encontrado numa valeta com uma overdose de Pantagruel e a escorrer uma espuminha achocolatada pelo canto da boca.

Espero um dia poder consumir só socialmente, ou pelo menos moderadamente e deixar de sentir ansiedade ou privação quando não consumo, até porque, meus amigos, aquilo é mesmo muito bom!

Esperma importado

Maio 1st, 2010

Meus amigos, a crise é muito mais profunda do que eu imaginava.

Ao que parece temos falta de “liquidez” no mercado espermatozóidal e portanto temos que recorrer ao esperma estrangeiro!

Se até esperma importamos, como é que podemos almejar a equilibrar a balança comercial e reduzir o défice externo?

Acho que agora é indesmentível que já estamos apanhados pelos c0£#õ€s!

Será esta uma explicação válida para aqueles que têm a sensação de que há cada vez mais espanhóis em Portugal?

A boa notícia será que, cumprindo-se o mito, o índice de homens cegos em Portugal deve ter baixado drasticamente.

Numa área em que tínhamos tanto potencial (recordo-me assim de repente de nomes como Zézé Camarinha, Vitor Espadinha ou Capitão Roby) restam-nos duas hipóteses: ou damos a mão à palmatória e reconhecemos que hoje em dia os estrangeiros nos estão a bater aos pontos, ou então metemos mãos à obra e invertemos esta tendência.

Isto põe em causa a continuidade da genética do verdadeiro macho tuga, mas se todos dermos uma mãozinha, voltaremos a ter as cidadãs portuguesas fertilizadas pelo bom velho espermatozóide lusitano, que tantos bigodes deu no passado.

Pessoário

Abril 28th, 2010

Ficar uns minutos num centro comercial, por volta da hora do almoço com a área de alimentação completamente cheia de pessoas, simplesmente a observar a multidão, que pela sua dimensão e dinâmica encobre este acto de contemplação, é um exercício que me dá prazer.

As grandes concentrações de gente são para mim o sítio ideal para observar e tentar perceber a sociedade, ver como as pessoas agem, reagem e interagem, o local onde é possível captar e conhecer novo tiques, traçar perfis com base num instantâneo, imaginar o que terá ajudado a formar cada estilo, assistir ao desenvolvimento de várias tendências, são o mote para parar um pouco e reflectir sobre o que me rodeia.

Era engraçado que estas aglomerações de gente pudessem ser replicadas num observatório oficial de pessoas, que poderia ser chamado de Pessoário, um espaço onde fosse possível observar de forma organizada e sistematizada estas massas.

Tinha que ser um espaço em que as pessoas andassem livres e sem noção de que estavam a ser observadas, que nada tivesse a ver com o fenómeno Big Brother, para não se perder a espontaneidade, que tantas vezes nos trás autênticas pérolas sociológicas.

Anualmente as escolas organizam visitas de estudo a oceanários, fluviários, zoológicos, quintas pedagógicas, museus ou planetários, e eu acho muito bem, porque contribuem para a aquisição de conhecimento dessas crianças, mas eu acho que, se devidamente sensibilizados e orientados para isso, os alunos poderiam tirar brilhantes ensinamentos sociológicos e antropológicos das grandes concentrações de gente.

Como é impossível o conforto de o fazer num sítio único, acho que é importante procurar as grandes aglomerações para fazer este exercício de vez em quando.

Incentivar os mais jovens ao exercício de observação comportamental em sítios como um estádio de futebol, festas populares e romarias, feiras, centros comerciais, comícios, concertos, queimas das fitas, peregrinações, parques de lazer ou praias, e posterior reflexão e análise sobre o que viram, seria um importante contributo para o seu desenvolvimento pessoal, para aumentar o espírito crítico, para discernir e descodificar comportamentos e formas de estar na vida, para apurar o sentido de cidadania.

Eu continuarei sempre a fazer isto quando vou para um sítio muito movimentado:

Paro, escuto e olho… e fico atento, e com os sentidos bem alerta, porque vai ser de certeza muito bom.

Pai Tunal

Abril 23rd, 2010

Ainda a propósito do XX FITU Bracara Avgvsta do fim-de-semana passado, ainda não me tinha pronunciado sobre um dos seus pontos altos, a actuação dos fundadores da Tuna Universitária do Minho.

Sendo eles responsáveis pelo nascimento da Tuna, são uma espécie de pais tunais das gerações que se seguiram, e isso fez-me ver que é possível estabelecer uma analogia entre eles e outra figura querida do imaginário de todos nós, o Pai Natal, com a diferença maior a residir no facto de o Pai Natal não existir, mas os “velhinhos” terem provado (como se preciso fosse) que existem e estão em muito boa forma.

Vamos então imaginar uma figura, o Pai Tunal, que representa os nossos valorosos fundadores, e vejamos os paralelismos que podemos estabelecer com o Pai Natal.

Desde logo, salta à vista que são cada vez mais parecidos fisicamente: os cabelos grisalhos do Pai Tunal tendem a ser cada vez mais brancos e a proeminente barriga do Pai Natal já não parece tão grande quando comparada com a do outro actualmente.

Ambos têm também a tendência a distribuir coisas pelos mais novos: o Pai Natal distribui prendas às crianças que se portam bem enquanto o Pai Tunal distribui “cachaços” pelos caloiros que se portam… bem ou mal… não interessa… o que interessa é que o “cachaço” seja dado na devida altura.

O meio de deslocação do Pai Natal é um trenó voador, puxado por renas, mas o Pai Tunal desloca-se de carro, sendo o ponto em comum o facto de  o Pai Tunal ser avistado muitas vezes com uma grande “carroça”.

Os duendes ajudam o Pai Natal nas suas tarefas, enquanto o Pai Tunal tem o fiel caloiro que está lá para executar o serviço físico que ele não pode fazer.

Tanto um como outro gostam de bebidas gaseificadas, optando o Pai Tunal pela cerveja em abundância em detrimento da Coca-cola de que o Pai Natal tanto publicita.

O Pai Natal, diz a lenda, entra pelas chaminés para maravilhar as crianças, o Pai Tunal entra pela parte de trás do palco para encantar o público.

Ambos usam ou usaram pompons, o Pai Natal traz um pompom branco no barrete, e o Pai Tunal já usou um  de côr vermelha no seu traje.

Os pedidos de prendas chegam ao Pai Natal por carta e ao Pai Tunal também se pedem coisas, normalmente músicas, mas das mais variadas formas.

Existem também diferenças, como o facto de o Pai Tunal cantar bem e o Pai Natal só conseguir balbuciar um “oh oh oh”  monocórdico, mas são ambos personagens simpáticas, que gostam de transmitir alegria e é por isso que não nos esquecemos deles.

Um forte abraço aos dois!