Pasta de papel

Outubro 29th, 2010

Uma das grandes preocupações actuais dos habitantes deste planeta passa pela conservação do ecossistema, em que a reciclagem assume um papel fundamental.

Outra grande tendência actual é a procura de produtos gourmet, onde pontificam os azeites, vinagres, compotas,  bolachas, pastas italianas, vinhos e licores, num infindável rol de formatos e sabores.

É por isso evidente que o caminho passará, mais cedo ou mais tarde, pelo aliar destas duas noções – reciclagem e gourmet – e por isso adianto desde já a ideia de uma iguaria eco-gourmet a explorar futuramente: a pasta de papel.

Segundo algumas pessoas que habitam próximo de fábricas da Portucel o cheiro não será muito agradável, mas tal como as trufas, o caviar ou o queijo azul, será um sabor que se tem que se adquirir com o tempo para apreciar em todo o seu esplendor.

Mapa de curvas de mimo

Outubro 25th, 2010

Tenho muitas amigas e amigos que foram pais recentemente, ou que estão quase a ser, e acredito que pela cabeça de todos passem inúmeras dúvidas e incertezas, sendo que uma delas é como irão evitar mimar demasiado os filhos.

E ao dizer mimar não quero dizer pintar a cara de branco, com uma lágrima desenhada a preto por baixo do olho esquerdo, pôr um barrete, vestir uma camisola às riscas horizontais finas azuis e brancas e imitar insistentemente os movimentos que os seus rebentos fazem, até ao ponto de eles bolçarem e mesmo aí os pais imitarem o gesto.

Nada disso.

O que quero dizer é que é muito fina a linha que separa um tratamento adequado a um filho, o garante que não lhe falte nada, que seja feliz e, por outro lado, a estragação com mimos, com reflexos directos e nefastos na sua preparação para o futuro e personalidade.

É difícil estabelecer o equilíbrio, decidir com certeza quais as atitudes correctas a adoptar e definir qual o ponto exacto em que se começa a abusar da mimalhice.

Por isso defendo que os estudiosos do desenvolvimento das crianças deviam elaborar um mapa de curvas de mimo, para facilitar a vida aos jovens pais.

Era a melhor e mais prática forma de os orientar nesse difícil processo de dar mimo, mas sem estragar.

Vin Dimas

Setembro 29th, 2010

Existe uma personagem muito negligenciada e injustamente deixada de fora dos livros de enologia e etnografia, mas cuja acção é tão importante que o seu nome deu mesmo origem à designação que hoje damos ao acto de “vindimar”.

As primeiras referências a esta figura remontam ao período clássico e dizem-nos que o primeiro elemento desta linhagem foi gerado numa relação entre dois homens: Vinicius, bravo e possante general da legião romana, e Dimastenes, pastor grego que utilizava a ala esquerda dos campos da ilha de Lesbos.

Deram o nome de Vin Dimas ao seu filho, pela junção das iniciais dos seus próprios nomes, e desde aí surge geracionalmente mais um homem com idêntica génese, com as mesmas características pessoais e a mesma missão.

O actual Vin Dimas, dizem os vindimeiros, é o rebento de uma relação secreta entre um famoso actor de filmes de acção de Hollywood e um antigo jogador de futebol português com aspecto rústico.É nesta altura do ano que mais se menciona o seu nome, já que a sua acção é fundamental para inspirar muitos vindimeiros para a dura tarefa de deitar abaixo esses seres maquiavélicos conhecidos como “uvas”, e é por isso que nesta época, ciclicamente, ouvimos falar de Vin Dimas.

A motivação para a sua missão, adquiriu-a de um dos seus pais, pessoa de índole rural, que do campo extraiu a azeitice que o caracteriza.

Farto de ver imensos terrenos que podiam ser ocupados por oliveiras a ser invadidos por intermináveis hordas de “uvas”, Vin Dimas sempre tentou aniquilá-las no período em que elas estão mais maduras e portanto oferecem menos resistência, entre Setembro e Outubro.

Vin Dimas herdou de outro dos seus pais a coragem e a robustez para enfrentar hectares de perigosas “uvas” sozinho, dizimando milhões delas com as suas próprias mãos ao longo dos anos, e espremendo-as valentemente com os seus próprios pés.

O seu exemplo motivou os vindimeiros a segui-lo, e desde tempos imemoriais que, chegado Setembro, deitam mãos à obra, para ajudar a terminar a tarefa do seu mestre.

A mais dura prova de Vin Dimas, neste momento, é defrontar o descendente mais poderoso do clã rival, o seu arqui-inimigo Gonçalo Uva, jogador da Selecção Portuguesa de Râguebi.

É uma luta desigual, já que a namorada deste último, Carolina Patrocínio, fornece-lhe as já famosas cerejas descaroçadas pela empregada, que lhe dão poderes sobre-humanos.

Independentemente do resultado do eventual duelo, Vin Dimas será sempre a imagem de luta constante pela “desuvização”, e servirá de exemplo a todos os vindimeiros vindouros, que nunca deixarão de combater pela sua nobre causa.

A Marquesa de Sade

Setembro 13th, 2010

O diálogo tido há umas semanas atrás,quando me disseram que tinha que ser sujeito a terapia, soou-me mais ao menos assim:

“Vem cá todos os dias de manhã, põe-se em cima da Marquesa, enfia a cabecinha no buraquinho e vai ficar novo!”

A minha libido correu a apanhar o comboio imaginário que passava pelo apeadeiro das rambóias medievais, numa viagem de libertinagem em que a Marquesa seria a principal artífice das minhas melhoras, manipulando prazerosamente o meu corpo com mestria.

Sendo esta aventura prescrita por um médico, estava ilibado de qualquer ilícito conjugal, ficando assim o cenário perfeito.

A realidade norteia-se, no entanto, pelo princípio básico que inspirou a criação do io-iô, e trouxe-me de volta num instantinho.

Durante vinte dias deitei-me na Marquesa, sim senhor, enfiei a cabeça no buraco, não há dúvidas, só que a dita senhora do meu sonho eroterapêutico não passava afinal de uma cama branca e fria, estática, desprovida de arte e intervenção activa, cujo buraco largo se encontrava ao nível do meu crânio, permitindo apenas que este se apoiasse, ficando a observar durante uma hora o solo, sem mexer.

Durante esse tempo não tive um único minuto de prazer, sofrendo com a dureza de alguns tratamentos e com a imobilidade necessária para a prossecução deles.

Quando me levantava, a Marquesa não me dava qualquer palavra de apoio, um abraço ou um aceno que fosse e ficava ali, impávida e gelada a ver-me ir embora, com o buraco a parecer transformar-se num sorriso sádico de gozo, como se tivesse tido muito prazer em me ter ali, a sofrer.

Tudo ficou então claro para mim.

O nome deste aparelho só pode ter vindo, digo eu, desse prazer que ela parece sentir no sofrimento das pessoas, qual Marquês de Sade, regozijando-se por poder receber vários pacientes que lhes satisfaçam essa necessidade, hora após hora.

Maldita sejas, Marquesa!

Espero tão cedo não te pôr o corpinho em cima.

Tarzan terrorista

Setembro 8th, 2010

Tarzan é uma daquelas personagens míticas, de que temos memória desde tenra infância, mas eu desconfio que ele, por baixo de uma capa de ingenuidade, coragem e ajuda ao próximo, sempre escondeu o seu maléfico alter ego de terrorista islâmico.

Aquele cabelo comprido, os trajes rasgados e a selva que o escondem, como se um guerrilheiro fosse, os gritos desesperados que anunciam que se vai lançar e que se assemelham a A…Aaaa… Aaallah, sempre me deixaram com a pulga atrás da orelha, o que é muito incómodo, principalmente durante uma ressonância magnética.

O facto de ter sempre a barba aparada, indicia que ele tinha utensílios de corte escondidos, mas não os usava no cabelo para disfarçar e não levantar suspeitas, aproveitando-se dessa tranquilidade para cortar lianas e rechear cocos com pimenta polvorosa e pirilampos, para depois os atar à cintura e usar nos eventuais ataques suicidas.

Mais evidente ainda – e vejam lá se isto não o denuncia por completo – era ajudado pela macaca Shiita!

E mais não digo.