Surrealismo noturno

Fevereiro 6th, 2014

O nosso cérebro tem um modo de funcionamento absolutamente excecional, que nos permite ser moderadamente racionais quando estamos conscientes, mas que permite uma autêntica revolução surrealista quado estamos a dormir.

Esse verdadeira jabardice cerebral que acontece durante o nosso sono, reflete-se nos mais originais sonhos, sendo que, infelizmente, não nos conseguimos lembrar da maioria deles.

Acontece que, quando alguém é obrigado a acordar temporariamente a meio da noite – para dar leite ou mudar a fralda a um bebé, por exemplo -, tem o inefável privilégio de irromper por esse chavascal sináptico dentro, assistindo em lugar privilegiado ao desenrolar desta surreal rambóia neuronal.

Não sei se já vos aconteceu, mas eu já dei por mim semi-acordado – ou meio a dormir, para ser mais exato – a observar a passagem pelo meu crâneo de pensamentos do género “vou ali agitar a bigorna rosa que lambeu o insuflável”, ou “verta-me aí uns narizes na porta de uma aldeia velha com gelo”, ou ainda “desviei-me de uma estrela cadente debaixo do guarda-chuva dos pinheirinhos”.

A maior parte das vezes tento voltar a estes pensamentos quando acordo, na tentativa de lhes fazer uma biópsia que revele algum sentido naquela junção de conceitos avulsos, mas já cheguei à conclusão que não vale a pena.

Estes vampiros da estupidez, além de dados ao regabofe, são camaleónicos, e conhecem os melhores esconderijos dentro da minha favela mental, o que os torna mais indetectáveis do que um piolho terrorista nas montanhas do Afeganistão.

Mas fica prometido que, se um dia conseguir apanhar algum em estado de conservação aceitável,  o venho aqui partilhar convosco, pode ser?

Pensando melhor, talvez haja melhores caminhos.

Vou encaixilhá-lo e depois vou-o enviar para a Christie’s para que o leiloem, porque pelos vistos isso é que dá muito dinheiro.

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“Alegre” despertar

Agosto 20th, 2012

Uma bela manhã da semana passada acordei ao lado de um homem.

Nada de arrepiar, não fosse o facto de a minha cabeça repousar sobre o seu corpo, sugerindo uma intimidade que eu não estava preparado para aceitar.

Os nossos olhares cruzaram-se na torpidão do despertar, sendo indisfarçável o desconforto mútuo e a pergunta latente, não verbalizada por nenhum dos dois: como é que chegamos a esta situação?

Os seus cabelos grisalhos e as mãos calejadas sugeriam uma educação à moda antiga, onde o contacto entre homens se evita a toda a força.

A timidez com que me olhou, de forma algo paternal, deixou-me com a sensação de que para ele também era a primeira vez.

Confesso que me atrapalhei e fiquei sem reação por uns instantes.

Levantei-me num movimento brusco, limpei a saliva que me escorria da boca e olhei o infinito à procura de respostas.

Como irei explicar à minha mulher e ao meu filho o que acabou de acontecer?

De que forma este acontecimento afetará as nossas vidas?

A que tipo de doenças terei ficado exposto?

Ainda não tenho resposta para tudo, mas de uma coisa tenho a certeza: terei muito mais cuidado da próxima vez que fizer uma viagem de comboio com início às seis da manhã, para não voltar a adormecer no ombro de um estranho qualquer.

Insónia

Setembro 2nd, 2011

Hoje tive uma insónia.

Das grandes.

Devo até estar quase a ter um estiramento da córnea, de tal forma os meus olhos estão neste momento esbugalhados.

Tenho a certeza de que se pode lidar bem com o aparecimento do chamado bugalho ocular – tenho amigos proficientes na matéria – mas a mim, devo confessar, causa-me algum desconforto.

Não passei pelas brasas.

Não ferrei o galho.

Não preguei olho.

Primeiro porque – embora não parecendo – estamos no Verão e recuso-me a acender a lareira, segundo porque o cão do meu vizinho chegou primeiro, terceiro porque desconfio que sujava a cama e a dor talvez não permitisse a correcta sintonização da SonhoTV.

Acho que devia ser possível processar o sono, por danos materiais e morais.

“Xô dôtor juíz, fiz tudo o que estava ao meu alcance para que não faltasse nada a este senhor. Esfalfei-me a trabalhar, cheguei ao fim do dia estourado, tinha uma cama confortável à disposição, com lençóis lavadinhos e uma companhia que aquece o coração, mas vai-se a ver e este suposto profissional que tem escrito na porta do escritório “sono profundo” foi do mais incompetente que encontrei até hoje. Nem um minutinho, xô juíz, este fulano conseguiu que eu ficasse a dormir. É por isso que peço justiça, xôtôr, e que o afaste de vez do mundo dos sonos para que mais ninguém tenha que passar nas mãos deste indivíduo o que eu passei hoje à noite.”

Se calhar, sem dar por ela, foi a minha primeira sessão de preparação pré-natal, no que ao sono compete.

É algo que atormenta qualquer candidato a papá, as noites sem dormir, e havendo tantos sítios onde se trabalha as mais variadas formas de bem estar, parece-me importante que se crie um espaço onde nos possamos preparar devidamente para a privação de sono.

Acho que se devia pensar mais nisto, e com alguma seriedade.

Eu frequentaria de bom grado uma espécie de ginásio – um Soninca – onde se fizessem flexões de pálpebras, alongamento de bocejos, tonificação dos músculos espreguiçadeiros ou abdominais das células indutoras dos sonhos acordados, tudo para que lidássemos da melhor forma com o dia a seguir a noites intermináveis, sem dormir.

Fica aqui a minha pré-inscrição, senhores dos ginásios.

2011!

Janeiro 1st, 2011

E que tal? Está tudo acordadinho? Sem dores de cabeça nem enjoos?

Conseguiram resistir à contagem decrescente para 2011?

Já pensaram que uma mente criminosa genial poderia ter introduzido uma mensagem hipnótica nessa contagem, para pôr toda a gente a dormir ao mesmo tempo quando se chega ao zero?

E do mesmo se podia ter lembrado um marketeer da empresa que produz Rohypnol, elaborando um esquema que lhes permitisse esmigalhar quantidades industriais destes comprimidos para dentro das barricas de champanhe antes do seu engarrafamento, numa campanha publicitária de choque sem precedentes.

Ainda bem que ninguém levou avante estas ideias, porque apreciei estar acordado na entrada deste novo ano.

Começou agora, mas já tem o carimbo de ser um dos anos mais importantes da minha vida, por isso a minha expectativa na sua chegada e no seu arranque.

Recebo-o com muita alegria e optimismo, com muita vontade para assumir compromissos que reforçarão um caminho trilhado a dois, para abraçar novos desafios que se perspectivam, para assumir novas responsabilidades que se adivinham.

Também o recebo com revigorada força e confiança para enfrentar as naturais dificuldades, que exigirão mais do que nunca determinação, rigor, pragmatismo, dedicação e adaptação constantes, mas que nos farão com certeza crescer a todos os níveis.

Vai ser um ano singular também para muitos dos que me rodeiam e que amo, e por isso estou com redobrada vontade de iniciar este voo por 2011 e vivê-lo intensamente junto de todos.

Seja bem-vinda vossa excelência, o senhor ano de dois mil e onze!

Deitar cedo e cedo erguer…

Novembro 12th, 2010

“Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer”.

Quem foi o iluminado que se lembrou de dizer isto?

É anónimo não é?

Pois!

Com a vergonha de ter dito tal barbaridade, esconde-se no anonimato, o cobarde!

Isto pode ser uma boa frase motivacional para padeiros, mas também não consta que eles vivam até aos 120 anos, nem que tenham 2,15 metros.

Não enganem as pessoas com este tipo de promérdios!

Ontem deitei-me cedo e acordei hoje ás 5 da manhã, e agora, de grande, só tenho o sono.

Estou com a sensação de ter sido picado por uma mosca tsé-tsé gigante e que o meu corpo ameaça uma paragem cérebro-ensonatória, além disso sinto-me acometido de nanismo vertiginoso, porque de repente parece que a única coisa que me pode servir é um pijaminha.

Até gostava de estar com o criador do dito para ver se ele acha que estou com ar saudável ou espadaúdo.

Para isso e para lhe dar um tricla na língua, para não dizer coisas destas.

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