Redes soxiais

Janeiro 5th, 2012

No final do ano passado, veio a público a notícia de que José Castelo Branco – essa personagem rococó – terá alegadamente participado em “orgias”, sendo mesmo sugerido pela comunicação social que este tipo de encontros será comum entre algumas celebridades e pessoas anónimas, formando uma rede secreta de convívios deste género.

Logo houve quem se sentisse enojado com esta notícia, insurgindo-se de forma acalorada contra este tipo de eventos.

São pessoas que têm algumas dificuldades em ver para além do óbvio.

Libertemo-nos por um momento da imagem mental de ver esta bicha gerontófila nua e envolvida em atos que impliquem qualquer tipo de contacto sexual seja com o que for, vivo ou morto ou assim-assim, para nos concentrarmos no fenómeno sociológico a que podemos estar a assistir.

É já amplamente conhecido o fenómeno das redes sociais e o seu impacto na sociedade contemporânea.

É também hoje aceite como uma necessidade o estabelecimento de conexões sociais que tragam benefícios para a vida profissional.

Ora, estes eventos – que alguns teimam em confundir com orgias – mais não são do que reuniões em que se propicia o estreitamento de laços profissionais e sociais, por via do sexo em grupo.

Serão, usando o jargão empresarial, ações de networking ao nível da genitália grupal, que poderão bem ser uma tendência de futuro, a ter em conta para quem quer ter sucesso no mundo dos negócios.

Segundo rezam as crónicas – entre um Pai Nosso e uma Avé Maria, para desenjoar – está prevista a cibernetização deste tipo de redes, associando o conceito de networking genital de grupo ao das comuns redes sociais on-line.

Este novo conceito ficará conhecido por “redes soxiais” e terá expectávelmente uma adesão massiva dos vários sectores da sociedade com estômago isento de patologias graves.

É todo um novo mundo de oportunidades que se abre, literalmente, por isso estejam atentos e não se espantem se um dia receberem um mail com um convite de um amigo para aderir à página cujo logótipo apresentamos abaixo em primeira mão.

Restaurante “Lonely Wolf”

Julho 19th, 2011

O restaurante Lonely Wolf, perdido algures no deserto que circunda Las Vegas, está a dar que falar pelo seu conceito inovador, absolutamente focado na satisfação plena de todas as necessidades do cliente.

Vejamos o diálogo abaixo – traduzido livremente para melhor compreensão – onde está bem patente o nível de inovação deste palácio dos sabores.

– Já escolheu?

– Sim, sim. Vou comer a picanha.

– Com feijão preto e couve mineira?

– Pode ser. E um bocadinho de arroz branco.

– Basmati?

– Sim.

– E para acompanhar?

– Para acompanhar pode ser uma núbia caribenha, bem tostadinha, por favor.

– Com picante ou sem picante?

– Traga o picante à parte, se não se importa. Elas já são quentes demais ao natural e não quero exagerar.

– Vai desejar alguma entrada?

– Desejo sim senhor! Uma portuguesinha da costa, das mais pequeninas, mas peça ao chef para pôr extra sal, que elas têm saído um bocadinho insossas ultimamente. E umas ameijoas.

– E para beber?

– Tomo o mesmo que a menina.

No final da refeição, o empregado de mesa dirige-se de novo ao cliente.

– Estava tudo bem?

– Sim, bastante bem. A núbia podia ser um bocadinho mais quentinha… mas com o picante ficou bem, não se preocupe.

– Vou informar o chef e pedir para ter isso em atenção da próxima vez, peço desculpa. Vai desejar sobremesa?

– Vou experimentar o vosso sonho de chocolate em cama de ovos moles e framboesas.

– E sobre a mesa?

– Também, sim. Acho que ainda arranjo um espacinho para o vosso misto asiático. Mas só duas! Sem creme, que já chega de calorias. Pode ser?

– Sim senhor. Duas bolas de gelado em cima?

– Não, só um saquinho de gelo, para pôr em baixo, por favor.

– E no final, um digestivozinho?

– Sim. Qualquer coisa da Real Companhia Velha.

Como viram, nada é descurado neste restaurante, um dos mais fortes candidatos a ser premiado nos guias de várias especialidades, integrando simultaneamente os guias “Boa Cama“, “Boa Vida” e “Boa Mesa“.

Uma experiência gastronómica inolvidável, certamente.

Be Virgin

Junho 27th, 2011

– Boa tarde, o Dr. Rómulo está?

– Está sim, mas hoje é dia de consultas e o senhor doutor tem o dia cheio, posso ajudar?

– Não sei, acho que tem que ser mesmo com ele. Vinha aqui buscar a minha virgindade, porque o senhor doutor ficou-me com ela há uns tempos e depois disse-me para passar cá se precisasse dela.

– Pois, mas fez marcação?

– Fez, fez! Foram quase dois anos sempre atrás de mim, marcação cerradíssima, até que eu lá lha dei, mas só porque ele disse que depois ma devolvia se fosse preciso.

– E isso foi há quanto tempo?

– Há três meses.

– Ui! Mas assim não acredito que o doutor devolva, porque nós só fazemos devoluções até ao prazo máximo de um mês.

– Nem me diga uma coisa dessas, que eu preciso mesmo de ter isso de volta menina! É que na altura eu até nem tinha ninguém e nem notava a falta, mas entretanto conheci um rapazinho muito jeitosinho, que é sobrinho do padre que me confessa, e vou casar para a semana. E o que se passa é que sempre lhe disse que nesse dia lhe dava a virgindade a ele. Agora o que é que eu faço?

– A original não me parece mesmo que se consiga, até porque o doutor passado um tempo de as usar deita fora, mas eu costumo usar aquele pacote de experiências Be Virgin, que tem muitas soluções interessantes.

– Ai sim? E funcionam mesmo?

– Olhe, eu não tenho razão de queixa, ainda ontem usei aquela em que nos põem uns tomatinhos maduros de pele fraca, que rebentam muito bem e depois até têm nutrientes que fazem bem à pele e tudo, e o aspecto é magnífico, parece mesmo a sério. Sabe que quem namora muito está sempre a usar coisas destas.

– Namora muito, é?

– É. Infelizmente namoro muito, mas já estou a reduzir.

– Quantos namora?

– Agora já reduzi para um por semana e até já me sinto melhor. Houve alturas em que era um por dia, e então se saísse à noite eram dois ou três. Só no dia a seguir é que notava o que aquilo me fazia. Era um sufoco! Mas agora namoro muito menos e até estou a pensar em deixar de vez, porque isto faz muito mal à saúde.

– Acho que faz muito bem, eu só namorei algumas vezes, socialmente, e até nem gosto muito, sinto-me muito melada… não sei… é esquisito!

– O mal é que eu gosto sabe? Mas eu hei-de conseguir deixar! Voltando ao seu assunto, não me parece que o doutor vá encontrar a sua virgindade no meio da confusão que está naquele escritório, por isso faça como eu lhe disse e vai ver que o seu futuro marido nem se apercebe.

– De certeza?

– Absoluta, vá por mim.

– Vou experimentar então menina. Mas de qualquer das formas faça-me um favor e diga ao senhor doutor que eu cá vim, para o caso de ele encontrar aquilo me poder devolver ainda esta semana, está bem? O que é nosso tem sempre outro aspecto não é? E se for possível preferia não ter que usar outras coisas.

– Tem razão, vamos ver se é possível. Se houver novidades eu ligo, mas se não falarmos até lá: felicidades para o casamento!

– Obrigado menina.

Portugal não opina

Junho 7th, 2011

Uma grande parte dos meus concidadãos absteve-se de exercer o seu direito (e dever cívico, nunca é demais relembrar) de voto no último domingo, e isso é um fenómeno que me preocupa.

Há até quem se orgulhe de uma abstinência eleitoral prolongada, como se a sua opinião fosse tão importante que não merecesse ser partilhada com o resto do País.

São autênticos missionários do abstencionismo político, numa espécie de Cruzada, mas ao contrário, já que se recusam a fazer cruzes.

As pessoas queixam-se dos estado da nossa democracia e não participam, mas esquecem-se que é exactamente essa falta de participação que a levou a chegar ao seu estado actual.

Aflige-me viver num País em que será necessário haver uma tempestade de proporções bíblicas, um terramoto, uma peste ou uma série de fuzilamentos colectivos para haver uma grande afluência às urnas.

A participação cívica está a esvaziar-se rapidamente no associativismo, na solidariedade, nas manifestações culturais e até mesmo na religião, onde os portugueses se assumem secularmente como católicos… mas hoje em dia são não-praticantes.

A julgar pela baixa taxa de natalidade do nosso País, e assistindo a esta tendência pouco participativa das nossas gentes, começo até a pensar que apesar de se afirmarem na maioria heterossexuais, talvez os portugueses se fiquem só pela treta também neste campo.

Em suma e num desabafo: é triste viver num País em que não se opina.

 

O varão da droga

Março 15th, 2011

A minha vida sempre foi complicada, mas estava longe de imaginar que acabasse aqui sentado nesta gruta penitenciária, sem nada mais para fazer do que contar a minha estória.

A vida dá muitas voltas, e eu presenciei mesmo a muitas, acreditem.

Nasci fruto de uma relação íntima de uma dançarina exótica dos arredores de Nápoles com o seu instrumento de trabalho e desde o primeiro dia senti que era diferente das outras crianças.

Fui o primeiro filho varão da minha mãe e parece-me que não nasciam assim tantos varões nas redondezas, pela reacção das pessoas quando me viam no estojo em que a minha mãe me transportava para todo o lado.

Talvez os espermatozóides-menina estejam na moda – pensei – , e habituei-me à ideia rapidamente.

Até apreciava a minha unicidade, sentia-me distinto, exclusivo, importante.

Ainda criança de estojo comecei a frequentar os locais de trabalho da minha mãe, locais obscuros frequentados por toda a espécie de gente com dinheiro para estourar, mas onde a minha mãe reinava no cimo do palco.

A cor e o movimento do espectáculo sempre me seduziu e não descansei enquanto não consegui fazer parte de um número de strip numa casa nocturna, treinava nas caves e sótãos, mas só aos 15 anos ganhei corpo para me fixar numa sala a sério e fazer o meu primeiro espectáculo.

Vivia então um mundo de novidades e sonho, sempre com mulheres rodopiando à minha volta e aplausos orgásmicos a jorrar dos sofás, pondo frequentemente de pé partes da plateia.

Um sonho tornado realidade, que foi muito bonito enquanto durou.

Mas depois de alguns anos uma pessoa fica cansada, comecei a entender este negócio e a perceber que as dançarinas eram afinal quem ficava com todos os lucros e louvores.

Era a elas que estava reservado o convívio com os magnatas e estes vertiam-lhes rios de dinheiro no decote mais rapidamente que um gasolineiro de fórmula um.

Ninguém apreciava devidamente o meu trabalho e a frustração acumulava-se em mim como o lixo num aterro sanitário, até que num dia em que a sorte se distraiu me cruzei com uma pessoa que mudou a minha vida.

No intervalo de um show, encostado à janela partida do armazém do clube, no beco sombrio situado nas traseiras dos holofotes da entrada, fumava um cigarro descontraidamente quando fui abordado por um indigente de vestes rasgadas, que me abriu os olhos para a realidade.

À minha volta circulava muito dinheiro, muito mesmo, muitas jóias, carros bons, todo o luxo que se podia imaginar, e muito dele vinha da vida do crime, da extorsão, das armas, da droga.

Já nessa altura era uma pessoa marcada pelas cicatrizes da vida, mas era indesmentível que poucos seriam tão duros como eu e o meu corpo esguio tornava-me muito difícil de apanhar.

As palavras do sábio mendigo martelavam a minha cabeça noite após noite até que numa madrugada gelada tomei a resolução de começar a minha guerra contra os senhores do crime locais, e armado de um revólver Vareta que encontrei numa caixa de sapatos que pertenceu ao meu avô comecei a minha demanda.

Desenvolvi capacidades de camuflagem inauditas à época, atacava furtivamente e eles rapidamente sucumbiram ao meu poder.

Assumi assim o controle do crime organizado.

Durante vários anos controlei todos os esquemas: prostituição, jogo, bebida, segurança, roubos de carros, contrafacção, raptos e até roubo de guloseimas a crianças.

Mas a minha principal fonte de rendimento – e futuramente de desgraça – era a droga.

Controlava todo o processo, desde a produção à distribuição e ninguém ousava pensar em enrolar um charro sem que eu desse autorização.

Por isso me começaram a chamar o Varão da Droga.

O que eu não consegui controlar foi a tentação de usar os produtos que fabricava e vendia.

Comecei a empoeirar-me com cocaína de forma descontrolada, ficava com a visão turva e os sentidos adormecidos, imerso num mundo irreal de facilidades e de vã felicidade, e daí a injectar-me com heroína foi um pequeno passo.

Fui aos poucos ficando todo furado e uns jovens ambiciosos começaram a fazer-me frente.

Perdi o controlo de alguns negócios, primeiro as meninas, depois a jogatana e rapidamente perdi a protecção de polícias e juízes, que viram o seu valor de mercado aumentar com o aparecimento dos meus concorrentes.

Fui então indicado como um dos dez criminosos mais procurados no mundo e a partir daí a minha vida foi um inferno, de fuga em fuga, num corropio que nem os meus nervos de aço me ajudavam a suportar.

É inexplicável a sensação de saber que ao mínimo deslize estamos fundidos.

Ia-me valendo o facto de ser esguio para não ser apanhado facilmente, mas ao fim de muito fugir fui um dia apanhado numas redes apertadas de pesca à lampreia e encaminhado para este buraco, onde só me resta esperar pelo final dos meus dias.

Tolhido neste espaço soturno e insalubre, vejo agora que os meus primos que se dedicaram a uma vida de cortinados estavam afinal certos.

Não têm carros, mulheres, nem luxos, mas a luz é certinha a cada manhã e nada lhes corta o poder de continuar a sonhar.

Do mendigo nunca mais soube nada, mas agora desconfio que as vestes rasgadas não terão tido origem em decisões sensatas da sua vida.