Hipercondria

Abril 10th, 2014

É provável que todos conheçam o conceito de hipocondria, um distúrbio psíquico que leva as pessoas a pensarem que padecem de várias doenças, encontrando em tudo sintomas que justifiquem essa sua desconfiança permanente em relação ao seu bom estado de saúde.

Os hipocondríacos são pessoas divertidíssimas para quem não convive com eles diariamente – um bocado à imagem das crianças ultra-hiper-giga-ativas -, e por isso aparecem tantas vezes representados em personagens de séries humorísticas.

Não deve ser fácil viver com alguém que treme e chora de angústia a cada soluço que damos, mas também não será fácil aguentar a ligeireza de quem é o contrário.

Para tudo existe um oposto, e por isso é importante trazer ao debate público as pessoas que estão nos antípodas da maneira de ser dos hipocondríacos: os hipercondríacos.

Os hipercondríacos são pessoas que dizem que estão sempre bem, que relevam os sintomas patológicos que o seu corpo apresenta, são extremamente resistentes à dor e acreditam que viverão muitos e muitos anos, sem qualquer necessidade de recurso a médicos ou hospitais.

Um típico hipercondríaco seria alguém que, apesar da fratura exposta do antebraço, o pé esmagado, o crâneo com fissuras tipo teia de aranha, uma tesoura espetada na córnea, portador de 3 tipos de hepatite, com uma pneumonia e malária, se recusa a ir ao médico e sorri, dizendo, do alto dos seus 14 anos, que se sente muito bem, é feliz, e terá uma longevidade sem precedentes.

Pessoas assim geram amores e ódios, já que são o terror das contas bancárias dos profissionais de saúde, sendo no entanto alguém que garante uma rotatividade de produto muito interessante às casas mortuárias.

Devemos ter especial cuidado quando lidamos com hipercondríacos que prezamos, porque é natural que não peçam socorro se forem esmagados por um tronco de árvore ou atropelados por todo o pelotão da NASCAR, pelo que devemos estar particularmente atentos à sua conduta, para evitar desgostos.

Por outro lado, é muito divertido lidar com hipercondríacos que abominamos, porque podemos aplicar-lhes todo o tipo de tortura sem que eles enveredem pela gritaria e queixinhas habituais nas pessoas ditas “normais”.

Há quem não saiba muito bem detetar um hipercondríaco na rua, e, convenhamos, não é fácil, mas da próxima vez que virem um corpo putrefacto com um sorriso e um polegar virado para cima em sinal de boa disposição, poderá ser que estejam perante um.

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Visitas hospitalares

Janeiro 23rd, 2014

É sabido que as visitas dos familiares e amigos mais próximos são um aconchego para a alma de quem se encontra hospitalizado.

É um apoio psicológico e logístico, mas é, acima de tudo, o reconforto de ter por perto aqueles de quem mais gostamos, e uma forma de transformar aquele espaço de dor um pouco mais suportável, sentindo ao nosso lado o que de mais importante o nosso lar tem.

Isso é uma coisa.

Outra coisa, são as pessoas que insistem em ir visitar alguém que está no hospital, mesmo que não tenham grande ligação com essa pessoa, nem carreguem com elas nada de positivo para ajudar naquele momento difícil.

Há pouco tempo tive a oportunidade de estar perto da imensa fila de espera num hospital público, em hora de visitas, e apercebi-me que há indivíduos que nem sequer sabem o nome da pessoa que vão visitar.

Fazem-no por bons motivos?

A maioria, certamente, mas há autênticos profissionais da visitação, que vão repartindo o seu tempo entre os hospitais e os funerais, por “respeito” e “consideração” às pessoas.

Fazem-no de forma solene, semblante carregado e com a máxima atenção para o que se passa em redor, registando os movimentos que lhe parecem fora da norma e não se coibindo de os comentar.

Bisbilhotice, insensibilidade, invasão de privacidade, cara de pau?

Não!

“Altruísmo”, “amizade”, “solidariedade”, “apoio”.

Quem é que no seu perfeito juízo acha que alguém fica extremamente contente por ver entrar porta dentro uma pessoa que não nos é muito próxima quando estamos adornados de gaze e agulhas, vestidos de batinha hospitalar, sem roupa interior, de olhos vidrados e a espumar pela boca?

Quem é que se sente mais confortável por ter ao lado alguém a fazer perguntas bacocas e a debitar casos de “amigos” que padeceram da mesma coisa, quando estamos débeis, dormentes, limitados a olhar em frente, submetidos à prisão da cama e com a mala da dor carregadinha até cima?

Já ouviram falar de “Turismo Negro“?

Tenho para mim que o “turista negro” dá os seus primeiros passos e se revela primeiramente nas visitas hospitalares.

É começar a cobrar bilhete a estas pessoas.

E não é difícil perceber quem elas são, pela maneira como se apresentam e pela forma fluída com que interagem com os espaços e funcionários dos hospitais.

Pode ser que seja esta uma inovadora e bem sucedida forma de financiamento dos hospitais, que venha contribuir para o abaixamento das taxas moderadoras.

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Pertinência

Setembro 5th, 2013

No consultório médico.

 

Médico (M) – Bom dia. Então o que se passa?

 

Paciente (P) – Bom dia senhor doutor. Na realidade não sei bem o que se passa, mas tenho notado que as pessoas me evitam e excluem… sinto que tenho algo estranho.

 

M – Muito bem. Quando se dão essas reações?

 

P – Normalmente quando questiono alguém sobre algo que não me parece correto ou que tem uma aparência suspeita.

 

M- O que é que o senhor faz na vida?

 

P – Sou jornalista.

 

M – E quando faz essas perguntas incómodas, fá-las com argumentos que as sustentem?

 

P – Sim. Sempre.

 

M – Pois… era de prever. O que eu tenho para lhe dizer não é muito agradável.

 

P – É grave doutor?

 

M – Sim. Infelizmente o senhor sofre de pertinência.

 

P – Ui doutor, nem me diga isso! Era o que eu mais temia. Parecia-me que podia ser isso, mas quis sempre pensar que era só uma cisma minha.

 

M – Percebo que sim, mas infelizmente é evidente e com reflexos gravíssimos a nível profissional.

 

P – Vou ter que deixar de trabalhar senhor doutor?

 

M – Imediatamente! Põe em risco todos os seus colegas e a si próprio se continua.

 

P – O que é o pior que me pode acontecer doutor?

 

M – Se não acabar por o corroer por dentro, causar suores frios e insónia, no limite, para acabar com o sofrimento alguém o acabará por abater.

 

P – Mesmo que eu não queira?

 

M – Sim. É uma questão de saúde pública.

 

P – Tem cura?

 

M – Não está cientificamente provado, mas pelo menos deve amenizar os sintomas se começar a ler a revista Maria e assistir a alguns reality shows e telenovelas.

 

P – Com que frequência?

 

M – Dois a quatro programas por dia preferencialmente depois das refeições. Se se sentir mesmo muito pertinente, reforce à noite com televendas.

 

P – Muito obrigado doutor. Vou fazer tudo para tirar este bicho cá de dentro e esvaziar este cérebro.

 

M – Não tem nada que agradecer. As melhoras. 201224132

Pornografize a sua performance

Agosto 23rd, 2012

Segundo um estudo publicado por cientistas britânicos, os halterofilistas que assistem a vídeos pornográficos conseguem levantar com maior facilidade os pesos.

Ora aí está um estudo que se foca no essencial e que contribui decisivamente para a melhoria das condições de vida de uma série de gente.

E para o aumento da competitividade.

Tudo será diferente doravante nos ginásios e empresas onde sejam levantadas coisas à força de braços.

Nos ginásios, os canais desportivos habitualmente sintonizados nas televisões serão substituídos por canais com conteúdos pornográficos.

É um dois-em-um para os ginásios, que, ao mesmo tempo que aumentam a performance dos seus utentes, poupam no valor de subscrição dos canais, já que o desporto televisivo em Portugal, como se sabe, é bastante mais caro que o sexo televisionado.

Ainda no desporto, já estará a ser estudada uma parceria entre os organizadores do Homem Mais Forte do Mundo e os representantes dos produtores de filmes pornográficos americanos, para instalar ecrãs gigantes nos recintos destas competições.

A ideia subjacente a esta iniciativa é a de que, vendo pornografia em tamanho gigante, se obterá resultados verdadeiramente extraordinários.

Noutras áreas não será tão fácil ter resultados similares.

Há muito tempo que o Sindicato dos Estivadores e o Sindicato dos Técnicos de Handling, estariam a negociar com os patrões a montagem de televisões com pornografia permanente junto dos respectivos postos de carga e descarga.

O investimento é muito avultado e a resistência do patronato tem sido enorme, mas como os resultados estão agora comprovados cientificamente já terá sido alvitrada pelos patrões a hipótese de ter essas televisões disponíveis até ao final do ano.

Para já só é possível assistir pornografia no bar do pessoal e nos telemóveis, o que não tem o mesmo efeito, já que alguns profissionais não conseguem guardar a memória do que viram o tempo suficiente para obter aumento de produtividade no regresso ao posto de trabalho.

Diz-se em surdina, nos corredores da política mundial, que já estará na forja um novo estudo, que comprova que assistir a vídeos pornográficos durante a votação de leis ajuda os políticos a tomar a decisão mais correta, principalmente se quiserem optar por abstenções violentas.

Na área da saúde, há investigadores que se debruçam sobre os impactos do visionamento de pornografia em doentes com paralisias várias e também nas maternidades se está a estudar a hipótese de instalar televisões com vídeos pornográficos na sala de partos, para as parturientes fazerem mais força no momento devido.

Desconfia-se no entanto que neste caso isso traga à memória o que as levou até ali, criando muita confusão e sensação de dejá vu, podendo, portanto, não ter os efeitos desejados.

Seja como for meus amigos, está visto que a pornografia está aí para ficar, agora com a ciência a dar-lhe a devida validação, como já se justificava há muito.

Se querem ter resultados extraordinários e força sobre humana, já sabem, pornografizem-se.

 

Comida saudável

Julho 16th, 2012

– Bom dia senhores telespetadores. Em tempo de Verão aumentam os cuidados com a saúde. Por isso temos hoje connosco no programa o Dr. Elói, que nos vem falar de bons hábitos alimentares. Bom dia Dr. Elói!

– Bom dia Ginginha!

– Hoje vem falar-nos de comida saudável, não é?

– É verdade. Muita gente fala de comida saudável e pouca gente acerta naquilo que diz.

– Como assim?

– Eu explico. As pessoas que hoje se apresentam como nutricionistas ou dietistas, estão muita vezes enganados quanto ao próprio conceito de comida saudável. Comida saudável, como o próprio nome indica, é a comida que pode ser saudada ou que dá vontade de saudar.

– Ora aí está uma abordagem diferente, Dr. Elói.

– Diferente e acertada! Veja bem Ginginha, quando entra numa sala e vê pessoas mirradinhas, secas ou azedas, apetece-lhe saudá-las?

– Não.

– Isso é algo que lhe faça bem? Que a ponha bem disposta? Essas pessoas fazem-na sentir melhor? Contribuem para o seu bem estar?

– Não, de facto não.

– Pois com a comida é a mesma coisa. Se vê uma pêra mirrada, um pão seco ou um leite azedo não vai sentir vontade de os cumprimentar. Como consequência, não vai criar a devida empatia com esses alimentos e portanto eles não lhe vão fazer bem. Pelo contrário, se vir uma alface viçosa, uma maçã rijinha ou um doce croissant vai sentir naturalmente vontade de os cumprimentar com um sorriso aberto e consegue assim uma relação com os alimentos, que fará com que estes a tratem muito melhor.

– Portanto, o que no está a querer dizer é que devemos saudar a comida com bom aspeto e criar com ela uma relação positiva, para que essa comida nos faça bem, é isso?

– Exatamente. São esses os benefícios da comida saudável. Melhor ainda, não tem que andar preocupada com quantas calorias determinado alimento tem. Se tiver bom aspeto e lhe der vontade de a saudar, ela vai-lhe fazer bem de certeza.

– Mesmo os doces e o álcool?

– Claro que sim! Experimente abrir um boião com doces apetitosos e dizer de forma enérgica “Bom dia caramelo!”. Vai ver que esse caramelo vai ficar tão contente por ser saudado dessa forma, que se sentirá na obrigação de contribuir para o seu bem estar. “Olá senhor bagaço!” ou “Ora viva meu amigo suspiro recheado com doce de ovos e pepitas de chocolate!” são outros exemplos de uma abordagem saudável à comida.

– Então quer dizer que, a partir de uma saudação da comida, estabelece-se uma relação com óbvias vantagens para a saúde dos humanos, é isso?

– Exatamente.

– E como sabemos se estamos perante comida saudável?

– Pelo aspeto percebe logo, acredite. Não se pode é guiar por alguns preconceitos que se têm vindo a instituir relativamente a alguns alimentos que, apesar do inegável bom aspeto, as pessoas teimam em ostracizar.

– Isso que dizer que se me deparar com um simpático cozido à portuguesa ou uma jovial terrina de gomas não devo resistir, mas sim saudá-los alegremente?

– Sim, à partida esses exemplos enquadram-se naquilo que eu considero ser comida saudável, seguramente.

– Fantástico. Dr. Elói. Muito obrigado pela sua ajuda. Bom dia para si.

– Um excelente dia para si Ginjinha!