Agora mete-se o Carnaval…

Fevereiro 12th, 2010

Esta semana comecei a promover um evento que implicará instituições portuguesas e espanholas.

Ao longo dos contactos que estabeleci deparei com duas situações que nos identificam e diferenciam enquanto povo.

Quando liguei para Espanha e pedi para falar com o responsável pela instituição deram-me imediatamente o contacto pessoal do responsável, informando tratar-se do Miguel, da Sara, da Susana, ou outro nome próprio qualquer, e disseram-me ainda o horário mais aconselhável para os encontrar na instituição (nos casos em que eles estavam lá, passaram-me imediatamente à pessoa em questão).

Passada essa fase, e depois de entrar em contacto directo com os responsáveis, estes prontificaram-se a analisar a situação e dar uma resposta com a maior brevidade possível, e agradeceram o contacto.

Cá em Portugal ninguém me deu o contacto directo dos responsáveis, deram-me um e-mail geral para eu enviar o projecto, ao cuidado do Dr. não-sei-quê ou da Eng. não-sei-que-mais.

Pelos vistos cá em Portugal não temos ninguém com um nome que não seja precedido de um título e que tenha menos de dois nomes.

É um país de gente muito importante, onde nunca foi possível o contacto directo.

Tão importante que num segundo contacto tentando obter feed-back, além de voltar a não ser possível falar directamente com o responsável, foi quase unânime que só no final da próxima semana é que os doutores e engenheiros portugueses analisariam a situação porque… agora mete-se o Carnaval!

Agora mete-se o Carnaval?!?!

Desde o início da semana?

E na próxima semana, como vai ser?

“Pois não foi possível ver nada sabe? É que meteu-se o Carnaval e de maneiras que está tudo um bocado atrasado… e depois mete-se a Páscoa e o 25 de Abril… é uma chatice… não pode telefonar lá para Maio, depois do Dia do Trabalhador? Talvez o senhor doutor já tenha lido o e-mail nessa altura?”.

Os pretextos para adiar as situações são tantos que qualquer dia, para poupar trabalho, é natural que se comece a usar só uma gravação anual que diga “Pedimos desculpa, mas agora mete-se o ano de 2010 e vai ser difícil dar seguimento a esse assunto… não se importa de ligar para o próximo ano? Pode ser que aí o senhor engenheiro possa atender.”

A fragilidade

Fevereiro 1st, 2010
Há momentos que revelam toda a nossa fragilidade e que nos fazem reflectir sobre a nossa condição de simples visitantes deste mundo.
Fui informado há pouco do falecimento de uma pessoa que, não fazendo parte do meu círculo mais próximo de amigos, prezava imenso.
Alguém mais jovem do que eu, com uma força de carácter invejável, dinâmico, voluntarioso, rigoroso, dedicado, trabalhador, educado, optimista, solidário, respeitador, honesto, dono de uma saúde admirável e com cuidado constante na manutenção da mesma, um profissional exemplar e um modelo de cidadania.
Dos que fazem cá falta.
Num acidente que não podia evitar, porque não teve culpa de nada, ficou sem vida.
É uma daquelas notícias que nunca esperamos e que mexeu comigo, porque era um homem jovem com muito para dar, porque tinha uma formação pessoal que já não é fácil encontrar, porque sempre teve uma conduta impecável ao longo da vida e por isso não merecia este infortúnio.
Fica um vazio em todos os que tiveram o privilégio de se cruzar com ele em vida e uma revolta interior pela injustiça de um desaparecimento precoce.
Fica também o seu exemplo positivo e a sua força, que marcaram a passagem dele por cá.
E o agradecimento, que sei que não é só meu, pela sua postura exemplar neste percurso entre nós.

Féstas Pópuláris

Junho 26th, 2009
Na passada 4ª feira foi dia de mais uma festa popular na minha cidade, o S. João.
Em Braga, cumprindo a tradição, o povo saiu à rua com martelinhos e alhos porros festejando o seu santo padroeiro.
Mas algo de estranho se passa, a meu ver, nas festas populares, um pouco por todo o País.
Onde estão os vendedores de potes de barro, gaiolas de grilos, bonecos de madeira, violas de plástico, bolas de borracha, tachos e panelas e grelhas para assadores?
O número de vendedores ambulantes é o mesmo, ou mesmo ligeiramente menos, mas na sua esmagadora maioria não vêm de Amares, nem de Vila Verde, Barcelos, Ponte da Barca ou Vieira do Minho.
Vêm do Burkina Faso, da Costa do Marfim, de Angola, Marrocos ou Senegal.
E vendem roupa, malas, relógios e óculos de sol de marcas conhecidas e estatuetas de madeira ou t-shirts e outros artigos com o Bob Marley estampado.
Havia ainda barraquinhas com caipirinhas e mojitos e vendiam-se também pizzas!
O que me leva a constatar que estas festas, de populares e tradicionais já têm muito pouco.
Até porque falta também a já tradicional visita da ASAE a tudo o que são feiras no nosso País e assim, à descarada, se vende todo o tipo de material contrafeito.
Não fico indiferente a isto, e não por qualquer tipo de racismo ou algo do género, mas porque mexe comigo que não se tratem todos da mesma forma e mais ainda que se desvirtuem festas que são centenárias e que têm algumas tradições que, quanto a mim, não se deviam desvirtuar.
Ao menos chamem-lhe outro nome qualquer, organize-se uma qualquer festa dos Santos Mundiais para reunir esta gente toda no devido contexto, mas a sonoridade de Féstas Pópuláris não me soa muito bem!

Mário Crespo no JN

Fevereiro 13th, 2009
Chamou-me a atenção este artigo do Mário Crespo, onde ele põe em causa a actuação do Governo, no seguimento do chamado “caso Freeport”.
E chamou-me a atenção por vir de uma pessoa que normalmente se pauta pela sobriedade, que está no centro da informação e que fornece alguns dados na primeira pessoa (ainda que superficialmente) sobre pressões que ele próprio sofreu.
Apreciei a frontalidade e a forma com pôs o dedo numa ferida que toda a gente parece querer ver tapada ao invés de sarada.
Fez-me reflectir sobre o actual estado político do País, a arrogância extrema do Governo, a falta de alternativas, os tiques ditatoriais do actual executivo, a passividade e desinteresse da maioria da opinião pública, a promiscuidade entre os vários poderes e a impunidade dos altos quadros dirigentes.
Resultado da reflexão: preocupação, indignação e frustação por não ver uma solução e um projecto de País com sustentabilidade.