Dispidida

Maio 8th, 2014

Sempre me senti um cidadão do mundo, no sentido em que faz parte de mim a procura pelo contacto com outras culturas, a enorme paixão por viajar, a vontade de descoberta do que está para além da minha rua, do meu bairro, da minha cidade e do meu País.

Apesar disso, atravessei estas primeiras décadas de vida tendo por base o meu território natal, onde pude contar quase de forma permanente com a proximidade da maior parte da minha Família e Amigos.

Também por cá desenvolvi o meu percurso profissional, sendo sempre pontuais as minhas deslocações e contactos com o exterior.

Nunca escondi a vontade de poder experienciar a vida de residente noutro país, inserido noutro ambiente sócio-cultural e económico.

Enquanto estudante poderia ter feito Erasmus, não o fiz, enquanto recém-licenciado poderia ter integrado o programa Inov Contacto, também não o fiz, e as raízes foram crescendo na pátria mãe à medida que ia evoluindo profissionalmente e fazendo crescer a Família.

Damos mais importância aos pequenos nadas desta proximidade à medida que ficamos mais velhos, penso eu, e estava por isso confortado com a ideia de que me sentia bem assim e que era uma ótima opção de vida.

A vida, no entanto, mudou muito nos últimos tempos, e aquilo que era uma opção passou rapidamente a tornar-se uma necessidade.

Uma necessidade muito forte.

Não só pela falta de emprego, pelos constrangimentos económico-financeiros ou pela falta de esperança, mas uma necessidade cuja base se constitui hoje numa revolta muito grande, comigo próprio e com os meus concidadãos, pelo estado a que nós deixamos chegar este país.

Acreditem ou não, a minha convicção é a de que estamos como estamos por culpa própria e não pelos políticos que temos ou pelas redes de interesses instaladas.

Eles existem porque nós deixamos e continuamos a alimentar toda essa corja com a nossa indiferença, o nosso conformismo, a nossa passividade, enquanto comentamos na rua, no café ou no barbeiro, indignados, a última barbaridade do parlamento ou da justiça.

Indignados mas não atuantes, serenos, como também faz parte da nossa lusa maneira de ser.

Talvez  nos falte a beligerância de outros povos, talvez foquemos mais as nossas forças naquilo que podemos fazer no nosso raio de ação mais próximo, mas o facto é que hoje, tantos de nós – da minha geração e outros mais novos – com pêlo na venta, com competências excecionais, com ambição e criatividade desmesuradas, nos vemos a ser “empurrados” para fora do país, na busca da concretização dos nossos sonhos, da nossa auto-realização e da fundação das bases para um futuro digno para os nossos filhos, e aceitamos isso já com grande naturalidade, como uma verdade insofismável, como uma causa perdida.

Talvez nos devêssemos bater de forma mais veemente pelo direito a ter um país livre de corrupção, politiqueiros e subserviência lobista, mas não estamos para aí virados, sentimos de forma pragmática que é uma luta com armas desiguais e que as forças a ser empregues nela podem ser canalizadas para algo efetivamente produtivo e gerador de um futuro melhor.

Ainda que o preço a pagar seja a distância a este país e estas gentes que tanto amamos na sua essência mais pura.

O que é um facto é que Portugal, hoje, não tem nada para oferecer a quem tem o mínimo de valor, vontade e dedicação.

Há um aproveitamento massivo da palavra “crise” para justificar salários em atraso, contratações sem salários base, recurso cíclico a trabalho temporário, com ordenados muitas vezes abaixo do salário mínimo, encapotado por uma qualquer desvio legal que permite fazê-lo, despedimentos ilegais ou coação permanente nas empresas.

Remunerações insultuosas, desrespeito pelo trabalho desenvolvido, impunidade total, acesso deficitário a boa educação e cuidados de saúde, impostos esmagadores, caciquismo, tudo isso desmotiva e faz com que, aos poucos, seja quase com alívio que vemos chegar uma oportunidade no estrangeiro para tocar a nossa vida para a frente.

Vou em breve abraçar uma nova fase da minha vida, com muita esperança, motivação e alegria, na ilha de Santiago, em Cabo Verde, onde vou assentar arraiais e fazer crescer a minha vida familiar e profissional.

Por muito que tenha procurado esta oportunidade, sinto-me neste momento como uma palhinha num cocktail de emoções, que à medida que vai girando dentro do copo vai encontrando felicidade, tristeza, saudade, curiosidade, paixão, amor, revolta, desprendimento, conformismo, impaciência, ansiedade, ambição, confiança, coragem, medo, angústia, excitação, segurança, motivação, e tantas outras coisas, num turbilhão que me faz continuar a girar e a sentir-me vivo e com vontade de seguir em frente, decidido e com a certeza de que este é o caminho certo para nós.

Fisicamente vou estar um bocadinho mais longe deste cantinho lusitano, mas não vai haver dia em que não esteja cá, e com os de cá, porque as distâncias encurtam-se quando os corações são grandes e a tecnologia ajuda.

É uma despedida?

É.

Como quando saímos de casa e gritamos para que toda a gente lá dentro ouça, com a porta já semi-fechada, “Até logo”!

Marca_turistica_de_Cabo_Verde_by_MrMAU

 

Partidarite

Abril 16th, 2012

A partidarite é uma doença que se manifesta, entre outras coisas, por visão de túnel, falta de vontade própria, seguidismo, estado de negação, acefalite e mudanças súbitas de opinião.

É uma doença muito semelhante à clubite, mas mais grave, porque esta é detetada em ambientes frequentados por pessoas que buscam espetáculo, emoção e evasão, e onde os efeitos decorrentes dos atos dos contaminados não tem, geralmente, consequências irremediáveis para a vida dos cidadãos.

A partidarite atinge indivíduos supostamente detentores de generosas doses de rigor, razoabilidade e responsabilidade, podendo os seus atos definir o futuro de várias gerações, o que faz com que seja uma doença que deve ser tratada com o máximo cuidado, sendo decretada quarentena obrigatória para os contaminados, mantendo-os por um longo período em isolamento.

É uma doença que infelizmente ainda não tem reconhecimento médico, não lhe sendo conhecido qualquer tipo de tratamento, mas que é reconhecida pelo sistema judicial, que a põe ao nível das doenças de foro psicológico, garantindo  inimputabilidade para os contaminados.

Para se perceber exatamente do que estamos a falar vamos dar um caso prático.

O deputado Pedro Nuno Santos afirmou recentemente que aprovar o Tratado Orçamental da União Europeia é vender a nossa alma.

No dia a seguir foi decretada disciplina de voto na sua bancada parlamentar e o fiel deputado manteve o que disse, mas afirmou que votaria então de acordo com a vontade do partido, mesmo estando visceralmente contra.

Foi-se a vontade própria e segue-se com deferência as instruções partidárias, ainda que o preço deste voto seja o da sua alma.

Provavelmente até não custou muito, mas este caso manifesto de partidarite, obriga -nos uma reflexão.

Se não queremos fazer nada para combater a partidarite, não será melhor, ao menos, reduzir o número de cadeiras do parlamento para seis?

Um representante por cada partido eleito já chega, porque na prática os deputados apenas têm direito a exprimir a vontade do seu partido e não a sua.

O país era capaz de suportar viver com menos 224 lugares ocupados por gente que se limita a copiar o voto do lado, não?

Mas se queremos fazer algo verdadeiramente bom para a saúde pública devíamos fechar estes indivíduos em quarentena prolongada e instituir uma nova assembleia, verdadeiramente representativa, onde as pessoas respondam por si, debatam de acordo com as suas convicções e se responsabilizem pelos seus atos.

Portugal não opina

Junho 7th, 2011

Uma grande parte dos meus concidadãos absteve-se de exercer o seu direito (e dever cívico, nunca é demais relembrar) de voto no último domingo, e isso é um fenómeno que me preocupa.

Há até quem se orgulhe de uma abstinência eleitoral prolongada, como se a sua opinião fosse tão importante que não merecesse ser partilhada com o resto do País.

São autênticos missionários do abstencionismo político, numa espécie de Cruzada, mas ao contrário, já que se recusam a fazer cruzes.

As pessoas queixam-se dos estado da nossa democracia e não participam, mas esquecem-se que é exactamente essa falta de participação que a levou a chegar ao seu estado actual.

Aflige-me viver num País em que será necessário haver uma tempestade de proporções bíblicas, um terramoto, uma peste ou uma série de fuzilamentos colectivos para haver uma grande afluência às urnas.

A participação cívica está a esvaziar-se rapidamente no associativismo, na solidariedade, nas manifestações culturais e até mesmo na religião, onde os portugueses se assumem secularmente como católicos… mas hoje em dia são não-praticantes.

A julgar pela baixa taxa de natalidade do nosso País, e assistindo a esta tendência pouco participativa das nossas gentes, começo até a pensar que apesar de se afirmarem na maioria heterossexuais, talvez os portugueses se fiquem só pela treta também neste campo.

Em suma e num desabafo: é triste viver num País em que não se opina.

 

Tratamento desigual

Maio 2nd, 2011

Há alturas na vida em que o sítio onde estamos sentados influencia perniciosamente o nosso pensamento.

Digo isto porque dei por mim há pouco a pensar que se compararmos as duas convulsões sintomáticas de doença ou mal estar, a tosse e o espirro, denotamos que o espirro é muito beneficiado em relação à tosse, na forma como o recebemos.

Se repararmos bem, o espirro é sempre saudado, após a sua chegada inesperada, com um sonoro “viva!”, “saúde!” ou “santinho!”, expressões aliás que originam o agradecimento imediato do autor do espirro.

A tosse por outro lado é recebida com indiferença, sem qualquer expressão popular que a acompanhe.

Por muito que uma pessoa fique roxa de tanto tossir, nem uma palavra de carinho, nem uma expressão de solidariedade.

Com a proliferação das associações defensoras dos direitos de qualquer coisa que se mexa, até me admira que ninguém tenha ainda levantado a voz para reivindicar o direito da tosse ser igualmente recebida com expressões semelhantes à dos espirros.

O mesmo se passa com os soluços, mas noutra escala, já que estes têm em relação aos outros a vantagem de acarretarem consigo momentos hilariantes de apneia, sustos ou encharcamentos massivos de traqueia.

Tudo isto, dizia eu no início, porque estava sentado em louça sanitária, tendo por isso esta pequena reflexão a forte influencia do produto interno bruto que tinha acabado de libertar.

A administração pede desculpa por qualquer desconforto causado.

D. Lusa

Abril 22nd, 2011

A estória que hoje tenho para partilhar convosco não é nada alegre, é uma estória que me deixa perplexo perante um cenário incompreensível.

D. Lusa namorou 7 anos com aquele que viria a ser o seu marido, separaram-se momentaneamente por vicissitudes da vida, mas ao fim de pouco tempo o amor falou mais alto e são já casados há 6 anos.

O que a seduziu nele foi a sua imagem de galã, a sua facilidade de comunicação, os seus planos para um futuro risonho, a segurança que dele emanava e a certeza de que ao seu lado tudo seria um mar de rosas.

No início, como em tudo na vida, as coisas correram aparentemente bem, mas ao fim de algum tempo a máscara começou a cair e a arrogância do marido veio acompanhada de violência verbal, rompimento de promessas, gastos com coisas supérfluas e esbanjamento com os amigos dele, mentiras, pressões para ela não dizer nada a ninguém, traições, vícios vários, tornando o ambiente insuportável e insustentável, espoliando-a dos seus recursos financeiros e da estabilidade que tinha adquirido com o tempo e deixando-a sem dinheiro sequer para tratar da educação ou saúde dos seus filhos, com dificuldades até para lhes garantir o pão futuramente e marcas muito profundas, que dificilmente serão saradas.

D. Lusa é uma mulher bonita, muito bonita, com valores morais centenários, de boas famílias, desejável para qualquer homem, e portanto não lhe faltaram, ao longo da sua vida e até hoje, pretendentes ao lugar de seu marido.

Com o passar do tempo tornou-se no entanto numa mulher acomodada, sujeitando-se aos vários abusos sem retorquir, fechando os olhos aos sinais, ignorando as evidências e rezando muito, só rezando, para um dia acordar de um sonho mau e regressar ao seu mundo idealizado.

Apesar do mal estar sufocante, de ter a certeza de que o marido é mau para ela, pensa que todos serão como ele e que não vale a pena aspirar a algo melhor, porque fatalmente irá redundar no mesmo tipo de pessoa.

Nem lhe passa aparentemente pela cabeça abandonar o seu marido, fiel a uma teimosia dolorosa, que a arrasta cada vez mais para o fundo.

Nada fez para o denunciar às autoridades e responsabilizá-lo pelo estado miserável a que a sua vida chegou, como é comum nas mulheres vítimas de violência doméstica, e só com muita pressão externa foi forçada a revelar a realidade do seu quotidiano.

Quando questionada sobre a sua relação, depois de expostas publicamente todas as fragilidades do seu casamento e abusos a que foi sujeita, D. Lusa encolheu os ombros, resignada ao seu fado, e disse que não queria apresentar queixas, e mais, sabe-se agora, comentou que ponderava manter no futuro a relação com o seu marido.

A única certeza que tem na sua vida é que o seu marido a maltrata, mente descaradamente e continuadamente abusa dela.

O futuro ao seu lado é doloroso e negro, mas nem sequer lhe passa pela cabeça mudar, porque acredita que os outros também devem ser da mesma laia.

Serão, talvez – nada dá certezas do contrário-, mas ainda haverá uma réstia de esperança de que pelo menos o seu próximo parceiro não seja tão mau.

Porque teima em não mudar?

Será assim tão estranho ter vontade de procurar alguém diferente, que lhe possa trazer felicidade e prosperidade?

E porquê limitar-se a ouvir só os homens do seu bairro?

Porque não viajar ao bairro vizinho, ao das casinhas pequenas, na esperança de encontrar alguém que satisfaça as suas necessidades e que pelo menos a respeite, trabalhe para lhe dar um futuro consistente e a ajude a eliminar a erva daninha do seu jardim?

Como é possível que esta mulher se permita ficar agarrada a quem tão mal lhe tem feito, sem se revoltar contra ele, sem se insurgir com quem a magoa?

Como é possível que esta mulher se acomode a uma relação podre, sem esgotar todas as alternativas e partir para a luta, determinada como os seus antepassados e senhora do seu futuro?

Estou amargurado porque gosto imenso da D. Lusa e a vejo apática e sem esperança, frustrado porque não consigo fazê-la entender o óbvio, incrédulo por vê-la perpetuar um erro.

O meu apelo para a D. Lusa é o seguinte: não premeie quem mal lhe fez mantendo uma relação que já tanto a magoou, arrisque mudar, abra os olhos e procure novos caminhos, procure fora dos caminhos habituais, porque esses já estão caminhados, recalcados e esburacados.

Dê uma volta à sua vida, aproveite para limpar a casa, areje-a, decore-a de novo e escolha um novo marido que a ajude a ser feliz como merece!

Tenho saudades de a ver bonita, tranquila, confiante e orgulhosa, quero vê-la de novo a sorrir.