Shopping domingueiro

Maio 7th, 2012

Uma ida a um shopping num domingo à tarde, com chuva e de início de mês, é uma experiência que fica para a vida.

Domingueiro que se preze conhece neste espaço o seu habitat natural e passeia-se imperturbável, lânguidamente, pelo labirinto de corredores que conhece como ninguém.

Os factores meteorológicos e cronológicos conjugam-se para uma concentração maciça neste local, e é esta a altura certa para lá ir, em jeito de safari sociológico.

Experimentem um dia ficar um tempo sentados num banco de um shopping, a observar a fauna que se apresenta, e sintam a riqueza desta observação.

É uma explosão de odores, camisas abertas, sapatos que brilham, pinturas berrantes, unhas de diversas cores, penteados oxigenados e outros horrores.

Famílias inteiras, noctívagos ressacados, pares novos de namorados, grupos de jovens explodindo de acne e aqui ou ali alguns panilas, que estacionaram os carros em segundas filas.

Fala-se português com vários sotaques, mas também brasileiro, francês e espanhol, tendo todos em comum o passo de caracol.

Olha-se para montras como num museu, comentam-se tendências e compra-se tudo a sonhar, mas não se toca em nada, para não estragar.

Vê-se alegria, admiração, euforia, emoção, birras,  tristeza e resignação, num mar de gente diferente que não tem noção de que é figura nesta procissão.

Ambientes destes fascinam-me, porque me lanço num exercício delirante de adivinhar cada vida através do figurino, dos gestos, dos olhares, dos pequenos diálogos que consigo ouvir na sua passagem.

E divirto-me muito, obviamente.

Do outro lado do shopping estará alguém a observar-me, seguramente, e a questionar-se como pode alguém perder tempo a olhar para as pessoas e a rir-se sozinho?

Não terá mais nada para fazer?

Desabafo de um copinho de leite

Setembro 12th, 2011

O meu nome é Barnabé e sou um copinho de leite.

Uma das minhas maiores desilusões é verificar que a designação “copinho de leite” é hoje em dia aplicada a pessoas de pouca fibra, medrosas, tímidas, fraquinhas ou cobardes.

As pessoas estão tão longe de saber o que é preciso sofrer para ser um copinho de leite!

Mesmo os humanos que são considerados mais fortes e valentes, como os comandos militares por exemplo, não são postos perante condições tão adversas e extremas como nós, os copinhos de leite.

A nossa formação começa logo com uma exposição prolongada a temperaturas elevadíssimas, acima dos 1250 graus centígrados.

Somos metidos dentro de enormes fornos, rodados e soprados permanentemente até estarmos bem formados.

Depois somos atirados para máquinas escuras onde nos atiram produtos químicos e água a alta pressão, para nos testar a resistência e a durabilidade.

A seguir somos encaixotados e enviados para onde sejamos necessários, muito apertados e fechados, viajando sem poder ser sair do sítio e desconhecendo o nosso destino.

Eu vim da China, por exemplo, e quando abriram a caixa, ao ver um senhor chinês a desembrulhar-me, fiquei todo contente, pensando que não estaria longe de casa.

Mas o roçar de um buço proeminente de uma senhora com um lenço negro na cabeça, poucos dias depois, mostrou-me o quão longe estou dos meus.

As pessoas não imaginam isto, mas nós estamos preparados para levar com água, sumos, cerveja, vinho e até whisky ou aguardente, somos fortes e resistentes e não é qualquer tombinho numa mesa que nos parte á primeira.

O leite é um bem necessário à pessoas e a nossa nobre missão de o levar à sua boca enche-nos de orgulho.

É por isso que não nos poupamos a nenhum sacrifício, e seria justo que a nossa tenacidade tivesse outro tipo de reconhecimento.

A nossa vida difícil não acaba aqui.

Ao longo da vida continuamos expostos aos mais diversos perigos, às bordas das mesas, às cadeiras de bebé, às sevícias da sempre tenebrosa máquina – com a agravante de a partilharmos agora com perigosas panelas, talheres grandes e frigideiras, que invariavelmente nos tentam fazer em cacos.

Uns resistem mais, outros menos, mas o céu verde dos copinhos de leite é o nosso último destino, e espero um dia entrar lá já bastante velho e baço, escacado se tiver que ser, mas com a honra do dever cumprido.

Não espero estátuas nem filmes acerca de mim, ou dos meus semelhantes, só gostava que deixassem de chamar copinhos de leite a esses chorinhas que andam por aí e que nada têm a ver connosco.

O varão da droga

Março 15th, 2011

A minha vida sempre foi complicada, mas estava longe de imaginar que acabasse aqui sentado nesta gruta penitenciária, sem nada mais para fazer do que contar a minha estória.

A vida dá muitas voltas, e eu presenciei mesmo a muitas, acreditem.

Nasci fruto de uma relação íntima de uma dançarina exótica dos arredores de Nápoles com o seu instrumento de trabalho e desde o primeiro dia senti que era diferente das outras crianças.

Fui o primeiro filho varão da minha mãe e parece-me que não nasciam assim tantos varões nas redondezas, pela reacção das pessoas quando me viam no estojo em que a minha mãe me transportava para todo o lado.

Talvez os espermatozóides-menina estejam na moda – pensei – , e habituei-me à ideia rapidamente.

Até apreciava a minha unicidade, sentia-me distinto, exclusivo, importante.

Ainda criança de estojo comecei a frequentar os locais de trabalho da minha mãe, locais obscuros frequentados por toda a espécie de gente com dinheiro para estourar, mas onde a minha mãe reinava no cimo do palco.

A cor e o movimento do espectáculo sempre me seduziu e não descansei enquanto não consegui fazer parte de um número de strip numa casa nocturna, treinava nas caves e sótãos, mas só aos 15 anos ganhei corpo para me fixar numa sala a sério e fazer o meu primeiro espectáculo.

Vivia então um mundo de novidades e sonho, sempre com mulheres rodopiando à minha volta e aplausos orgásmicos a jorrar dos sofás, pondo frequentemente de pé partes da plateia.

Um sonho tornado realidade, que foi muito bonito enquanto durou.

Mas depois de alguns anos uma pessoa fica cansada, comecei a entender este negócio e a perceber que as dançarinas eram afinal quem ficava com todos os lucros e louvores.

Era a elas que estava reservado o convívio com os magnatas e estes vertiam-lhes rios de dinheiro no decote mais rapidamente que um gasolineiro de fórmula um.

Ninguém apreciava devidamente o meu trabalho e a frustração acumulava-se em mim como o lixo num aterro sanitário, até que num dia em que a sorte se distraiu me cruzei com uma pessoa que mudou a minha vida.

No intervalo de um show, encostado à janela partida do armazém do clube, no beco sombrio situado nas traseiras dos holofotes da entrada, fumava um cigarro descontraidamente quando fui abordado por um indigente de vestes rasgadas, que me abriu os olhos para a realidade.

À minha volta circulava muito dinheiro, muito mesmo, muitas jóias, carros bons, todo o luxo que se podia imaginar, e muito dele vinha da vida do crime, da extorsão, das armas, da droga.

Já nessa altura era uma pessoa marcada pelas cicatrizes da vida, mas era indesmentível que poucos seriam tão duros como eu e o meu corpo esguio tornava-me muito difícil de apanhar.

As palavras do sábio mendigo martelavam a minha cabeça noite após noite até que numa madrugada gelada tomei a resolução de começar a minha guerra contra os senhores do crime locais, e armado de um revólver Vareta que encontrei numa caixa de sapatos que pertenceu ao meu avô comecei a minha demanda.

Desenvolvi capacidades de camuflagem inauditas à época, atacava furtivamente e eles rapidamente sucumbiram ao meu poder.

Assumi assim o controle do crime organizado.

Durante vários anos controlei todos os esquemas: prostituição, jogo, bebida, segurança, roubos de carros, contrafacção, raptos e até roubo de guloseimas a crianças.

Mas a minha principal fonte de rendimento – e futuramente de desgraça – era a droga.

Controlava todo o processo, desde a produção à distribuição e ninguém ousava pensar em enrolar um charro sem que eu desse autorização.

Por isso me começaram a chamar o Varão da Droga.

O que eu não consegui controlar foi a tentação de usar os produtos que fabricava e vendia.

Comecei a empoeirar-me com cocaína de forma descontrolada, ficava com a visão turva e os sentidos adormecidos, imerso num mundo irreal de facilidades e de vã felicidade, e daí a injectar-me com heroína foi um pequeno passo.

Fui aos poucos ficando todo furado e uns jovens ambiciosos começaram a fazer-me frente.

Perdi o controlo de alguns negócios, primeiro as meninas, depois a jogatana e rapidamente perdi a protecção de polícias e juízes, que viram o seu valor de mercado aumentar com o aparecimento dos meus concorrentes.

Fui então indicado como um dos dez criminosos mais procurados no mundo e a partir daí a minha vida foi um inferno, de fuga em fuga, num corropio que nem os meus nervos de aço me ajudavam a suportar.

É inexplicável a sensação de saber que ao mínimo deslize estamos fundidos.

Ia-me valendo o facto de ser esguio para não ser apanhado facilmente, mas ao fim de muito fugir fui um dia apanhado numas redes apertadas de pesca à lampreia e encaminhado para este buraco, onde só me resta esperar pelo final dos meus dias.

Tolhido neste espaço soturno e insalubre, vejo agora que os meus primos que se dedicaram a uma vida de cortinados estavam afinal certos.

Não têm carros, mulheres, nem luxos, mas a luz é certinha a cada manhã e nada lhes corta o poder de continuar a sonhar.

Do mendigo nunca mais soube nada, mas agora desconfio que as vestes rasgadas não terão tido origem em decisões sensatas da sua vida.

Papel duplicado

Novembro 11th, 2010

Tancredo Nêspera era um homem do povo, pedreiro de profissão com as mãos empedernidas pela labuta, modesto, aparentemente pouco dado às artes da escrita e desconhecido na vizinhança, dado o seu recolhimento habitual.

Um dia, no intervalo para o almoço, entre papéis de jornais amarfanhados e guardanapos de papel, descobriu dentro de si um escritor, Tarcísio Nereu, homem de grande inspiração, sedutor e de escrita fácil.

Recebeu-o alegremente, emocionado, com honras de abraço apertado, ao nível dos que se guardam para os familiares que regressam de um longo exílio, e acolheu-o em sua casa com a promessa de que nada lhe faltaria.

Desde esse dia, e durante muitos anos, conviveram harmoniosamente.

Tancredo tratava da logística, ia às compras, limpava a casa, organizava as tertúlias, Tarcísio redigia textos singulares, vertia prosa que era lida nos quatro cantos do mundo, declamava poesia de forma sublime e partilhava o seu sucesso de bom grado com Tancredo, seu parceiro inseparável.

Certo dia, cansado dos milhares de quilómetros de tinta percorrida, Tarcísio exprimiu a sua vontade de ver o Mundo, de abandonar a vila onde sempre se foram quedando, de deixar de escrever e partir à aventura da descoberta de novos povos e lugares.

Tancredo não queria acreditar.

Tinham sido anos tão bons!

Longe do trabalho árduo da pedreira, do calor enfornecido da lage e das crateras na pele provocadas pelos instrumentos de trabalho.

Não concebia a ideia de perder todo o conforto e alegoria que brotavam do sucesso da escrita do seu companheiro, e foi invadido pelo pavor desse cenário, que o relegava para dias de trabalho duro e monótonos, com a recompensa de uma côdea tostão.

Foi instintivo o acto de fechar Tarcísio numa sala escura, sem janelas, no piso inferior de sua casa e mantê-lo lá a pão e água, obrigando-o a escrever.

O escritor implorava compreensão, dizendo-lhe que nunca o abandonaria, que estava cansado e que da fonte da inspiração só jorravam agora gotículas baças, mas o pedreiro perdera-lhe a confiança e insistia na sua prisão, ordenando-lhe que escrevesse .

“Quero só mais um escrito, que me sustenha a velhice”, dizia-lhe.

Mas Tarcísio via definhar a sua criatividade a cada refeição negada, a cada sombra no escuro quarto, e a sua pena não conseguia voar pelo papel quando desprovida de liberdade.

Pouco depois deixaram de se falar, o silêncio irrompeu na casa como um líquido espesso que ocupa todos os espaços e tolhe ainda mais os movimentos, sufocando a sanidade.

Tancredo mantinha a guarda, Tarcísio a caneta parada.

O peso da divergência comprimiu-os contra o chão, numa luta que nenhum poderia vencer, até um ponto insustentável em que Tarcísio, desesperado, encontrou um caminho tortuoso e fez um furo na cabeça de Tancredo, por onde escapou, à procura de novas vidas.

Tancredo ficou inerte, abandonado à sua sorte, e foi descoberto pouco tempo depois por um vizinho curioso, jazendo no fétido chão.

A populaça chorou a partida do reputado Tarcísio Nereu, e como que reconhecendo a sua imagem no imóvel Tancredo, enterrou-o, como se faz aos feijões, na esperança de que um dia dali voltem a florescer belas palavras.