Intermitência na escrita

Junho 17th, 2013

Eu adoro escrever, escrevinhar, sarrabiscar.

A escrita é, para mim, o bilhete para uma viagem sem destino, onde nem o céu é o limite.

Infelizmente a vida não está para grandes viagens.

O tempo escasseia e as necessidades de contínua geração de conteúdos de cariz profissional consome  a minha pena de uma forma que torna mais difícil a minha vinda aqui.

Mais do que o tempo físico, o tempo mental tem-me levado para outras paragens.

E tenho saudades – muitas – de esparramar palermices por estas páginas virtuais, de sentir a criatividade correr livremente como um cãozinho hiperativo solto numa pradaria.

É certo que me podia disciplinar e obrigar-me a trazer as ideias a passear aqui mais vezes, mas estaria a contaminar a essência do que me trás cá, porque uma obrigação não é um prazer.

Para este prazer tenho que sentir que me posso entregar completamente, e por isso peço a quem gosta daquilo que escrevo – sim estou neste momento com um pequeno espelho de bolso pendurado no ecrã – que tenha paciência e que compreenda esta intermitência.

Vou fazer de tudo para que possa voltar a encontrar esse tempinho tão precioso que me permita voltar à escrita aqui no ninho.

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Objectivo concretizado

Fevereiro 23rd, 2011

Ontem foi um dia muito especial, porque a minha mulher concretizou um objectivo há muito ambicionado, fruto do seu trabalho e por mérito próprio.

É muito bom poder partilhar a sua alegria, estado de alma e sentido de dever cumprido, porque sei o quanto este objectivo para ela significa.

O sol radioso que parecia iluminar-lhe o espírito no final do dia de ontem é mais que merecido, e é para mim um prazer infinito sentir-me aquecido por esses raios de luz carregados de positivismo.

Sou uma pessoa que se auto-motiva com facilidade, mas aquele brilho no olhar, o rosto resplandecente, a vibração contagiante e o sorriso rasgado que ela ontem ostentava, para além de realçar a sua beleza, são motivos  extra, num ano que se afigura de grande trabalho, para me motivar ainda mais na luta pelos meus objectivos pessoais e pelos que temos em comum.

Obrigado por isso minha linda, muitos e muitos parabéns… e venha de lá mais champanhe!

Instantâneos d’ouro

Novembro 29th, 2010

No último fim-de-semana tive o prazer de regressar ao Douro e passear por aquela região fértil em paisagens deslumbrantes, como esta em que uma “ilha” emerge no meio de um mar de nuvens.

Mas nem tudo foi tão bonito.

Ao chegar ao hotel deparei-me com o aviso abaixo, que me deixou em pânico.

Fiquei atrapalhado porque o selo já estava quebrado quando o vi e não tinha como provar que não fui eu a quebrá-lo, mas acima de tudo fiquei extremamente nervoso porque não faço ideia de como iria arranjar dez mil escudos, caso fosse apanhado.

Felizmente correu tudo bem e ninguém me multou ou pediu escudos, e portanto continuamos serenamente até que este anúncio num prédio me captou a atenção.

É impressionante a capacidade edificadora do Homem, capaz de fazer apartamentos com esta dimensão!

Não sei como será viver num T3 mais mil novecentos e sessenta e oito milhões novecentos e quinze mil seiscentos e noventa e quatro, mas acho que são divisões a mais para tão poucas janelas.

Enfim, cada um saberá da luminosidade que necessita para viver e há até quem prefira a luz artificial, mas ainda assim aflige-me pensar no tempo necessário para a limpeza de tantos quartos.

Copos de caramelo, framboesas e chocolate

Outubro 23rd, 2010

Ontem foi um dia muito bonito e especial, que começou com um passo importante para formalizar um caminho desejado, e que merecia portanto ser celebrado.

Comemoração que se preze passa necessariamente pela mesa, e por isso nada melhor do que acabar o dia com uma refeição pensada e executada a dois, com entradas várias e um folhado de bacalhau de excelência como prato forte do repasto – com o aplauso merecidíssimo à minha cara metade, feito em êxtase por toda a população papilo-gustativa – e onde a mim me calhou a tarefa de elaborar a sobremesa.

Com a modéstia que me é reconhecida, permitam-me dizer que  foi um bonito e muito saboroso culminar de jornada, com uns copos de caramelo, framboesas e chocolate – documentados num exemplar para memória futura, na fotografia abaixo – e cujos segredos partilho convosco, indicando-vos o sítio onde os descobri: o sempre delicioso blogue de Leonor Sousa Bastos.

Cabidela de “pica-no-chão”

Agosto 4th, 2010

Ontem ao final de tarde/princípio de noite, tive o imenso prazer de me sentar debaixo de uma ramada de uma tasca, num banco corrido de granito.

Debaixo dessa frescura estavam colocadas em cima da mesa, também de pedra, uma broa e um chouriço caseiros partidos toscamente aos bocados, e umas malguinhas de barro à espera da frase dita alto e bom som pela senhora que nos recebeu – “Ó Paulo! Bóta binho ós sinhuores!”.

O cenário ideal estava montado para receber aquilo que nos tinha levado ali: um arroz de cabidela feito com um verdadeiro “pica-no-chão”, caseirinho e de carne dura e escura, de tamanho generoso, porque todos os elementos da mesa eram meninos de bom alimento, confeccionado de uma forma divinal, só possível por ter sido feita da forma que foi sendo ensinada ancestralmente de mães para filhas (sim, porque os homens não entravam na cozinha!).

E é este imenso prazer de degustar aquilo que nos é tão tradicional, e que nos é servido com a genuinidade que só o povo português sabe ter, que me leva a escrever hoje, porque me preocupa que se perca esta hospitalidade popular, que se proíba aquilo que nos identifica enquanto nação, que se restrinjam os nossos saberes e sabores a leis super proteccionistas feitas por alguém que com certeza nunca sequer teve interesse de provar tais iguarias.

É claro que, olhando à minha volta, encontrei mil e uma razões para a ASAE fechar aquele espaço – que acredito que esteja mais do que ilegal aos olhos da lei – mas estava lá porque quis, porque assim é que sabe bem e faz sentido, porque só se conseguem aqueles paladares fugindo do produto embalado, padronizado e certificado, porque esta é a nossa herança e deve ser preservada, porque senão qualquer dia os nossos filhos pensam que os galos vivos e à solta num campo são tão perigosos e invulgares como um leão selvagem.

Acho muito bem que se regulamente, que se cuide da saúde pública, mas não me lembro de ninguém ter morrido de cabidelite e julgo que é um crime contra a nossa identidade nacional o excesso de  legislação, que restringe a confecção com produtos originais a este e outro tipo de comida, que são muito mais que isso, são valores ancestrais que devem ser preservados.

E com isto tudo, já ia mais uma garfada e um golinho do “carrascão”.