Portugal não opina

Junho 7th, 2011

Uma grande parte dos meus concidadãos absteve-se de exercer o seu direito (e dever cívico, nunca é demais relembrar) de voto no último domingo, e isso é um fenómeno que me preocupa.

Há até quem se orgulhe de uma abstinência eleitoral prolongada, como se a sua opinião fosse tão importante que não merecesse ser partilhada com o resto do País.

São autênticos missionários do abstencionismo político, numa espécie de Cruzada, mas ao contrário, já que se recusam a fazer cruzes.

As pessoas queixam-se dos estado da nossa democracia e não participam, mas esquecem-se que é exactamente essa falta de participação que a levou a chegar ao seu estado actual.

Aflige-me viver num País em que será necessário haver uma tempestade de proporções bíblicas, um terramoto, uma peste ou uma série de fuzilamentos colectivos para haver uma grande afluência às urnas.

A participação cívica está a esvaziar-se rapidamente no associativismo, na solidariedade, nas manifestações culturais e até mesmo na religião, onde os portugueses se assumem secularmente como católicos… mas hoje em dia são não-praticantes.

A julgar pela baixa taxa de natalidade do nosso País, e assistindo a esta tendência pouco participativa das nossas gentes, começo até a pensar que apesar de se afirmarem na maioria heterossexuais, talvez os portugueses se fiquem só pela treta também neste campo.

Em suma e num desabafo: é triste viver num País em que não se opina.

 

D. Lusa

Abril 22nd, 2011

A estória que hoje tenho para partilhar convosco não é nada alegre, é uma estória que me deixa perplexo perante um cenário incompreensível.

D. Lusa namorou 7 anos com aquele que viria a ser o seu marido, separaram-se momentaneamente por vicissitudes da vida, mas ao fim de pouco tempo o amor falou mais alto e são já casados há 6 anos.

O que a seduziu nele foi a sua imagem de galã, a sua facilidade de comunicação, os seus planos para um futuro risonho, a segurança que dele emanava e a certeza de que ao seu lado tudo seria um mar de rosas.

No início, como em tudo na vida, as coisas correram aparentemente bem, mas ao fim de algum tempo a máscara começou a cair e a arrogância do marido veio acompanhada de violência verbal, rompimento de promessas, gastos com coisas supérfluas e esbanjamento com os amigos dele, mentiras, pressões para ela não dizer nada a ninguém, traições, vícios vários, tornando o ambiente insuportável e insustentável, espoliando-a dos seus recursos financeiros e da estabilidade que tinha adquirido com o tempo e deixando-a sem dinheiro sequer para tratar da educação ou saúde dos seus filhos, com dificuldades até para lhes garantir o pão futuramente e marcas muito profundas, que dificilmente serão saradas.

D. Lusa é uma mulher bonita, muito bonita, com valores morais centenários, de boas famílias, desejável para qualquer homem, e portanto não lhe faltaram, ao longo da sua vida e até hoje, pretendentes ao lugar de seu marido.

Com o passar do tempo tornou-se no entanto numa mulher acomodada, sujeitando-se aos vários abusos sem retorquir, fechando os olhos aos sinais, ignorando as evidências e rezando muito, só rezando, para um dia acordar de um sonho mau e regressar ao seu mundo idealizado.

Apesar do mal estar sufocante, de ter a certeza de que o marido é mau para ela, pensa que todos serão como ele e que não vale a pena aspirar a algo melhor, porque fatalmente irá redundar no mesmo tipo de pessoa.

Nem lhe passa aparentemente pela cabeça abandonar o seu marido, fiel a uma teimosia dolorosa, que a arrasta cada vez mais para o fundo.

Nada fez para o denunciar às autoridades e responsabilizá-lo pelo estado miserável a que a sua vida chegou, como é comum nas mulheres vítimas de violência doméstica, e só com muita pressão externa foi forçada a revelar a realidade do seu quotidiano.

Quando questionada sobre a sua relação, depois de expostas publicamente todas as fragilidades do seu casamento e abusos a que foi sujeita, D. Lusa encolheu os ombros, resignada ao seu fado, e disse que não queria apresentar queixas, e mais, sabe-se agora, comentou que ponderava manter no futuro a relação com o seu marido.

A única certeza que tem na sua vida é que o seu marido a maltrata, mente descaradamente e continuadamente abusa dela.

O futuro ao seu lado é doloroso e negro, mas nem sequer lhe passa pela cabeça mudar, porque acredita que os outros também devem ser da mesma laia.

Serão, talvez – nada dá certezas do contrário-, mas ainda haverá uma réstia de esperança de que pelo menos o seu próximo parceiro não seja tão mau.

Porque teima em não mudar?

Será assim tão estranho ter vontade de procurar alguém diferente, que lhe possa trazer felicidade e prosperidade?

E porquê limitar-se a ouvir só os homens do seu bairro?

Porque não viajar ao bairro vizinho, ao das casinhas pequenas, na esperança de encontrar alguém que satisfaça as suas necessidades e que pelo menos a respeite, trabalhe para lhe dar um futuro consistente e a ajude a eliminar a erva daninha do seu jardim?

Como é possível que esta mulher se permita ficar agarrada a quem tão mal lhe tem feito, sem se revoltar contra ele, sem se insurgir com quem a magoa?

Como é possível que esta mulher se acomode a uma relação podre, sem esgotar todas as alternativas e partir para a luta, determinada como os seus antepassados e senhora do seu futuro?

Estou amargurado porque gosto imenso da D. Lusa e a vejo apática e sem esperança, frustrado porque não consigo fazê-la entender o óbvio, incrédulo por vê-la perpetuar um erro.

O meu apelo para a D. Lusa é o seguinte: não premeie quem mal lhe fez mantendo uma relação que já tanto a magoou, arrisque mudar, abra os olhos e procure novos caminhos, procure fora dos caminhos habituais, porque esses já estão caminhados, recalcados e esburacados.

Dê uma volta à sua vida, aproveite para limpar a casa, areje-a, decore-a de novo e escolha um novo marido que a ajude a ser feliz como merece!

Tenho saudades de a ver bonita, tranquila, confiante e orgulhosa, quero vê-la de novo a sorrir.

Subida da taxa de juro

Março 31st, 2011

Eu sou um grande apologista da subida das taxas de juro e acho mesmo que só com a subida delas é que podemos almejar ao restabelecimento da credibilidade da nossa democracia.

Pode parecer estranho numa primeira leitura, mas parece-me que faz sentido se tivermos em conta que existe um ditado popular que diz que quem mais jura mais mente, e se considerarmos que uma promessa é um comprometimento, logo, uma jura.

Assim sendo, cada vez que um político se compromete com algo, quando promete alguma medida, está, na prática, a dizer “juro que…”.

Uma forma eficaz de controlar o seu desprendimento verbal, o anúncio avulso de ideias demagógicas e o populismo crescente e insustentável dos programas eleitorais seria então criar um imposto sobre esse  acto de dizer “juro”, uma taxa de juro a sério, que incidisse sobre esses devaneios constantes dos politiqueiros profissionais.

Essa taxa deveria ser aplicada de forma rigorosa e implacável, para que eles sentissem na prática os reflexos de cada declaração ou juramento não levados a cabo e/ou se aplicassem a fundo na concretização das medidas propostas.

Por outro lado, se desta forma não ficasse corrigida esta maneira de estar na política, ao menos algum contributo para o aumento da receita pública estaria a ser prestado directamente pelos nossos políticos e nem tudo estaria perdido.

Depois de criada essa taxa, que suba, que suba muito e muito rápido, para ver se entramos nos eixos.

Flatulência criminalizada

Fevereiro 10th, 2011

Eu não sei qual a taxa de incidência do flato no Malaui – apesar de ser um dado importante,  que não escapará a qualquer cidadão de cultura média – mas o que é certo é que essa é uma questão que preocupa as autoridades locais.

Ao que se lê na imprensa, a flatulência pública neste estado africano é de tal forma preocupante que o Ministro da Justiça deste país a pretende criminalizar.

E ainda nós nos queixamos que os nossos políticos se preocupam com questiúnculas de m€%&a!

Numa observação antropológica pertinente, o Ministro da Justiça afirma que os Malauis não se “largavam” publicamente nos tempos da ditadura porque temiam as consequências deste acto, mas que a democracia partidária fez com que as pessoas pensassem que já teriam liberdade de expressão rectal.

Com os gases acumulados em 27 anos de ditadura é natural que ainda haja muito metano para sair das entranhas dos Malauis nos próximos anos, e a questão torna-se assim explosiva.

Tenho muitos amigos que desconfio que não passariam das escadas de acesso ao aeroporto de Lilongwe, principalmente depois de uma noite de copos, e outros que regozijariam com a entrada em vigor de uma lei semelhante em Portugal, principalmente em espaços fechados, mas a meu ver deve haver bom senso nesta questão.

Os Malauis têm direito a expelir a sua gaseificação, até porque senão incham de uma forma que poderão começar a ser confundidos com elefantes-bebé, e por isso proponho a criação de “salas de bufo”, semelhantes aos espaços criados para os fumadores nos aeroportos, onde só entra quem quer e onde se evita o incómodo do cheiro para o comum transeunte.

Outra solução – e uma excelente oportunidade de negócio para o sr. Amorim – é o enrolhamento obrigatório dos Malauis na via pública, sendo apenas permitida a remoção da rolha em casas de banho estanques, com sistemas de purificação do ar integrados.

A massificação dos saca-rolhas poderia, no entanto, fornecer um álibi a alguns criminosos que utilizem este utensílio para fins menos próprios, e isso deve ser tomado em consideração na avaliação das propostas.

Outra medida a ser implementada pelas autoridades, depois da entrada em vigor desta lei, é a instalação de detectores de bombinhas de cheiro e travesseiras de pus nos locais públicos, para que ninguém tente incriminar niguém.

Além disso deverão desenvolver reconhecedores electrónicos de traques, que permitam  identificar se o som é de facto originário do traseiro do acusado ou se é emitido pelo sovaco de alguém que o deseje enviar injustamente para a cárcere.

Segurança nata

Novembro 19th, 2010

Estive ontem à noite naquele que é apontado como o sítio mais seguro do mundo neste momento, no Parque das Nações, em Lisboa, onde vai decorrer a Cimeira da NATO.

Cheguei lá de noite e deparei com um enorme aparato policial, com centenas de polícias e dezenas de viaturas, tudo fortemente rodeado por grades de mais de 2 metros de altura, para que nada passe.

À minha frente estava o cordão policial que passava em revista todos os que ali transitavam e eu, vestido de preto, com uma mochila às costas e com uma figura que já me levou a ser confundido com um egípcio no próprio Egipto, pensei que seria sujeito a uma daquelas revistas rigorosas em que, em última instância, alisam até a pilosidade pubiana.

A minha mochila tem três compartimentos de média dimensão,sendo que em todos eles carregava pelo menos uma bolsa opaca, misturadas com livros e roupa, por isso pensei que teria entretenimento para muito tempo.

Nada mais errado.

Revistar-me foi algo que não terá pensado pela cabeça dos polícias e a muito custo lá pediram para abrir a mochila, sim senhor, numa operação que terá durado no máximo 5 segundos.

Tirei-a das costas, abri o primeiro compartimento (que continha dois volumes opacos – a minha bolsa de higiene e um saco com comida), o polícia deu uma breve mirada, e quando ia abrir o segundo disseram-me que estava tudo bem e que podia passar, acompanhado de um sorriso e votos de boa noite.

Não é que não fosse agradável a facilidade de passagem e a simpatia demonstrada, mas por toda a pompa demonstrada e o volume de dinheiro investido no reforço da segurança, nunca pensei que fosse aplicado aqui o habitual regime de nacional porreirismo.

Resta-me acreditar que este aparente desleixo mais não é do que uma estratégia psicológica de alto gabarito.

Se formos hospitaleiros e muitos simpáticos, estabelece-se uma empatia enorme com os potenciais terroristas, de tal forma que os levará a abandonar os seus maléficos esquemas de destruição, e até a comprar um ou outro pastel de Belém, que acondicionarão na volta, junto da embalagem de C4.

Esperemos que funcione e que não esteja já aquela zona preparada para uma implosão, com cargas explosivas levadas no interior de mochilas, dentro de bolsas de higiene.