Lojas de Conivência ®

Março 13th, 2014

A quantidade de tinta que se gastou a falar da crise em Portugal, e dos seus causadores, daria para cobrir  o mundo de negro várias vezes, certamente.

Políticos, banqueiros, a troika, todos são frequentemente apontados para os males que assolam o nosso país.

Poucos há, porém, que apontem o dedo a quem contribui diária e decisivamente para o atual estado de coisas: nós mesmos.

Por muito que nos custe ouvir isto, ou dizê-lo, há que ter o devido distanciamento que nos permita fazer, com isenção, uma autoanálise e reconhecer que somos os primeiros culpados pelo contexto económico-social que vivemos hoje em dia.

Estamos onde estamos porque a esmagadora maioria de nós – reparem que também me incluo – é conivente com o poder político, legitimando a sua ação consecutivamente através do voto, e permitindo assim que reine a impunidade sobre aqueles que comandam, de forma dolorosa e em muitos caso dolosa, o destino de Portugal.

Não sou adepto da violência desregrada, como acontece em alguns países, nem de extremismos que toldam a objetividade e potenciam a perda de razão.

Mas custa-me ver que, após um breve flamejo de inconformismo, tenhamos novamente entrado em modo de piloto automático, aceitando com um encolher de ombros a continuidade da vilanagem nos meandros do poder.

Somos reconhecidos tradicionalmente como sendo um povo sereno, de brandos costumes, mas caminhamos rapidamente para outra adjetivação, muito mais triste a meu ver, que é a de sermos um povo conivente.

Com o meu otimismo habitual, vejo neste estado de permanente conivência uma oportunidade.

Vamos transformar esta fraqueza de carácter numa força, vamos reforçar o movimento de exportação de talento que temos vindo a desenvolver e vamos aproveitar esta nossa característica conivente e exportar o conceito, montando uma bem sucedida – e de marca registada – rede internacional de Lojas de Conivência ®.

Espalhemos pelo mundo essas pequenas lojas, abertas vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, trezentos e sessenta e cinco – ou seis – dias por ano, onde os vilões de todo o mundo poderão encontrar quem lhes ampare o jogo ininterruptamente, os conforte em momentos de fragilidade conscienciosa e lhes dê constantemente ânimo para novas investidas criminosas.

De traficantes a raptores, passando por assassinos e políticos corruptos, todos são potenciais clientes, e verão seguramente com bons olhos a presença, perto da sua área de residência, de uma das nossas Lojas de Conivência ® onde possam acorrer a todo o tempo, para encontrar uma lusitana alma que os compreenda, acarinhe e encoraje.

Do mesmo modo que os chineses espalharam lojas dos trezentos pelo mundo, é agora a nossa vez de lançarmos a nossa teia de lojas e levantarmos este país, sustentados na comercialização da nossa experiência conivencial, que é universalmente ímpar.

Loja de Conivência

Fogo de artifício

Setembro 26th, 2013

Têm visto muito fogo de artifício pelas vossas terras ultimamente?

Eu tenho.

Cada vez mais.

Demasiado.

O que me impressiona é a capacidade que o fogo de artifício tem de distrair as pessoas do essencial, iludindo-as com as suas explosões de cor e o barulho do seu troar.

Quando maior for sua explosão e brilho, mais o povo abre a boca de espanto e bate palmas.

Uns batem mais palmas aos laranjas, outros aos rosas, outros preferem os azuis ou os vermelhos.

Discutem-se o tamanho das bolas, as novas formas luminosas, a aparente durabilidade e consistência de algumas luzes.

E aplaude-se cegamente.

Muito.

Poucos param, porém, para olhar além das luzes e perceber a essência deste fenómeno.

Começa pelo próprio nome, onde a palavra artifício claramente expõe as características de fingimento, artificialidade, astúcia e manha deste espetáculo.

Mas não faz mal, as pessoas gostam de ser enganadas e quanto maior é a envergadura da fraude mais elas aplaudem.

Depois há o custo que está implícito à produção de fogo de artifício.

Poucos se importam em saber que é extremamente caro produzir fogo de artifício.

Paradoxalmente, quanto mais em crise estamos, mais parece que os cidadãos deste território valorizam que se gaste dinheiro nestas coloridas explosões aéreas.

Quem paga isto tudo?

Não interessa.

O povo aplaude e distrai-se.

E o que fica, no fim do espetáculo de rua?

Nada.

Absolutamente nada.

O final aparece com estrondo, com um barulho ensurdecedor, e segue-se um pesado silêncio, o cheiro a queimado e um enorme buraco negro, para onde todos olham, à procura do vazio que lá ficou.

O aplauso cresce em intensidade e o povo vai feliz para casa, com a sensação de ter a alma aquecida por aquele fogo de vista, contando já os dias e preparando as canas, para dentro de pouco tempo os mestres pirotécnicos voltarem a fazê-los cegos de luz e som.

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Ervas danosas

Abril 8th, 2013

Portugal é o “jardim da Europa à beira mar plantado”, dizia Tomás Ribeiro no século XIX, e muito bem.

O que ele estaria longe de supor, seguramente, é que este jardim está hoje a ser tratado por jardineiros que estimulam a propagação de ervas daninhas.

A ervas daninhas são herbáceas consideradas como pragas, de espécie menor e isentas de qualquer possibilidade de darem fruto ou, pelo menos, acrescentarem beleza ao jardim.

Espalham-se rapidamente pelo território, ocupando os espaços vazios, para depois “abafarem” as outras espécies, de maior valor, com a sua disseminação massiva e em rede.

Secam tudo à volta e deixam o jardim feio, estéril, seco, irregular e desvalorizado.

Um jardineiro em condições – não precisa de ser muito bom, só precisa de se preocupar genuinamente com o jardim – elimina logo à nascença este tipo de ervas, tratando com carinho as restantes espécies do jardim, alimentando-as, podando-as e dando-lhes as melhores condições para crescer.

O que assistimos hoje em dia em Portugal é precisamente o contrário.

À medida em que se corta cada vez mais o acesso a água, luz e adubo às espécies de maior beleza e valor – incentivando até o seu envio para o estrangeiro -, vemos os sucessivos jardineiros a deixarem as ervas daninhas espalhar-se, formando prados perfeitamente visíveis, com uma força sugadora de recursos esmagadora, intocáveis apesar de serem visivelmente nefastas.

A única forma de estas ervas saírem deste jardim – é cada vez mais evidente – é apodrecendo, por elas próprias, porque nada será feito para que sejam extraídas contra a sua vontade, ainda que sejam por demais claros os danos que fazem à saúde, beleza e sustentabilidade do jardim.

E ainda assim saem com direito a homenagens e com um forte sentimento de perda para o jardineiro.

Os danos são tão graves que julgo até que poderemos apelidar estas herbáceas de ervas danosas, porque é mais correto do que chamar-lhes daninhas.

Estamos a tornar-nos rapidamente num baldio, em vez de um jardim, onde as ervas danosas aparecem por todo o lado, em lugares de destaque, protegidas por quem deveria ter o dever de as combater.

Seria um problema fácil de resolver, houvesse um qualquer jardineiro com características diferentes do que os que têm por cá passado, mas são todos da mesma escola e portanto não haverá milagres.

Se não vamos lá com os jardineiros que temos, parece-me claro que está na altura de sermos nós próprios a começar a deitar herbicida à nossa volta, a extrair as ervas danosas e a queimar o amontoado colhido.

Temos que deitar mão á nossa terra, meus amigos, e muito rapidamente.

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Partidarite

Abril 16th, 2012

A partidarite é uma doença que se manifesta, entre outras coisas, por visão de túnel, falta de vontade própria, seguidismo, estado de negação, acefalite e mudanças súbitas de opinião.

É uma doença muito semelhante à clubite, mas mais grave, porque esta é detetada em ambientes frequentados por pessoas que buscam espetáculo, emoção e evasão, e onde os efeitos decorrentes dos atos dos contaminados não tem, geralmente, consequências irremediáveis para a vida dos cidadãos.

A partidarite atinge indivíduos supostamente detentores de generosas doses de rigor, razoabilidade e responsabilidade, podendo os seus atos definir o futuro de várias gerações, o que faz com que seja uma doença que deve ser tratada com o máximo cuidado, sendo decretada quarentena obrigatória para os contaminados, mantendo-os por um longo período em isolamento.

É uma doença que infelizmente ainda não tem reconhecimento médico, não lhe sendo conhecido qualquer tipo de tratamento, mas que é reconhecida pelo sistema judicial, que a põe ao nível das doenças de foro psicológico, garantindo  inimputabilidade para os contaminados.

Para se perceber exatamente do que estamos a falar vamos dar um caso prático.

O deputado Pedro Nuno Santos afirmou recentemente que aprovar o Tratado Orçamental da União Europeia é vender a nossa alma.

No dia a seguir foi decretada disciplina de voto na sua bancada parlamentar e o fiel deputado manteve o que disse, mas afirmou que votaria então de acordo com a vontade do partido, mesmo estando visceralmente contra.

Foi-se a vontade própria e segue-se com deferência as instruções partidárias, ainda que o preço deste voto seja o da sua alma.

Provavelmente até não custou muito, mas este caso manifesto de partidarite, obriga -nos uma reflexão.

Se não queremos fazer nada para combater a partidarite, não será melhor, ao menos, reduzir o número de cadeiras do parlamento para seis?

Um representante por cada partido eleito já chega, porque na prática os deputados apenas têm direito a exprimir a vontade do seu partido e não a sua.

O país era capaz de suportar viver com menos 224 lugares ocupados por gente que se limita a copiar o voto do lado, não?

Mas se queremos fazer algo verdadeiramente bom para a saúde pública devíamos fechar estes indivíduos em quarentena prolongada e instituir uma nova assembleia, verdadeiramente representativa, onde as pessoas respondam por si, debatam de acordo com as suas convicções e se responsabilizem pelos seus atos.

Político profissional

Outubro 18th, 2011

Uma carreira política consistente não é fruto do acaso.

É algo construído, trabalhoso, e com muitas fases, que passam despercebidas à maioria da população.

Muitos dos futuros políticos estão já fadados a seguir a carreira, por características vertidas para o seu ADN pelos seus progenitores, mas mesmo esses, tal como os que não têm essa herança, começam a dar nas vistas nas escolinhas.

É aí que dão os primeiros pontapés, nas listas organizadas com amigos, que conseguem os primeiros resultados visíveis do seu talento político, entre canetas e bolas de plástico oferecidas.

O recrutamento é feito nessa altura pelos grandes clubes políticos, que aliciam os melhores ou mais promissores a integrarem as suas camadas jovens.

A partir daí são moldados de acordo com as tácticas utilizadas por cada clube, dando simultaneamente apoio, qual claque organizada, aos seus ídolos, os seniores.

Observando-os, aprendem e evoluem tecnicamente, subindo de escalão ano após ano, até serem finalmente inscritos nas listas da assembleia principal, onde se jogam os grandes clássicos e se revelam os mais capazes.

A maioria não passará do anonimato, jogando sempre para o seu capitão ou melhor goleador.

Essas vedetas para quem o jogo é canalizado contam-se pelos dedos.

Não está ao alcance de qualquer um, mas é esse o sonho de qualquer político profissional: liderar uma equipa e ganhar um campeonato nacional de votos.

O nosso campeonato é pequeno, quando comparado com outros no estrangeiro, por isso não é de admirar que muitos sejam tentados a enveredar por uma carreira europeia, onde podem ganhar muito mais.

O flagelo de quem faz carreira política são as lesões.

Lesões de credibilidade, fracturas de ministros ou escutas nas antenóides são das mais temidas.

São normalmente lesões curadas à base de abafadinhos ou fugas do território, na esperança de poder voltar rapidamente ao activo.

Após atingirem o auge, se conseguirem passar incólumes por todas estas provações, são relegados para a reforma – ou para várias reformas para ser mais exacto – ocupando discretamente, ou nem por isso, o último lugar que esta carreira tem reservada para eles, o de comentador da vida política activa, sempre mantendo a seriedade, honestidade intelectual e imparcialidade características destes profissionais.

É uma carreira difícil, só para quem tem estômago forte, bom golpe de rins e vergonha diminuta, e por isso só alguns brilhantes especimens conseguem ser bem sucedidos.