Salsifré

Setembro 27th, 2011

Salsifré é uma palavra que eu aprecio, porque junta numa só expressão duas coisas que me dizem muito.

A salsa é um condimento que aprecio bastante.

Há quem a prefira dançada, mas para mim a sua utilização por cima de um bacalhau à brás, por exemplo, é aquilo que lhe faz ganhar a sua máxima expressão, é assim que tem realmente valor.

Fré é para mim muito importante também, já que é a segunda palavra que aprendemos quando entramos na universidade, logo a seguir a Frá, e portanto invoca lembranças dessa época.

Ora, uma palavra que junta um condimento de generoso paladar com as memórias dos belos tempos de instrução na universidade só pode resultar em música para os meus ouvidos, e daí eu achar que a deva utilizar mais vezes.

Quando gostamos muito de uma palavra, acho que faz sentido fazer um esforço para a utilizar mais, experimentando pô-la noutros contextos para além daqueles em que normalmente as usamos.

Sendo assim, se doravante me ouvirem dizer “esta coisa causa-me salsifré”, “parece que tenho um salsifré dentro do peito” “isto está muito salsifré” ou “és salsifré para mim”, devem entender que estão a obter uma reacção muito positiva da minha parte e não que estou a ter um discurso incoerente, amalucado ou estúpido.

Estamos combinados?

Não ficam a pensar que estou bêbado ou a ter convulsões ao nível do meu armazém vocabular?

Muito bem.

Então tenham um dia salsifré, e até uma próxima oportunidade.

Números nos vidros dos carros

Agosto 25th, 2011

Começo a reparar num número crescente de carros com papéis colados no vidros, onde consta tão somente um número constituído por nove algarismos, começando todos pelo 9, semelhante a um número de telefone.

Qual será o significado disto?

Há quem diga que é sinal de que está para venda, mas não vejo nada que permita tirar essa conclusão de forma inabalável.

Já me ocorreu que talvez sejam pessoas solitárias ou que gostam de muito falar, e por isso publicitam o seu número de telefone, sem se identificarem.

Um boa notícia para quem faz chamadas anónimas, porque se telefonar para um desses números vai falar com alguém que também não sabe quem é, havendo assim algo que os une.

Pareceu-me no entanto ter ouvido – vociferado numa conversa de café por um senhor que tinha acabado de perder uma aposta, cuja penalização o obrigou a raspar a traqueia por dentro com um cacto – que se tratará de um jogo de sorte, organizado pela concorrência silenciosa – ou silenciada – da Santa Casa da Misericórdia.

Um jogo clandestino inspirado na lotaria, em que um indivíduo – não identificado – procura pelo País o carro que tenha colado no seu vidro o número constituído por nove algarismos, começado por 9, em que ele pensou na noite anterior, enquanto obrava antes de ir para a cama.

O prémio será equivalente ao número – diz-se por aí, não se sabe bem onde – mas em kwacha malawiana.

Pode também ser uma espécie de tatuagem posta no carro, como fazem alguns reclusos na própria pele, mantendo viva a memória de quando o proprietário ficou preso no trânsito, sem comer e sem beber, chegando depois ao fim da fila e verificando que afinal não se passava nada.

O número corresponderá à totalidade de milissegundos passados em torturas semelhantes nos últimos dez anos se for habitante de uma cidade de média dimensão, sendo que em Lisboa e Porto a contagem é feita anualmente e no interior do País secularmente.

A dúvida mantém-se no meu espírito, com a certeza porém de que, seja lá o que forem estes números, são algo misterioso e pouco transparente, o que deve tornar as manobras um bocadinho mais complicadas.

Be Virgin

Junho 27th, 2011

– Boa tarde, o Dr. Rómulo está?

– Está sim, mas hoje é dia de consultas e o senhor doutor tem o dia cheio, posso ajudar?

– Não sei, acho que tem que ser mesmo com ele. Vinha aqui buscar a minha virgindade, porque o senhor doutor ficou-me com ela há uns tempos e depois disse-me para passar cá se precisasse dela.

– Pois, mas fez marcação?

– Fez, fez! Foram quase dois anos sempre atrás de mim, marcação cerradíssima, até que eu lá lha dei, mas só porque ele disse que depois ma devolvia se fosse preciso.

– E isso foi há quanto tempo?

– Há três meses.

– Ui! Mas assim não acredito que o doutor devolva, porque nós só fazemos devoluções até ao prazo máximo de um mês.

– Nem me diga uma coisa dessas, que eu preciso mesmo de ter isso de volta menina! É que na altura eu até nem tinha ninguém e nem notava a falta, mas entretanto conheci um rapazinho muito jeitosinho, que é sobrinho do padre que me confessa, e vou casar para a semana. E o que se passa é que sempre lhe disse que nesse dia lhe dava a virgindade a ele. Agora o que é que eu faço?

– A original não me parece mesmo que se consiga, até porque o doutor passado um tempo de as usar deita fora, mas eu costumo usar aquele pacote de experiências Be Virgin, que tem muitas soluções interessantes.

– Ai sim? E funcionam mesmo?

– Olhe, eu não tenho razão de queixa, ainda ontem usei aquela em que nos põem uns tomatinhos maduros de pele fraca, que rebentam muito bem e depois até têm nutrientes que fazem bem à pele e tudo, e o aspecto é magnífico, parece mesmo a sério. Sabe que quem namora muito está sempre a usar coisas destas.

– Namora muito, é?

– É. Infelizmente namoro muito, mas já estou a reduzir.

– Quantos namora?

– Agora já reduzi para um por semana e até já me sinto melhor. Houve alturas em que era um por dia, e então se saísse à noite eram dois ou três. Só no dia a seguir é que notava o que aquilo me fazia. Era um sufoco! Mas agora namoro muito menos e até estou a pensar em deixar de vez, porque isto faz muito mal à saúde.

– Acho que faz muito bem, eu só namorei algumas vezes, socialmente, e até nem gosto muito, sinto-me muito melada… não sei… é esquisito!

– O mal é que eu gosto sabe? Mas eu hei-de conseguir deixar! Voltando ao seu assunto, não me parece que o doutor vá encontrar a sua virgindade no meio da confusão que está naquele escritório, por isso faça como eu lhe disse e vai ver que o seu futuro marido nem se apercebe.

– De certeza?

– Absoluta, vá por mim.

– Vou experimentar então menina. Mas de qualquer das formas faça-me um favor e diga ao senhor doutor que eu cá vim, para o caso de ele encontrar aquilo me poder devolver ainda esta semana, está bem? O que é nosso tem sempre outro aspecto não é? E se for possível preferia não ter que usar outras coisas.

– Tem razão, vamos ver se é possível. Se houver novidades eu ligo, mas se não falarmos até lá: felicidades para o casamento!

– Obrigado menina.

Tratamento desigual

Maio 2nd, 2011

Há alturas na vida em que o sítio onde estamos sentados influencia perniciosamente o nosso pensamento.

Digo isto porque dei por mim há pouco a pensar que se compararmos as duas convulsões sintomáticas de doença ou mal estar, a tosse e o espirro, denotamos que o espirro é muito beneficiado em relação à tosse, na forma como o recebemos.

Se repararmos bem, o espirro é sempre saudado, após a sua chegada inesperada, com um sonoro “viva!”, “saúde!” ou “santinho!”, expressões aliás que originam o agradecimento imediato do autor do espirro.

A tosse por outro lado é recebida com indiferença, sem qualquer expressão popular que a acompanhe.

Por muito que uma pessoa fique roxa de tanto tossir, nem uma palavra de carinho, nem uma expressão de solidariedade.

Com a proliferação das associações defensoras dos direitos de qualquer coisa que se mexa, até me admira que ninguém tenha ainda levantado a voz para reivindicar o direito da tosse ser igualmente recebida com expressões semelhantes à dos espirros.

O mesmo se passa com os soluços, mas noutra escala, já que estes têm em relação aos outros a vantagem de acarretarem consigo momentos hilariantes de apneia, sustos ou encharcamentos massivos de traqueia.

Tudo isto, dizia eu no início, porque estava sentado em louça sanitária, tendo por isso esta pequena reflexão a forte influencia do produto interno bruto que tinha acabado de libertar.

A administração pede desculpa por qualquer desconforto causado.

O outro

Fevereiro 17th, 2011

Admiro o outro e gostava de o conhecer.

Quando digo o outro não me refiro a uma qualquer figura que representa o amante de alguém, não.

O outro a que me refiro é aquela pessoa extraordinária, sempre com algo sensato e espirituoso para dizer, que anda na boca de grande parte dos portugueses.

Mais citado que poetas, futebolistas, comediantes, políticos ou líderes religiosos, o outro inspira grande parte da população portuguesa, que bastas vezes para fazer uma intervenção pertinente recorre ao que já por esse guru foi dito.

“É como diz o outro: …”

Admirável a forma como mesmo este intróito já soa bem, anunciando o quão apropositada será a frase seguinte.

A figura abstracta na qual se escuda o outro adensa o mistério sobre este mestre da fraseologia e aumenta em mim o fascínio pela sua personagem.

Adorava conhecer o outro.

Aliás, numa limpeza profunda ao meu âmago é capaz de se encontrar um cotãozinho de esperança em tornar-me um dia, eu mesmo, no próprio outro.