Indecisores nominais

Março 27th, 2014

Alguém me explica porque é que as pessoas dão dois nomes aos filhos e depois os tratam pelo segundo nome?

Qual é o objetivo de chamar a um filho João Venceslau, se depois os pais o chamam sempre de Venceslau?

Ou chamar a uma filha Maria Guilhermina se quotidianamente a irão  tratar por Guilhermina?

Parece que, naquele momento de indecisão quanto ao nome ideal a atribuir ao filho, os pais decidiram fazer uma very short list de nomes, para depois escolherem, ao longo da vida da criança, qual o nome que lhes soa melhor.

“Damos-lhe dois nomes – que até dá jeito para quando nos quisermos mostrar zangados – e depois vemos o que lhe chamamos todos os dias!”, pensarão estas pessoas.

Ou então pensam que é absolutamente adorável transformar o petiz num 007 ao nível da sua apresentação a alguém.

“- Como te chamas?”

“- Libório. Miguel Libório.”

Isto é algo que me incomoda a sério desde tenra idade, porque acho que o primeiro nome está nessa posição por algum motivo e deve ser defendida a sua utilização prioritária a todo o custo.

Não acho bem que se salte por cima do primeiro nome, dando relevância e visibilidade inapropriada a um nome de segunda linha.

Na minha história de vida já fui vítima de tentativa de chamamento pelo nome secundário.

Levei tanto a mal este desrespeito pelo meu nome próprio nessa altura, que decidi vincar a minha posição,  ignorando ostensivamente o chamamento por várias vezes, valendo-me essa atitude uma orgulhosa expulsão da sala de aula de Português (tinha eu os meus – cheios de carácter – 11 anos).

Sou aquilo a que se pode chamar um “ativista do primeiro nome”, portanto, e acho que esse episódio é fiel imagem de quanto eu prezo a valorização e utilização do nome próprio.

É por isso, aliás, que eu não posso ser um defensor da monarquia em Portugal, pelo menos enquanto o pretendente ao trono for o atual.

Isto porque alguém que chama a um filho “Afonso de Santa Maria João Miguel Gabriel Rafael de Herédia de Bragança”, mostra à evidência que só merece, quanto muito, o título de Rei dos Indecisores Nominais.

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Visitas hospitalares

Janeiro 23rd, 2014

É sabido que as visitas dos familiares e amigos mais próximos são um aconchego para a alma de quem se encontra hospitalizado.

É um apoio psicológico e logístico, mas é, acima de tudo, o reconforto de ter por perto aqueles de quem mais gostamos, e uma forma de transformar aquele espaço de dor um pouco mais suportável, sentindo ao nosso lado o que de mais importante o nosso lar tem.

Isso é uma coisa.

Outra coisa, são as pessoas que insistem em ir visitar alguém que está no hospital, mesmo que não tenham grande ligação com essa pessoa, nem carreguem com elas nada de positivo para ajudar naquele momento difícil.

Há pouco tempo tive a oportunidade de estar perto da imensa fila de espera num hospital público, em hora de visitas, e apercebi-me que há indivíduos que nem sequer sabem o nome da pessoa que vão visitar.

Fazem-no por bons motivos?

A maioria, certamente, mas há autênticos profissionais da visitação, que vão repartindo o seu tempo entre os hospitais e os funerais, por “respeito” e “consideração” às pessoas.

Fazem-no de forma solene, semblante carregado e com a máxima atenção para o que se passa em redor, registando os movimentos que lhe parecem fora da norma e não se coibindo de os comentar.

Bisbilhotice, insensibilidade, invasão de privacidade, cara de pau?

Não!

“Altruísmo”, “amizade”, “solidariedade”, “apoio”.

Quem é que no seu perfeito juízo acha que alguém fica extremamente contente por ver entrar porta dentro uma pessoa que não nos é muito próxima quando estamos adornados de gaze e agulhas, vestidos de batinha hospitalar, sem roupa interior, de olhos vidrados e a espumar pela boca?

Quem é que se sente mais confortável por ter ao lado alguém a fazer perguntas bacocas e a debitar casos de “amigos” que padeceram da mesma coisa, quando estamos débeis, dormentes, limitados a olhar em frente, submetidos à prisão da cama e com a mala da dor carregadinha até cima?

Já ouviram falar de “Turismo Negro“?

Tenho para mim que o “turista negro” dá os seus primeiros passos e se revela primeiramente nas visitas hospitalares.

É começar a cobrar bilhete a estas pessoas.

E não é difícil perceber quem elas são, pela maneira como se apresentam e pela forma fluída com que interagem com os espaços e funcionários dos hospitais.

Pode ser que seja esta uma inovadora e bem sucedida forma de financiamento dos hospitais, que venha contribuir para o abaixamento das taxas moderadoras.

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Terminologia militar

Agosto 14th, 2013

Ainda há quem discuta se as mulheres devem ou não estar no exército.

Acho que não há discussão possível – devem estar -, mas admito que há coisas que devem ser alteradas.

Há pouco, ouvi alguém referir-se a uma “sargento” como “sargenta”.

Nem todos saberão qual a correta forma semântica e por isso temos que admitir que este será um erro comum.

Ora, este é um termo demasiadamente próximo, foneticamente, de “sarjeta”, o que é claramente depreciativo para o estatuto destas militares.

Quando dita de forma muito rápida, a frase “Fulana de Tal vai ser promovida a sargenta!” poderá levantar imediatamente a questão “E até aqui era o quê, a Fulana de Tal? Latrina?”, para o mais desatento dos transeuntes.

Acho que os nossos generais se deviam debruçar sobre esta temática, pelo menos para criar algum burburinho na messe, que é um sítio normalmente muito pacato.

Já que falamos de messe, penso que poderiam também estudar a mudança do nome desse sítio, porque há muitos que lá vão ter com um papelinho e caneta à procura de um valioso autógrafo, e vêm de lá muito desiludidos porque não era daquilo que estavam à espera.

Só para terminar, se querem chamar “parada militar” a um evento, parem de marchar de um lado para o outro e fiquem mesmo parados, porque com esse movimento todo confundem os mais jovens.bilde

T-shirt desportiva de cerimónia

Agosto 1st, 2013

É engraçado ver como as pessoas se aperaltam de forma especial quando vão a sítios ou cerimónias que fogem das suas rotinas habituais.

Tendencialmente vestimos os nossos melhores trapinhos quando vamos a algum lado a que não vamos muitas vezes ou participamos em algum evento especial, engrandecendo o momento.

É também aqui que nos revelamos sociologicamente, expondo aquilo que, para nós, é valioso, importante ou simbólico.

De entre as peças ou sinais que mais saltam à vista como clichés identificativos do que estou a dizer estão os sapatinhos de ir à missa, os vestidos de noite, a brilhantina no cabelo, a camisinha branca, a maquilhagem excessiva ou as jóias em abundância.

Mas de todas as peças deste género, a que mais me desconcerta e causa tremeliques nas células sorrisais é a t-shirt do clube desportivo.

De futebol, basquete ou rugby, acho fabuloso que alguém considere sinónimo de aperaltar-se vestir uma peça de vestuário destas.

Se este é o traje formal, o informal é o quê?

Um colete de cartão?

Uma toga de sarapilheira?

A sério, fico muito confuso.

Nem sei mais o que vos diga.

Vou ver um bocadinho de uma reposição de um qualquer Big Brother, a ver se me epifaniza.

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Capacete de cabelo

Outubro 8th, 2012

Como andará a vida dos vendedores de laca?

Cada vez vejo menos gente a usar aqueles penteados armados, que fizeram as delícias de gerações mais antigas, e isso deve estar a afetar-lhes o negócio.

A minha memória armazena imagens riquíssimas de autênticos tratados de estruturas capilares, cuja sustentação só era possível com recurso a massivas doses de laca.

Sempre pensei que além dos evidentes benefícios de durabilidade estética, o uso destas armaduras de cabelo poderia substituir a utilização de capacetes, devido à sua rigidez.

No fundo, olho desde a minha infância as senhoras que as usavam como sendo as percursoras do tuning dos capacetes, as pioneiras do protetor craniano personalizado.

Na época que vivemos temos que ser criativos, adaptarmo-nos às necessidades do mercado, e assim sendo este é um caminho que a indústria laqueira devia estudar com mais atenção.

Pensem nos milhares, ou mesmo milhões, de motards, ciclistas e skaters que pagariam com o couro para blindar o cabelo, tornando-o no seu capacete integrado, ultra leve, bonito, único e, acima de tudo, seguro.

O desafio passa pela homologação desta tecnologia, mas tudo se faz quando se está tão cientificamente avançado.

Infelizmente, por efeitos da minha rarefação de crina, não poderei oferecer a cabeça à ciência para testar o produto, mas, meus caros CEO’s dos laquifícios, cá estarei para vos apoiar no que puder na vossa importante investigação e recolher os frutos económicos de tão visionária ideia.