Beijadores mineiros

Outubro 31st, 2013

Há pessoas que vão tão longe na sua demonstração de afeto, que mais parece que estão a fazer espeleologia bocal.

Acredito que lhes dê imenso prazer – não é isso que está em causa -, mas o facto de o fazerem em público aflige-me.

Não por mim, que até sou dado ao voyeurismo, mas pelos exemplos que se dão às crianças.

É que aquilo é perigoso!

Um tipo que se atreve a abrir tanto a goela e lançar tão longe a sua sonda bocal, corre sérios riscos de espetar a língua numa qualquer estalagmite, se não se põe fino!

A minha teoria é precisamente que esta prática começa ainda em criança, quando só nos satisfazemos depois de sorver o último nano-pingo de iogurte, espetando a ponta da língua até à base do frasco, e por isso mesmo acho que as crianças, ao verem estes beijos à mineiro, julguem que isto se aplica a tudo o que se gosta.

Depois vemos adolescentes amantes do desporto automóvel a sodomizar um cano de escape com a língua, ou um melómano a bater o recorde de profundidade num linguadão com um subwoofer.

E achamos estranho.

Vamos lá ter cuidado com isso juventude, que os efeitos nocivos destas práticas, no limite, incluem deslinguamento acidental.

E ninguém gosta que lhe chamem lingueta!

Até porque não dá para responder a não ser por gestos.

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Idosas de cabelo loiro

Outubro 14th, 2013

O DNA da mulher portuguesa merecia mais atenção da comunidade científica internacional.

Algo se passa com os genes das nossas senhoras, que sofrem mutações ao nível da coloração capilar com o passar dos anos.

O modelo padrão de uma mulher portuguesa nos dias de hoje, apresenta-se morena nos primeiros anos de vida, com tendência a aloirar com o passar dos anos.

A mulher portuguesa de cabelo grisalho ou completamente branco é, atualmente, uma espécie que corre mais perigo de extinção do que os ursos polares e a sua alva pelúcia.

É de tal forma usual as velhinhas portuguesas serem loiras, nos nossos dias, que já por três ou quatro ocasiões passei por momentos constrangedores, por pegar na mão de jovens loiras numa passadeira, julgando eu estar a ajudar uma senhora de idade a atravessar a rua.

O que me confunde mais, sociologicamente falando, é este paradoxo de as mulheres com mais anos de vida terrena, supostamente sábias, quererem camuflar os seus sinais exteriores de experiência de vida, permitindo-se serem confundidas com o estereótipo social de loira burra.

E tenho medo que isto se generalize a um ponto tal que, um dia, nos deparemos com uma qualquer reportagem fotográfica sobre as nossas aldeias históricas, onde se vislumbre, sob o peso dos negros lenços, uma melena platinada de fazer inveja à mais loira das aldeãs siberianas.

Valha-nos nessa altura, pelo menos, a manutenção do bigode, para que haja uma ténue preservação das nossas origens.

Ficará ainda por abordar a questão da coerência de pelugem corporal, que, por respeito às pueris gerontes, vou só deixar mencionada aqui, sem escaranfunchar.

assuncaoestevesloiramorena

Fogo de artifício

Setembro 26th, 2013

Têm visto muito fogo de artifício pelas vossas terras ultimamente?

Eu tenho.

Cada vez mais.

Demasiado.

O que me impressiona é a capacidade que o fogo de artifício tem de distrair as pessoas do essencial, iludindo-as com as suas explosões de cor e o barulho do seu troar.

Quando maior for sua explosão e brilho, mais o povo abre a boca de espanto e bate palmas.

Uns batem mais palmas aos laranjas, outros aos rosas, outros preferem os azuis ou os vermelhos.

Discutem-se o tamanho das bolas, as novas formas luminosas, a aparente durabilidade e consistência de algumas luzes.

E aplaude-se cegamente.

Muito.

Poucos param, porém, para olhar além das luzes e perceber a essência deste fenómeno.

Começa pelo próprio nome, onde a palavra artifício claramente expõe as características de fingimento, artificialidade, astúcia e manha deste espetáculo.

Mas não faz mal, as pessoas gostam de ser enganadas e quanto maior é a envergadura da fraude mais elas aplaudem.

Depois há o custo que está implícito à produção de fogo de artifício.

Poucos se importam em saber que é extremamente caro produzir fogo de artifício.

Paradoxalmente, quanto mais em crise estamos, mais parece que os cidadãos deste território valorizam que se gaste dinheiro nestas coloridas explosões aéreas.

Quem paga isto tudo?

Não interessa.

O povo aplaude e distrai-se.

E o que fica, no fim do espetáculo de rua?

Nada.

Absolutamente nada.

O final aparece com estrondo, com um barulho ensurdecedor, e segue-se um pesado silêncio, o cheiro a queimado e um enorme buraco negro, para onde todos olham, à procura do vazio que lá ficou.

O aplauso cresce em intensidade e o povo vai feliz para casa, com a sensação de ter a alma aquecida por aquele fogo de vista, contando já os dias e preparando as canas, para dentro de pouco tempo os mestres pirotécnicos voltarem a fazê-los cegos de luz e som.

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Festas de Verão

Julho 30th, 2012

Portugal sempre foi um país festeiro.

É conhecida a nossa tendência para romarias e tudo o que seja um bom pretexto para lançar uns foguetes, promover bailarico de mulheres com mulheres e beber uns canecos.

Nos últimos anos temos asssitido a várias tendências de festa de Verão, desde os festivais de música – cujo padrão de nome é: Festival [inserir localidade ou região – opcional] [inserir marca de cerveja ou telecomunicações] – aos festivais gastronómicos, onde cada terreola promove o que lá se come, nem que sejam só pevides ou tremoços.

O último filão a ser descoberto foi o das festas de época.

Tudo começou com as festas medievais, que eram um conceito engraçado, que permitia uma animação diferente e a participação de artistas de rua, restaurantes e artesãos.

Esse conceito começou a ser aplicado de igual forma em tudo o que era bairro com mais de três visitantes, nos meses de Verão, tornando este tipo de festas repetitivas e banais.

É então que se parte para outro caminho: descer lentamente na cronologia.

A diferenciação é feita pela época histórica, deixando cair a medieval e seguindo para outras épocas como a do império romano ou o anterior período de cultura castreja.

E é aqui, que, estimados leitores, temos que parar para observar e pensar.

Se as épocas são diferentes, não fará sentido que o que se encontra nestas festas temáticas seja também diferente?

Ou alguém está mesmo convencido de que a bijuteria, os brinquedos de madeira e as velas aromáticas são transversais a todos os períodos da história?

Os povos antigos comiam todos porco no espeto, bebiam chazinhos de variadíssimas plantas e alambuzavam-se com doces conventuais?

Todos?!?

Da forma como isto está a ser feito haveremos de denominar este tipo de festas como festas triássico-medievais, e provavelmente chegar à conclusão que os dinossauros também eram consumidores assíduos de ginginha e falavam castelhano!

Existe a bota.

E a perdigota.

E não têm nada a ver uma com a outra.

É como os alhos e os bugalhos.

Uma coisa é uma coisa, e outra coisa… é outra coisa.

Fiz-me entender?

Vamos lá ler uns livrinhos de época para fazer as coisas um nadinha mais coerentes, pode ser?

 

 

Shopping domingueiro

Maio 7th, 2012

Uma ida a um shopping num domingo à tarde, com chuva e de início de mês, é uma experiência que fica para a vida.

Domingueiro que se preze conhece neste espaço o seu habitat natural e passeia-se imperturbável, lânguidamente, pelo labirinto de corredores que conhece como ninguém.

Os factores meteorológicos e cronológicos conjugam-se para uma concentração maciça neste local, e é esta a altura certa para lá ir, em jeito de safari sociológico.

Experimentem um dia ficar um tempo sentados num banco de um shopping, a observar a fauna que se apresenta, e sintam a riqueza desta observação.

É uma explosão de odores, camisas abertas, sapatos que brilham, pinturas berrantes, unhas de diversas cores, penteados oxigenados e outros horrores.

Famílias inteiras, noctívagos ressacados, pares novos de namorados, grupos de jovens explodindo de acne e aqui ou ali alguns panilas, que estacionaram os carros em segundas filas.

Fala-se português com vários sotaques, mas também brasileiro, francês e espanhol, tendo todos em comum o passo de caracol.

Olha-se para montras como num museu, comentam-se tendências e compra-se tudo a sonhar, mas não se toca em nada, para não estragar.

Vê-se alegria, admiração, euforia, emoção, birras,  tristeza e resignação, num mar de gente diferente que não tem noção de que é figura nesta procissão.

Ambientes destes fascinam-me, porque me lanço num exercício delirante de adivinhar cada vida através do figurino, dos gestos, dos olhares, dos pequenos diálogos que consigo ouvir na sua passagem.

E divirto-me muito, obviamente.

Do outro lado do shopping estará alguém a observar-me, seguramente, e a questionar-se como pode alguém perder tempo a olhar para as pessoas e a rir-se sozinho?

Não terá mais nada para fazer?

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