Terminologia militar

Agosto 14th, 2013

Ainda há quem discuta se as mulheres devem ou não estar no exército.

Acho que não há discussão possível – devem estar -, mas admito que há coisas que devem ser alteradas.

Há pouco, ouvi alguém referir-se a uma “sargento” como “sargenta”.

Nem todos saberão qual a correta forma semântica e por isso temos que admitir que este será um erro comum.

Ora, este é um termo demasiadamente próximo, foneticamente, de “sarjeta”, o que é claramente depreciativo para o estatuto destas militares.

Quando dita de forma muito rápida, a frase “Fulana de Tal vai ser promovida a sargenta!” poderá levantar imediatamente a questão “E até aqui era o quê, a Fulana de Tal? Latrina?”, para o mais desatento dos transeuntes.

Acho que os nossos generais se deviam debruçar sobre esta temática, pelo menos para criar algum burburinho na messe, que é um sítio normalmente muito pacato.

Já que falamos de messe, penso que poderiam também estudar a mudança do nome desse sítio, porque há muitos que lá vão ter com um papelinho e caneta à procura de um valioso autógrafo, e vêm de lá muito desiludidos porque não era daquilo que estavam à espera.

Só para terminar, se querem chamar “parada militar” a um evento, parem de marchar de um lado para o outro e fiquem mesmo parados, porque com esse movimento todo confundem os mais jovens.bilde

Restaurante “Lonely Wolf”

Julho 19th, 2011

O restaurante Lonely Wolf, perdido algures no deserto que circunda Las Vegas, está a dar que falar pelo seu conceito inovador, absolutamente focado na satisfação plena de todas as necessidades do cliente.

Vejamos o diálogo abaixo – traduzido livremente para melhor compreensão – onde está bem patente o nível de inovação deste palácio dos sabores.

– Já escolheu?

– Sim, sim. Vou comer a picanha.

– Com feijão preto e couve mineira?

– Pode ser. E um bocadinho de arroz branco.

– Basmati?

– Sim.

– E para acompanhar?

– Para acompanhar pode ser uma núbia caribenha, bem tostadinha, por favor.

– Com picante ou sem picante?

– Traga o picante à parte, se não se importa. Elas já são quentes demais ao natural e não quero exagerar.

– Vai desejar alguma entrada?

– Desejo sim senhor! Uma portuguesinha da costa, das mais pequeninas, mas peça ao chef para pôr extra sal, que elas têm saído um bocadinho insossas ultimamente. E umas ameijoas.

– E para beber?

– Tomo o mesmo que a menina.

No final da refeição, o empregado de mesa dirige-se de novo ao cliente.

– Estava tudo bem?

– Sim, bastante bem. A núbia podia ser um bocadinho mais quentinha… mas com o picante ficou bem, não se preocupe.

– Vou informar o chef e pedir para ter isso em atenção da próxima vez, peço desculpa. Vai desejar sobremesa?

– Vou experimentar o vosso sonho de chocolate em cama de ovos moles e framboesas.

– E sobre a mesa?

– Também, sim. Acho que ainda arranjo um espacinho para o vosso misto asiático. Mas só duas! Sem creme, que já chega de calorias. Pode ser?

– Sim senhor. Duas bolas de gelado em cima?

– Não, só um saquinho de gelo, para pôr em baixo, por favor.

– E no final, um digestivozinho?

– Sim. Qualquer coisa da Real Companhia Velha.

Como viram, nada é descurado neste restaurante, um dos mais fortes candidatos a ser premiado nos guias de várias especialidades, integrando simultaneamente os guias “Boa Cama“, “Boa Vida” e “Boa Mesa“.

Uma experiência gastronómica inolvidável, certamente.

O varão da droga

Março 15th, 2011

A minha vida sempre foi complicada, mas estava longe de imaginar que acabasse aqui sentado nesta gruta penitenciária, sem nada mais para fazer do que contar a minha estória.

A vida dá muitas voltas, e eu presenciei mesmo a muitas, acreditem.

Nasci fruto de uma relação íntima de uma dançarina exótica dos arredores de Nápoles com o seu instrumento de trabalho e desde o primeiro dia senti que era diferente das outras crianças.

Fui o primeiro filho varão da minha mãe e parece-me que não nasciam assim tantos varões nas redondezas, pela reacção das pessoas quando me viam no estojo em que a minha mãe me transportava para todo o lado.

Talvez os espermatozóides-menina estejam na moda – pensei – , e habituei-me à ideia rapidamente.

Até apreciava a minha unicidade, sentia-me distinto, exclusivo, importante.

Ainda criança de estojo comecei a frequentar os locais de trabalho da minha mãe, locais obscuros frequentados por toda a espécie de gente com dinheiro para estourar, mas onde a minha mãe reinava no cimo do palco.

A cor e o movimento do espectáculo sempre me seduziu e não descansei enquanto não consegui fazer parte de um número de strip numa casa nocturna, treinava nas caves e sótãos, mas só aos 15 anos ganhei corpo para me fixar numa sala a sério e fazer o meu primeiro espectáculo.

Vivia então um mundo de novidades e sonho, sempre com mulheres rodopiando à minha volta e aplausos orgásmicos a jorrar dos sofás, pondo frequentemente de pé partes da plateia.

Um sonho tornado realidade, que foi muito bonito enquanto durou.

Mas depois de alguns anos uma pessoa fica cansada, comecei a entender este negócio e a perceber que as dançarinas eram afinal quem ficava com todos os lucros e louvores.

Era a elas que estava reservado o convívio com os magnatas e estes vertiam-lhes rios de dinheiro no decote mais rapidamente que um gasolineiro de fórmula um.

Ninguém apreciava devidamente o meu trabalho e a frustração acumulava-se em mim como o lixo num aterro sanitário, até que num dia em que a sorte se distraiu me cruzei com uma pessoa que mudou a minha vida.

No intervalo de um show, encostado à janela partida do armazém do clube, no beco sombrio situado nas traseiras dos holofotes da entrada, fumava um cigarro descontraidamente quando fui abordado por um indigente de vestes rasgadas, que me abriu os olhos para a realidade.

À minha volta circulava muito dinheiro, muito mesmo, muitas jóias, carros bons, todo o luxo que se podia imaginar, e muito dele vinha da vida do crime, da extorsão, das armas, da droga.

Já nessa altura era uma pessoa marcada pelas cicatrizes da vida, mas era indesmentível que poucos seriam tão duros como eu e o meu corpo esguio tornava-me muito difícil de apanhar.

As palavras do sábio mendigo martelavam a minha cabeça noite após noite até que numa madrugada gelada tomei a resolução de começar a minha guerra contra os senhores do crime locais, e armado de um revólver Vareta que encontrei numa caixa de sapatos que pertenceu ao meu avô comecei a minha demanda.

Desenvolvi capacidades de camuflagem inauditas à época, atacava furtivamente e eles rapidamente sucumbiram ao meu poder.

Assumi assim o controle do crime organizado.

Durante vários anos controlei todos os esquemas: prostituição, jogo, bebida, segurança, roubos de carros, contrafacção, raptos e até roubo de guloseimas a crianças.

Mas a minha principal fonte de rendimento – e futuramente de desgraça – era a droga.

Controlava todo o processo, desde a produção à distribuição e ninguém ousava pensar em enrolar um charro sem que eu desse autorização.

Por isso me começaram a chamar o Varão da Droga.

O que eu não consegui controlar foi a tentação de usar os produtos que fabricava e vendia.

Comecei a empoeirar-me com cocaína de forma descontrolada, ficava com a visão turva e os sentidos adormecidos, imerso num mundo irreal de facilidades e de vã felicidade, e daí a injectar-me com heroína foi um pequeno passo.

Fui aos poucos ficando todo furado e uns jovens ambiciosos começaram a fazer-me frente.

Perdi o controlo de alguns negócios, primeiro as meninas, depois a jogatana e rapidamente perdi a protecção de polícias e juízes, que viram o seu valor de mercado aumentar com o aparecimento dos meus concorrentes.

Fui então indicado como um dos dez criminosos mais procurados no mundo e a partir daí a minha vida foi um inferno, de fuga em fuga, num corropio que nem os meus nervos de aço me ajudavam a suportar.

É inexplicável a sensação de saber que ao mínimo deslize estamos fundidos.

Ia-me valendo o facto de ser esguio para não ser apanhado facilmente, mas ao fim de muito fugir fui um dia apanhado numas redes apertadas de pesca à lampreia e encaminhado para este buraco, onde só me resta esperar pelo final dos meus dias.

Tolhido neste espaço soturno e insalubre, vejo agora que os meus primos que se dedicaram a uma vida de cortinados estavam afinal certos.

Não têm carros, mulheres, nem luxos, mas a luz é certinha a cada manhã e nada lhes corta o poder de continuar a sonhar.

Do mendigo nunca mais soube nada, mas agora desconfio que as vestes rasgadas não terão tido origem em decisões sensatas da sua vida.

A génese da dança do ventre

Dezembro 2nd, 2010

Parece-me que é uma informação que escapa à generalidade das pessoas, como se pode verificar pela consulta a este site, mas a dança do ventre nasceu por causa de uma necessidade fisiológica.

Antigamente, como agora, era de muito mau tom uma mulher expôr publicamente a sua flatulência.

Aos homens tudo era permitido, mas nas mulheres esta prática era mesmo considerada pecaminosa.

Assim, como castigo, às mulheres flatulentas era imposta uma punição chamada de “acusação” (o termo permanece até hoje, apesar de ter evoluído no significado), que consistia na remoção dos glúteos na praça pública, a frio, com um golpe único de sabre, e posterior lacre do esfincter anal, através do recurso a um ferro em brasa.

Esta punição, além de extremamente dolorosa, causava mossa na vida quotidiana, já que as mulheres deixavam de se poder sentar, inchavam com os gases acumulados, e, nos casos mais graves, ficavam com selote na parte da frente da burca, ao nível da boca.

Para dar a volta a questão, um grupo de mulheres lembrou-se que a melhor forma de esconder o acto ilícito era escondê-lo à vista de todos, e portanto engendraram um plano para poderem largar os seus gases à vontade, mesmo nas barbas de quem as poderia punir.

Decidiram então inventar uma dança com movimentos muito sensuais, que encantavam a homenzada, permitindo ao mesmo tempo massajar o intestino e, com golpes de anca sugestivos, expelir disfarçadamente os seus excedentes gaseificados.

Os homens ficavam de tal forma hipnotizados pelos sensuais movimentos, que todos os seus sentidos se focavam na visão, ansiavam por pôr em acção o tacto e o paladar, viam diminuídas as faculdades auditivas e perdiam por completo o olfacto.

Por uma questão de segurança as mulheres ornamentavam-se com cintos e pulseiras de moedas, que, ao serem abanados com o movimento corporal, disfarçavam o barulho de algum gás mais intempestivo, evitando assim serem descobertas pelo som.

Hoje em dia a dança do ventre já não é executada com os mesmo fins, mas da próxima vez que virem uma exibição desta arte tentem não ficar enebriados pela sensualidade, e estejam atentos para detectar algum cheirinho.

Se vos cheirar a alguma coisa, tipo enxofre ou ovos estragados, diz a lenda que é a que tem as palmas das mãos amarelas a libertadora do odor.

Prostitutas com colete

Novembro 4th, 2010

Aparentemente não falta quem queira que a prostituição seja bem sinalizada.

Depois de terem sidos colocados sinais verticais em Treviso (Itália) a indicar a sua presença, é agora a vez de Els Alamús, perto de Lleida (Espanha), adoptar uma lei que obriga as prostitutas de rua a usar um colete reflector (ou chalecos, como eles dizem), alegadamente para diminuir os riscos de atropelamento.

Ora o que é que isto gera?

Que o incauto condutor, ao deparar com um brigada de coletes depois de uma curva, pense que se trate de uma operação policial e exclame “Tou fo&1&o!”.

E depois apercebe-se que só está se quiser, e pagar por isso.

São as regras básicas de higiene e segurança no trabalho a serem aplicadas à mais antiga profissão do mundo, o que está, a meu ver, muito bem visto.

O passo a seguir será obrigá-las a fornecer ao cliente um “capacete” certificado, serem consultadas regularmente pela medicina no trabalho, usarem sapatos de tacão de biqueira de aço, soutiens à prova de bala, protecções bocais e luvas esterilizadas aquando do contacto oral ou manual com o órgão do cliente, além de elas próprias terem que ver os seus procedimentos certificados pela norma ISO 9001:2008.

Eu acho que elas deviam também aproveitar esta oportunidade para usar os coletes para a comunicação, estampando neles, com letras reflectoras, todas as suas mais valias e promoções,  seguindo a estrutura herdada dos anúncios de relax da escola do marketing prostitucional “Paloma, cachonda de 19 añitos, culazo, pecho XXL, griego profundo, 30 chalequitos”.