Definir tendências

Agosto 27th, 2013

Toda a gente sabe que as leis emanam da Assembleia da República, as encíclicas são escritas pelo Papa, as horas certas são dadas pelo Big Ben e as crianças são produzidas em Paris – distribuídas posteriormente via cegonha – mas… de onde vêm as tendências da moda?

Não existe nenhum comunicado, conferência ou memorando de entendimento que os estilistas subscrevam, não é algo definido pela Natureza, nem há um sorteio anual apresentado pela Serenella Andrade que as defina.

Resta assim a hipótese de haver um grupo de pessoas que se move na bruma dos bastidores da moda, e que, por entre a poeira, sussurre em código as cores Pantone para a próxima estação, ao ouvido dos criadores.

Estas personagens, conhecidas no mundo da moda por “tendenciosos”, encobrem a sua real identidade camuflando-se nas colunas dos edifícios ou dos aparelhos de som, facto que levou ao nascimento da expressão “colunista”, entretanto esvaziada de honradez pelo uso abusivo da mesma.

Os “tendenciosos” operam segundo as instruções de personagens ainda mais misteriosas do que eles mesmos, um grupo de peritos chamado “tendinitos”, que comunicam entre si via águia-peregrina-correio ou fumo de essência de pasquim, desde o primeiro desfile conhecido da História, onde as modelos ainda exibiam as vestes de pêlo de mamute enquanto eram arrastadas pelos cabelos.

Nessa altura o espectro de cores e padrões era mais reduzido, mas, ainda assim, eram já os “tendinitos” – transmitindo a sua mensagem através dos “tendenciosos” para as costureiras da altura – quem definia o tempo de exposição dos pêlos ao sol e as marcas de dentição apropriadas para elaborar os padrões.

Ainda não se sabe como se pode influenciar os “tendinitos” nas suas escolhas, mas consta que são muito sensíveis à oferenda de bacorinhos com tutus e esquilos cor de rosa, que devem ser deixados à porta do cabaret mais próximo, com a sugestão de novas tendências escrita em papiro de sequóia da China, enrolado de forma a caber – sem danificar – no esfincter posterior dos oferendados.

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Cortes com estilo

Maio 27th, 2010

A nossa classe política é um bocado trapalhona na apresentação de medidas impopulares, e estes últimos cortes – ou medidas de austeridade, como lhe queiram chamar – apresentados pelo governo são prova disso mesmo.

Oram vejam como eu acho que eles deviam ter apresentado as coisas:

“Caros cidadãos,

Numa avaliação feita às nossas contas públicas, levada a cabo por uma entidade independente, a revista Vogue, chegou-se à conclusão que temos um sistema económico-financeiro demasiadamente rétro e ineficaz.

Assim sendo, decidiu o Governo pedir a colaboração da consagrada estilista portuguesa Fátima Lopes, para nos ajudar a instituir cortes corajosos, mais ousados, mais modernos e seguindo as tendências minimalistas adoptadas no panorama externo, dotando o País de uma imagem mais consentânea com os padrões exigidos internacionalmente e mantendo-nos na vanguarda das políticas de contenção orçamental.

Estes novos cortes parecerão estranhos, e mesmo incómodos inicialmente para alguns, mas ajudarão seguramente a reduzir de sobremaneira os custos supérfluos, utilizando de forma mais comedida os nossos recursos.

A sobre-exposição a que ficaremos sujeitos, e a que certamente os mais tradicionalistas não estarão habituados, deverá ser encarada por todos como uma manifestação de arrojo, audácia e modernidade, e um acréscimo de sensualidade e glamour para os portugueses.

Decidiu também o Conselho de Ministros – seguindo aliás as recomendações de Sua Excelência, o Presidente da República – convocar a cidadã Sofia Aparício, para, numa adaptação das linhas de conduta e conselhos práticos que já nos vinha dando no seu programa 86-60-86, nos ajudar a alcançar as medidas ideais e a emagrecer substancialmente as contas do Estado.”

Não era muito melhor assim? Enganavam-nos na mesma, sofríamos que nos lixávamos da mesma forma, mas com muito estilo!