Pertinência

Setembro 5th, 2013

No consultório médico.

 

Médico (M) – Bom dia. Então o que se passa?

 

Paciente (P) – Bom dia senhor doutor. Na realidade não sei bem o que se passa, mas tenho notado que as pessoas me evitam e excluem… sinto que tenho algo estranho.

 

M – Muito bem. Quando se dão essas reações?

 

P – Normalmente quando questiono alguém sobre algo que não me parece correto ou que tem uma aparência suspeita.

 

M- O que é que o senhor faz na vida?

 

P – Sou jornalista.

 

M – E quando faz essas perguntas incómodas, fá-las com argumentos que as sustentem?

 

P – Sim. Sempre.

 

M – Pois… era de prever. O que eu tenho para lhe dizer não é muito agradável.

 

P – É grave doutor?

 

M – Sim. Infelizmente o senhor sofre de pertinência.

 

P – Ui doutor, nem me diga isso! Era o que eu mais temia. Parecia-me que podia ser isso, mas quis sempre pensar que era só uma cisma minha.

 

M – Percebo que sim, mas infelizmente é evidente e com reflexos gravíssimos a nível profissional.

 

P – Vou ter que deixar de trabalhar senhor doutor?

 

M – Imediatamente! Põe em risco todos os seus colegas e a si próprio se continua.

 

P – O que é o pior que me pode acontecer doutor?

 

M – Se não acabar por o corroer por dentro, causar suores frios e insónia, no limite, para acabar com o sofrimento alguém o acabará por abater.

 

P – Mesmo que eu não queira?

 

M – Sim. É uma questão de saúde pública.

 

P – Tem cura?

 

M – Não está cientificamente provado, mas pelo menos deve amenizar os sintomas se começar a ler a revista Maria e assistir a alguns reality shows e telenovelas.

 

P – Com que frequência?

 

M – Dois a quatro programas por dia preferencialmente depois das refeições. Se se sentir mesmo muito pertinente, reforce à noite com televendas.

 

P – Muito obrigado doutor. Vou fazer tudo para tirar este bicho cá de dentro e esvaziar este cérebro.

 

M – Não tem nada que agradecer. As melhoras. 201224132

Be Virgin

Junho 27th, 2011

– Boa tarde, o Dr. Rómulo está?

– Está sim, mas hoje é dia de consultas e o senhor doutor tem o dia cheio, posso ajudar?

– Não sei, acho que tem que ser mesmo com ele. Vinha aqui buscar a minha virgindade, porque o senhor doutor ficou-me com ela há uns tempos e depois disse-me para passar cá se precisasse dela.

– Pois, mas fez marcação?

– Fez, fez! Foram quase dois anos sempre atrás de mim, marcação cerradíssima, até que eu lá lha dei, mas só porque ele disse que depois ma devolvia se fosse preciso.

– E isso foi há quanto tempo?

– Há três meses.

– Ui! Mas assim não acredito que o doutor devolva, porque nós só fazemos devoluções até ao prazo máximo de um mês.

– Nem me diga uma coisa dessas, que eu preciso mesmo de ter isso de volta menina! É que na altura eu até nem tinha ninguém e nem notava a falta, mas entretanto conheci um rapazinho muito jeitosinho, que é sobrinho do padre que me confessa, e vou casar para a semana. E o que se passa é que sempre lhe disse que nesse dia lhe dava a virgindade a ele. Agora o que é que eu faço?

– A original não me parece mesmo que se consiga, até porque o doutor passado um tempo de as usar deita fora, mas eu costumo usar aquele pacote de experiências Be Virgin, que tem muitas soluções interessantes.

– Ai sim? E funcionam mesmo?

– Olhe, eu não tenho razão de queixa, ainda ontem usei aquela em que nos põem uns tomatinhos maduros de pele fraca, que rebentam muito bem e depois até têm nutrientes que fazem bem à pele e tudo, e o aspecto é magnífico, parece mesmo a sério. Sabe que quem namora muito está sempre a usar coisas destas.

– Namora muito, é?

– É. Infelizmente namoro muito, mas já estou a reduzir.

– Quantos namora?

– Agora já reduzi para um por semana e até já me sinto melhor. Houve alturas em que era um por dia, e então se saísse à noite eram dois ou três. Só no dia a seguir é que notava o que aquilo me fazia. Era um sufoco! Mas agora namoro muito menos e até estou a pensar em deixar de vez, porque isto faz muito mal à saúde.

– Acho que faz muito bem, eu só namorei algumas vezes, socialmente, e até nem gosto muito, sinto-me muito melada… não sei… é esquisito!

– O mal é que eu gosto sabe? Mas eu hei-de conseguir deixar! Voltando ao seu assunto, não me parece que o doutor vá encontrar a sua virgindade no meio da confusão que está naquele escritório, por isso faça como eu lhe disse e vai ver que o seu futuro marido nem se apercebe.

– De certeza?

– Absoluta, vá por mim.

– Vou experimentar então menina. Mas de qualquer das formas faça-me um favor e diga ao senhor doutor que eu cá vim, para o caso de ele encontrar aquilo me poder devolver ainda esta semana, está bem? O que é nosso tem sempre outro aspecto não é? E se for possível preferia não ter que usar outras coisas.

– Tem razão, vamos ver se é possível. Se houver novidades eu ligo, mas se não falarmos até lá: felicidades para o casamento!

– Obrigado menina.

D. Nina vai ao psicólogo

Janeiro 6th, 2011

D. Nina é uma doninha com fortes problemas psicológicos e dificuldades de integração, devido ao permanente mau cheiro que exala.

Na tentativa de superar esses seus complexos, como resolução de início de ano D. Nina (N) decidiu consultar o reputado psicólogo Dr. Vicente (V), o texugo.

V – Bom dia D. Nina! Ora então o que é que a traz aqui?

N – É uma coisa que me perturba muito sôtor. Até tenho dificuldade em dizer, de tão envergonhada que fico.

V – Mas olhe que aqui não pode haver vergonha, porque senão não a posso ajudar. Diga-me lá o que se passa.

N – Ó sôtor… é que é tão embaraçoso! … Mas cá vai. Eu passo a vida a feder sôtor! Em qualquer lado, quando menos se espera, vai-se a ver… e lá estou eu a feder outra vez!

V – Já falou a alguém sobre esta… hmmm… situação?

N – Já sôtor, mas é sempre a mesma coisa. Ninguém me compreende e até parece que é pecado feder muito. Chamam-me nomes…

V – Que tipo de nomes?

N – Nomes muito feios. Primeiro era “fedorenta”. Já me chamaram isso tantas vezes que até me comecei a habituar, mas agora apareceu um pássaro que me chama de “fedilhona” e isso tira-me mesmo do sério! Às vezes sonho que tenho um poder divino que me permita mandar toda a gente feder, para eu poder passar despercebida.

V – Pois… compreendo. Diga-me D. Nina, a sua situação ocorre-lhe de forma espontânea?

N – Sim sôtor. E o pior é que não me consigo controlar quase nunca.

V – E agora? Está aqui e não está a feder!

N – Pois não sôtor, mas olhe que estou a fazer um esforço enorme por respeito ao senhor. Até já sinto a cauda a arder! Parece que os calores me sobem pela espinha! Mas vou-me controlar. Prometo. Isto tem é que ser rápido, sôtor.

V – Vai ser, vai ser. Agradeço-lhe a atenção, até porque tenho outros pacientes lá fora e podia ser embaraçoso. Diga-me uma coisa D. Nina… há alguma ocasião em que consiga feder sem sentir culpa?

N – A única ocasião em que me sinto mais à vontade é quando vou visitar o meu amigo Tó à pocilga.

V – E então porquê?

N – Deve ser por ele também feder muito. Quando estou em casa dele não me sinto tão mal. Ele compreende-me muito bem.

V – E então porque é que não se muda para casa desse seu amigo? Passa a feder só com ele e assim talvez até seja melhor para os dois.

N – Ó sôtor, o Tó é um velho amigo, mas não passa disso. Tenho um bocado de medo de estragar essa amizade se começo a feder em exclusividade na casa dele. Não sei se ele está preparado e mesmo eu não sei se aguentaria.

V – Então tem que aproveitar essa sua situação de alguma forma. Já pensou ganhar a vida a feder?

N – Como?

V – Há pessoas com todo o tipo de fetiches. Pode haver alguém disposto a pagar para a ver feder. Ou então pode criar uma espécie de “apanhados” em que vai feder para um centro comercial cheio de gente e filma a reacção das pessoas. Acha boa ideia?

N – É bem visto, é. Nunca me passaria isso pela cabeça! Vou averiguar essa hipótese sôtor. Muito obrigado pela ajuda.

V – Não tem nada que agradecer. Tudo de bom para si D. Nina. E bom ano!

N – Bom ano sôtor.

Aprender a falar

Setembro 21st, 2010

Imaginem que se julgam incapazes de ser surpreendidos, que pensam que já ouviram tudo e que não há absolutamente nada que vos possa apanhar completamente desprevenidos.

Essa é a alturinha certa para que surja algo completamente inesperado, que vos porá completamente embasbacados e sem reacção durante breves instantes, com a boca aberta como se tentassem sorver do ar alguma informação que traga sentido ao que acabaram de lhes expôr.

Foi precisamente isso que me aconteceu hoje.

Após alguns tempo – anos talvez – em que me apercebi que estava gradualmente a perder capacidades vocais e com rouquidão permanente, decidi consultar um otorrinolaringologista para verificar o que se estava a passar dentro da minha garganta.

Não duvido que haja quem pense que só lá fui para poder um dia escrever a palavra otorrinolaringologista neste blogue – e não andarão longe da verdade – mas o facto é que, depois de um exame onde me debati com a necessidade do recurso a técnicas ao melhor estilo de Garganta Funda, mas sem prazer, a imagem no visor pôs a médica a exclamar coisas como “impressionante!”, “isto é fantástico!”, “nunca tinha visto uma coisa destas!”.

Nessa altura chamou outra médica, que mal entrou na sala ficou com os olhos colados ao televisor, como se tivesse acabado de ver Deus retratado na minha laringe, e exclamou “olha que coisa engraçada! como é que é possível?”.

Foi então que, entre muitas exclamações avulsas e vários pedidos de explicação da minha parte – porque começaram só a balbuciar coisas e a falar de mim como se eu não estivesse presente, como a minha mãe fazia com as amigas na rua quando eu era pequeno – , me disseram que estávamos perante um caso raro, já que eu utilizo as cordas vocais ao contrário, ou seja, parafraseando uma médica, “é como se andasse, mas tivesse as pernas ao contrário”.

Isso pode explicar alguma falta de doçura nas minhas palavras, porque afinal de contas eu exprimo-me com os calcanhares para a frente, pensei eu.

Depois ainda interpretei as frases delas como que a dizer “o senhor fala mal”, e pensei “tá bem, mas sou do Norte, é normal dizer palavrões”.

No meu pensamento ocorreu-me ainda “e se eu digo “lambreta”, será que no fundo estou a pensar dizer “aterbmal””?

Não. Isso é parvoíce.

O que se passa na realidade é que utilizo mal as cordas vocais, tensiono a parte que devia estar folgada e deixo passar o ar por onde devia estar a bloqueá-lo para criar vibração.

Para quem passou a juventude a cantar, que faz a vida a conversar com pessoas e que é capaz de vociferar com pujança o mais robusto vernáculo português, esta é uma informação, no mínimo, surpreendente.

Fiquei sem palavras durante uns minutos, e ainda bem, porque se as tivesse ia ter medo de as dizer de forma pouco ortodoxa, o que era extremamente vexatório, porque elas não tiravam os olhos da minha garganta.

Sou, portanto, um tipo que fala muito, mas mal, e por isso vou ter que aprender a falar, começando a terapia da fala já para a próxima semana.

Não me telefonem até lá, porque podem aperceber-se que eu vos estou a falar de uma forma um bocadinho esquisita e depois eu fico envergonhado.