Ideia peregrina

Setembro 16th, 2011

Existe uma expressão idiomática que se costuma usar com ironia quando se pretende identificar uma ideia descabida.

Já ouviram falar, de certeza, em alguém que teve uma “ideia peregrina”.

Além da transtornante imagem mental de uma ideia a peregrinar, parece-me que esta expressão é um dos maiores contra-sensos da língua portuguesa.

Ora façam lá esta análise comigo.

Se a ideia é descabida, é legítimo dizer que não tem pernas para andar, certo?

Os peregrinos, tradicionalmente, caminham para o local de peregrinação, correcto?

Faltando as pernas à ideia, esta não pode caminhar, pelo que se dá uma espécie de curto-circuito linguístico que retira lógica à expressão, porque, não tendo possibilidade de fazer o seu caminho, a ideia não peregrinará.

Uma forma mais correcta de denominar este tipo de ideias seria, por exemplo, “ideias com necessidades especiais”.

Além de mais exacta linguísticamente esta expressão, as ideias poderiam ostentar um autocolante identificativo e assim conseguiriam até arranjar com mais facilidade lugar para estacionar, e ficarem lá, bem quietinhas no seu sítio.

O outro

Fevereiro 17th, 2011

Admiro o outro e gostava de o conhecer.

Quando digo o outro não me refiro a uma qualquer figura que representa o amante de alguém, não.

O outro a que me refiro é aquela pessoa extraordinária, sempre com algo sensato e espirituoso para dizer, que anda na boca de grande parte dos portugueses.

Mais citado que poetas, futebolistas, comediantes, políticos ou líderes religiosos, o outro inspira grande parte da população portuguesa, que bastas vezes para fazer uma intervenção pertinente recorre ao que já por esse guru foi dito.

“É como diz o outro: …”

Admirável a forma como mesmo este intróito já soa bem, anunciando o quão apropositada será a frase seguinte.

A figura abstracta na qual se escuda o outro adensa o mistério sobre este mestre da fraseologia e aumenta em mim o fascínio pela sua personagem.

Adorava conhecer o outro.

Aliás, numa limpeza profunda ao meu âmago é capaz de se encontrar um cotãozinho de esperança em tornar-me um dia, eu mesmo, no próprio outro.

Fim de semana a enfrascar

Novembro 8th, 2010

Passei grande parte deste fim de semana a enfrascar, primeiro no sentido figurado e depois literalmente.

O primeiro contexto foi francamente mais divertido, a enfrascar com amigos num jantar regado também de muitas memórias, cumplicidades, bom humor e muita música.

Acaba-se por ficar com o cérebro dormente, a visão meio turva e a língua  ligeiramente encaracolada, mas com a alma cheia e o depósito de saudades descarregado, pelo menos por agora.

O segundo contexto foi muito mais trabalhoso, porém mais produtivo, a ajudar a minha mais que tudo e a sua companheira de criação de sabores a enfrascar (neste caso quer mesmo dizer “pôr algo dentro de frascos”) quase trezentas unidades de doce de castanha com laranja, com parte do resultado a ser visível na fotografia abaixo.

Ficaram bonitos por fora, mas é no interior que reside todo o esplendor desta nova criação da Mão de Borboleta, posso-vos garantir.

Notícias que fazem folgar

Setembro 15th, 2010

Gosto de dar notícias minhas aos meus amigos, porque sinto que os alivio de uma enorme carga de trabalhos.

Não há nada como telefonar ou enviar um mail a um amigo, com notícias fresquinhas da minha vida ou do meu trabalho, e dizerem-me do outro lado “folgo em ter notícias tuas”.

Meus amigos, que contente que eu fico por saber isso, porque o que eu quero é que vocês folguem muito e se divirtam nessas folgas.

Essa é a razão pela qual me dedico a relatar os últimos acontecimentos da minha vida às pessoas que gosto!

Nada me pode dar mais prazer do que saber que contribuí para que sejam calões e se baldem ao trabalho só porque tiveram notícias minhas.

Eu também gostava de folgar ao dar-vos essas notícias, mas a minha entidade patronal não mo permite, e por isso continuo subjugado ao destino incontornável da labuta.

Vá lá, agora voltem ao trabalhinho, que hoje não tenho novidades para ninguém.

Fim do estágio de ócio

Setembro 1st, 2010

E pronto, está completo mais um estágio do longo caminho que me levará um dia a ser profissional do ócio, com quinze dias completamente dedicados a essa dura tarefa de não fazer nenhum.

Acho que aprendi muito nestes dias, e assim que o ócio seja reconhecido como uma profissão lá estarei na linha da frente, com todo o meu savoir-faire, para garantir a minha posição no topo da comunidade ociosa internacional.

Ociar está para mim como o futebol para o Cristiano Ronaldo, ocialiso sempre que posso e há quem diga que sou a pessoa mais ocializável que conhecem, e portanto custa-me muito ver tanto talento desperdiçado.

Enquanto esse reconhecimento não chega, cioso das minhas responsabilidades, regresso hoje ao trabalho duro.

A boa notícia, no imediato, é que estes quinze dias também serviram para me lembrar que gosto muito do que faço, já tinha saudades, e é por isso com muito optimismo, renovada energia e um sorriso nos lábios que estou de volta.

Será então caso para dizer: bom trabalho!