Terminologia militar

Agosto 14th, 2013

Ainda há quem discuta se as mulheres devem ou não estar no exército.

Acho que não há discussão possível – devem estar -, mas admito que há coisas que devem ser alteradas.

Há pouco, ouvi alguém referir-se a uma “sargento” como “sargenta”.

Nem todos saberão qual a correta forma semântica e por isso temos que admitir que este será um erro comum.

Ora, este é um termo demasiadamente próximo, foneticamente, de “sarjeta”, o que é claramente depreciativo para o estatuto destas militares.

Quando dita de forma muito rápida, a frase “Fulana de Tal vai ser promovida a sargenta!” poderá levantar imediatamente a questão “E até aqui era o quê, a Fulana de Tal? Latrina?”, para o mais desatento dos transeuntes.

Acho que os nossos generais se deviam debruçar sobre esta temática, pelo menos para criar algum burburinho na messe, que é um sítio normalmente muito pacato.

Já que falamos de messe, penso que poderiam também estudar a mudança do nome desse sítio, porque há muitos que lá vão ter com um papelinho e caneta à procura de um valioso autógrafo, e vêm de lá muito desiludidos porque não era daquilo que estavam à espera.

Só para terminar, se querem chamar “parada militar” a um evento, parem de marchar de um lado para o outro e fiquem mesmo parados, porque com esse movimento todo confundem os mais jovens.bilde

O Patrimonense F.C.

Maio 14th, 2012

Existem clubes de futebol com nomes muito engraçados.

Normalmente o nome deriva da localidade de onde são oriundos, como são os casos do Milheiroense, o Sambrasense ou o Carregoguense.

Outros há cujo nome deve ter outras origens, como será o caso do Patrimonense F.C., clube de Braga, já que não existe nenhuma freguesia com esse nome na cidade.

O nome do clube advirá então daquilo que pertencerá ao seu código genético, aos seus valores: a defesa do património.

Um clube com este nome deve ter como seu principal propósito, além de jogar futebol, a proteção ativa do património, e acredito mesmo que sejam uma espécie de grupo ativista da defesa do mesmo.

A julgar pelo nome, o cenário que imagino desde logo é que o Patrimonense F.C. jogará num estádio ao melhor estilo de um coliseu romano, sendo que o público sabe dos jogos através dos arautos do clube, que percorrem a cidade nas suas quadrigas, lendo em voz alta os papiros onde está escrito o calendário dos diversos torneios.

As equipas alinham duas horas antes, junto do túnel de saída dos leões, para a pintura de grupo – feita por um pintor local de inspiração renascentista – que servirá de memória futura e onde estão patentes os belos trajes regionais que os jogadores utilizam.

A bola de jogo será uma bexiga de porco insuflada, sendo que os jogadores ainda usam sandálias para a chutar.

Nas bancadas são servidas sandes de courato e entranhas de javali, e os aguadeiros distribuem o refrescante líquido com as suas bilhas ao ombro.

Interessante também será o marcador, uma imensa placa granítica – envolta por uma caixilharia barroca de talha dourada – onde se vai esculpindo o evoluir do resultado.

Só é admitida linguagem arcaica e a correcção de todos os intervenientes é incentivada, sendo as injúrias do público para com o árbitro punidas com chicotadas no pelourinho situado junto da bancada dos jornalistas, da mesma forma que os árbitros são punidos com a extração de uma mão, no caso de se comprovar o ato de roubo por parte dos mesmos.

De referir também o papel da claque do Patrimonense F. C., que só recorre a cantigas de amigo e chocalhos de vaca para incentivar a equipa, o que denota uma postura apaziguadora do desporto por parte destes adeptos defensores do património.

Um belo exemplo, pois, de conjugação entre o desporto e a conservação patrimonial, não credes?

 

 

Vernáculo Nortenho a Património Imaterial da Humanidade

Abril 2nd, 2012

O Fado foi, no final do último ano, reconhecido como sendo Património Imaterial da Humanidade.

Todos os portugueses se devem sentir orgulhos por este reconhecimento e é importante que saibamos capitalizá-lo de forma eficaz, mas ao mesmo tempo sustentável.

É importante também que nos apercebamos da real importância de vermos reconhecido internacionalmente aquilo que é tão genuinamente nosso.

Os alentejanos já se aperceberam disso e não foram de preguiças, preparando já a candidatura do seu Cante.

É altura de, mais a norte, surgir também uma candidatura forte a Património Imaterial da Humanidade.

Pela sua pureza, enraizamento e marca identificativa de um povo, devemos começar a preparar com afinco a candidatura do Vernáculo Nortenho!

Divulguemos este linguajar ao mundo, orgulhosos do nosso património, da forma que estas gentes têm para se exprimir, que as torna tão singulares.

Das vendedeiras do Bolhão às sargaceiras da Apúlia, passando pelos pescadores de Viana do Castelo ou dos pastores em Trás-os-Montes, mudando aqui e ali o sotaque e o cantar, existem elementos transversais à forma como se fala “cá em cima”, com um espontaneidade que não se encontra em mais lado nenhum.

Temos que divulgar e dignificar esta forma de falar, editar diálogos em disco, transcrever frases ditas entre buzinas de carros, gravar discussões e emiti-las on-line, levar os turistas aos sítios onde se fala assim e explicar o real conteúdo do que ali se diz.

Imaginem um autocarro de turistas a parar no Bolhão, propositadamente para assistir a diálogos  – devidamente legendados em tempo real -, deste género:

– Oube lá! Essas sardinhas num soum minhas?

– Fuoood@$$e! Tás a falar cum queim car@!#o? Aichas c’ando aqui a roubar sardinhas ó o car@!#o?

– Se calhar sou ceguinha noum? Num te vi ali a falar co pan€!€iro do teu home e a bires aqui pegar na saquinha, noum?

– Bai-te incher de muoscas, oube lá. Tá maluquinha ó o car@!#o! Fu%&asse! P*+a que pareu! Passa-te ó car@!#o auntes que te fu%&a o focinho.

– Tenho medo de ti não, ó badalhoca? Dá cá essa m€§da antes que lebes quatro p*+as!

– Tu e mais quantas? Bai fazer br%ches a cabalos, bai-te ganda f%&er! Inda num tinhas pintelhos na c%na e já eu lebeba baldes à cabeça, tás a oubir ó morc%na do car@!#o?

– Era baldes na cabeça e p|$$as na buoca noum sua p*+a de m€§da? Dá cá o filho da p*+a do saco, já disse ,car@!#o!

– Porque que é que o car@!#o do saco habia de ser teu, diz lá?

– É meu porque tem um cordel azul nas badanas, num teim?

– Tem um cordel tem! E esta m€§da é azul por acaso, ó p%rca do car@!#o? Esta m€§da é ruoxo, fu%&asse!

– Eia, fu%&asse! Desculpa! Num foi por mal, mas é um saco igual ao meu car@!#o, e ao longe essa m€§da parecia um cordel azul. Num biste aí o meu saco noum?

– Quero que se fu%&a lá o teu saco, ó o car@!#o. Sai lá daí que beim aí fregueses, baita f%&er.

– Badalhoca.

– A tua mãe.

É este património linguístico que a humanidade não pode dar-se ao luxo de perder.

Com tantos sinais que, por pudor, ainda nos vemos obrigados a utilizar nas transcrições, está-se a perder a genuinidade e fluidez, está-se a perder a riqueza.

Por isso é que não podemos ficar parados e devemos agir para preservar e dignificar o vernáculo nortenho, lutando para o seu reconhecimento e valorização ao nível mundial, car@!#o!

 

 

 

Acordo ortográfico

Novembro 2nd, 2011

A resistência foi muita, porque achei que esta evolução (?) da língua portuguesa foi imposta politicamente e não emanou de um natural desenvolvimento da língua.

Seja como for, o acordo ortográfico é hoje uma realidade e de nada adianta dizer que foi mal feito, que serve mal a língua portuguesa e que no futuro nos vamos arrepender.

Isso seria velhodorestelhice da minha parte e eu não me revejo nada nessa figura.

Por isso, a partir de hoje vou passar a tentar escrever seguindo as regras do novo acordo e tentar perceber como me sinto a dizer que vou jogar polo.

Não se pode dizer que seja um ato heroico, esta minha nova atitude, mas vai ser com certeza difícil esta adaptação e sinto que até estou a ser um bocadinho corajoso em dar este passo.

Hei de conseguir um dia fazer isto de forma natural e tenho por objetivo chegar ao fim do ano fluente na nova escrita, por isso agradeço que me não me passem a mão pelo pelo se eu der erros, mas, pelo contrário, sejam corretores ativos desta minha nova forma de escrever e me informem de todos os erros que detetem.

Obrigado.

Salsifré

Setembro 27th, 2011

Salsifré é uma palavra que eu aprecio, porque junta numa só expressão duas coisas que me dizem muito.

A salsa é um condimento que aprecio bastante.

Há quem a prefira dançada, mas para mim a sua utilização por cima de um bacalhau à brás, por exemplo, é aquilo que lhe faz ganhar a sua máxima expressão, é assim que tem realmente valor.

Fré é para mim muito importante também, já que é a segunda palavra que aprendemos quando entramos na universidade, logo a seguir a Frá, e portanto invoca lembranças dessa época.

Ora, uma palavra que junta um condimento de generoso paladar com as memórias dos belos tempos de instrução na universidade só pode resultar em música para os meus ouvidos, e daí eu achar que a deva utilizar mais vezes.

Quando gostamos muito de uma palavra, acho que faz sentido fazer um esforço para a utilizar mais, experimentando pô-la noutros contextos para além daqueles em que normalmente as usamos.

Sendo assim, se doravante me ouvirem dizer “esta coisa causa-me salsifré”, “parece que tenho um salsifré dentro do peito” “isto está muito salsifré” ou “és salsifré para mim”, devem entender que estão a obter uma reacção muito positiva da minha parte e não que estou a ter um discurso incoerente, amalucado ou estúpido.

Estamos combinados?

Não ficam a pensar que estou bêbado ou a ter convulsões ao nível do meu armazém vocabular?

Muito bem.

Então tenham um dia salsifré, e até uma próxima oportunidade.