Espera crónica

Agosto 6th, 2012

Ficar à espera é a segunda coisa mais desagradável que me ocorre ao pensamento, logo a seguir à inserção de um ferro quente pelo uretra.

Sem exagero!

Aliás, a partir de 5 minutos de espera já começo a sentir cada segundo como uma bigorna a cair na cabeça repetidamente, para imaginarem o grau de sofrimento que o estado de espera significa para mim.

O único atraso de que gostei foi o de um período, que me trouxe a melhor notícia de todas.

E foi só esse, porque outros houve antes que me deixaram branco e com suores frios.

Infelizmente parece que nasci com uma espécie de relógio biológico que não funciona só como incentivo à paternidade, mas que me impele também para o rigoroso cumprimento horário dos compromissos assumidos.

Como um mal nunca vem só, quis a minha fortuna que nascesse num pedaço de terreno onde o atraso é quase uma instituição.

É de tal forma que as pessoas já acordam atrasadas e com uma “excelente” desculpa para esse acontecimento.

Depois queixam-se que não têm tempo para nada e rónhónhó, mas esquecem-se que são elas as responsáveis pela gestão desse tempo.

É normal chegar atrasado, é “bem” chegar atrasado, é sinal de atividade chegar atrasado, é sinal de importância chegar atrasado.

É uma falta de respeito do c@r@&#0, é o que é!

Parece que quem faz das tripas coração para chegar sempre a tempo e horas é que está mal.

É stressado, é demasiadamente rigoroso, é chato.

Este problema de atraso crónico identifica-nos enquanto sociedade e tolhe-nos de uma forma que acho que ninguém verdadeiramente se apercebe por aqui.

Reflete-se não só ao nível das relações sociais e familiares, mas é sobretudo no trabalho que acho verdadeiramente insuportável que se aborde o tempo desta forma.

Se os senhores da troika me solicitassem uma única sugestão para inverter a atual situação eu dir-lhes-ia:

“É comprar um relógio para esta malta toda. Mas façam uns especiais que permitam integração com a agenda e que dêem um choque elétrico por cada minuto de atraso.”

Veriam como a produtividade aumentava substancialmente num mesinho!

Popota de Natal

Dezembro 19th, 2011

Há mistérios na vida que me parece que só poderão ser desvendados numa sessão de esclarecimento no Além.

Um deles é este fenómeno popotesco que nos vem atormentando as últimas épocas natalícias.

Quem no seu perfeito juízo se lembra de criar uma mascote de Natal que é uma hipopótama cor de rosa vestida de forma provocante e a dançar de forma supostamente sexy?

O que é que isto tem de natalício?

As nossas crianças crescem a ver a cada cinco segundos, na televisão e nos cartazes espalhados por todo o lado, um animal obeso a dançar a lambada e envergando roupas reduzidas e reluzentes, rebolando as fartas carnes em movimentos sedutores para atrair a petizada.

Eu não acredito que as crianças possam crescer normalmente com esta gosma a colar-se nas paredes do seu imaginário.

Têm que ficar desorientadas e com tendência para ir pedir prendas de Natal por e-mail aos sites de BBW.

Tudo bem que o Pai Natal é fortezito e os bonecos de neve também não são um exemplo de elegância, mas não andam para aí vestidos de cabedal e lantejoulas nem a roçar-se no varão, ou andam?

Ao menos ponham o animal a concorrer ao Peso Pesado para dar um bom exemplo à meninada, e ponham-lhe uns mantos natalícios que lhe dêem menos ar de Poputa, pode ser?

E não vale a pena virem dizer que a Leopoldina é melhor, que aquele bico também não engana ninguém!

 

Palradores públicos

Outubro 10th, 2011

Há uma espécie de pessoas que faz ponto de honra em que toda a gente saiba, em tempo real, como corre a sua vida, quais são os seus sentimentos, as suas preocupações e os pormenores dos seus episódios quotidianos.

São uma espécie de arautos novelescos que não hesitam em vociferar as suas questões pessoais e observações em caixas de supermercados, mesas de café e cadeiras de cabeleireiro.

Falam para o ar, como se lançassem uma espécie de competição entre as palavras para ver qual delas chega a mais ouvidos.

São pessoas com um critério idêntico à dos organizadores das maratonas de São Silvestre, onde o que é importante é o número de atletas e não a qualidade dos mesmos.

Essas dissertações públicas podem apanhar alguns transeuntes desprevenidos, o que leva a que alguns sejam tentados a interagir com a palradeira ou o palradeiro de serviço, alimentando assim o seu forninho de palavras, em cujo interior arde tudo o que vagamente se assemelhe com discrição, pertinência ou bom senso e que debita para o exterior uma fumarada imensa de banalidades, queixumes ou graçolas irrisíveis.

Às tantas dou por mim, perante situações como esta, irritado e à procura de um açaime ou uma mordaça que me possa socorrer, ou mesmo de um otorrino que possa realizar uma extracção das cordas vocais de urgência, no fundo algo que me ajude a fazer-lhes uma alteração do seu estado, para proporcionar a sua necessária “mudificação”.

Não havendo nada disso à mão, resta-me este cantinho das irritações on-line, que tão bem me percebe, para desanuviar.

T-shirts marcadas

Junho 29th, 2011

É um desafio titânico tentar comprar uma t-shirt original e de boa qualidade nas lojas de marcas conhecidas, nos centros comerciais.

Isto porque aparentemente saíram de linha os modelos em que o tecido não tenha sido invadido por letras com o nome da marca em tamanho gigante, para que não passe despercebido ao mais distraído dos transeuntes.

Qual é o interesse de comprar uma peça de roupa que tenha inscrita em letras garrafais a marca que estamos a usar?

Parece que todas as marcas se lembraram de transformar os seus clientes em outdoors ambulantes, tal como se fazia antigamente com aqueles painéis sanduíche que se punham em cima das pessoas, que depois andavam na rua a espalhar a mensagem desejada.

Acho piada que há quem ache parolo andar com uma t-shirt de um clube de futebol, mas não se importa nada de ter uma marca de roupa a ocupar toda a parte da frente de uma t-shirt!

Diz que é fashion, ao que parece.

Não consigo perceber porque é que se está a pagar tanto para fazer publicidade a uma marca.

No sentido exactamente contrário ao que é suposto acontecer, o cliente está a pagar para fazer publicidade de borla à marca.

Não devia ser ao contrário?

– Se não se importar de ter a nossa marca estampada em 85% da parte visível da sua t-shirt nós damos-lhe 34€.

– Não sei, parece-me pouco. Ainda ontem pedi um orçamento para um outdoor aqui à entrada do centro comercial e pediram-me 700€ por mês. E é fixo, não anda por toda a cidade! Ora como eu espero usar esta peça pelo menos 10 vezes acho que podemos negociar a partir de 230€, que me diz?

– Infelizmente só lhe podemos dar até 100€. Mesmo em saldos só podemos oferecer até 200€. Com esta crise temos que cortar um bocadinho no orçamento para publicidade, como com certeza compreenderá.

– Fazemos assim, como eu gosto muito da cor e simpatizo com a menina porque tem um busto apetecível, ficamos pelos 100€ e o seu número de telefone, e assim eu levo a t-shirt, pode ser?

– Muito bem. O meu número é o 936###### e aqui estão os seus 100€. Pedimos só que não adultere a t-shirt e nem a dê assinar a nenhuma celebridade porque pode ser alguém com quem a nossa marca não se identifique e isso poderá prejudicar a nossa imagem.

– Ok, obrigado. Logo falamos então.

 

Deitar cedo e cedo erguer…

Novembro 12th, 2010

“Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer”.

Quem foi o iluminado que se lembrou de dizer isto?

É anónimo não é?

Pois!

Com a vergonha de ter dito tal barbaridade, esconde-se no anonimato, o cobarde!

Isto pode ser uma boa frase motivacional para padeiros, mas também não consta que eles vivam até aos 120 anos, nem que tenham 2,15 metros.

Não enganem as pessoas com este tipo de promérdios!

Ontem deitei-me cedo e acordei hoje ás 5 da manhã, e agora, de grande, só tenho o sono.

Estou com a sensação de ter sido picado por uma mosca tsé-tsé gigante e que o meu corpo ameaça uma paragem cérebro-ensonatória, além disso sinto-me acometido de nanismo vertiginoso, porque de repente parece que a única coisa que me pode servir é um pijaminha.

Até gostava de estar com o criador do dito para ver se ele acha que estou com ar saudável ou espadaúdo.

Para isso e para lhe dar um tricla na língua, para não dizer coisas destas.