Espera crónica

Agosto 6th, 2012

Ficar à espera é a segunda coisa mais desagradável que me ocorre ao pensamento, logo a seguir à inserção de um ferro quente pelo uretra.

Sem exagero!

Aliás, a partir de 5 minutos de espera já começo a sentir cada segundo como uma bigorna a cair na cabeça repetidamente, para imaginarem o grau de sofrimento que o estado de espera significa para mim.

O único atraso de que gostei foi o de um período, que me trouxe a melhor notícia de todas.

E foi só esse, porque outros houve antes que me deixaram branco e com suores frios.

Infelizmente parece que nasci com uma espécie de relógio biológico que não funciona só como incentivo à paternidade, mas que me impele também para o rigoroso cumprimento horário dos compromissos assumidos.

Como um mal nunca vem só, quis a minha fortuna que nascesse num pedaço de terreno onde o atraso é quase uma instituição.

É de tal forma que as pessoas já acordam atrasadas e com uma “excelente” desculpa para esse acontecimento.

Depois queixam-se que não têm tempo para nada e rónhónhó, mas esquecem-se que são elas as responsáveis pela gestão desse tempo.

É normal chegar atrasado, é “bem” chegar atrasado, é sinal de atividade chegar atrasado, é sinal de importância chegar atrasado.

É uma falta de respeito do c@r@&#0, é o que é!

Parece que quem faz das tripas coração para chegar sempre a tempo e horas é que está mal.

É stressado, é demasiadamente rigoroso, é chato.

Este problema de atraso crónico identifica-nos enquanto sociedade e tolhe-nos de uma forma que acho que ninguém verdadeiramente se apercebe por aqui.

Reflete-se não só ao nível das relações sociais e familiares, mas é sobretudo no trabalho que acho verdadeiramente insuportável que se aborde o tempo desta forma.

Se os senhores da troika me solicitassem uma única sugestão para inverter a atual situação eu dir-lhes-ia:

“É comprar um relógio para esta malta toda. Mas façam uns especiais que permitam integração com a agenda e que dêem um choque elétrico por cada minuto de atraso.”

Veriam como a produtividade aumentava substancialmente num mesinho!

Festas de Verão

Julho 30th, 2012

Portugal sempre foi um país festeiro.

É conhecida a nossa tendência para romarias e tudo o que seja um bom pretexto para lançar uns foguetes, promover bailarico de mulheres com mulheres e beber uns canecos.

Nos últimos anos temos asssitido a várias tendências de festa de Verão, desde os festivais de música – cujo padrão de nome é: Festival [inserir localidade ou região – opcional] [inserir marca de cerveja ou telecomunicações] – aos festivais gastronómicos, onde cada terreola promove o que lá se come, nem que sejam só pevides ou tremoços.

O último filão a ser descoberto foi o das festas de época.

Tudo começou com as festas medievais, que eram um conceito engraçado, que permitia uma animação diferente e a participação de artistas de rua, restaurantes e artesãos.

Esse conceito começou a ser aplicado de igual forma em tudo o que era bairro com mais de três visitantes, nos meses de Verão, tornando este tipo de festas repetitivas e banais.

É então que se parte para outro caminho: descer lentamente na cronologia.

A diferenciação é feita pela época histórica, deixando cair a medieval e seguindo para outras épocas como a do império romano ou o anterior período de cultura castreja.

E é aqui, que, estimados leitores, temos que parar para observar e pensar.

Se as épocas são diferentes, não fará sentido que o que se encontra nestas festas temáticas seja também diferente?

Ou alguém está mesmo convencido de que a bijuteria, os brinquedos de madeira e as velas aromáticas são transversais a todos os períodos da história?

Os povos antigos comiam todos porco no espeto, bebiam chazinhos de variadíssimas plantas e alambuzavam-se com doces conventuais?

Todos?!?

Da forma como isto está a ser feito haveremos de denominar este tipo de festas como festas triássico-medievais, e provavelmente chegar à conclusão que os dinossauros também eram consumidores assíduos de ginginha e falavam castelhano!

Existe a bota.

E a perdigota.

E não têm nada a ver uma com a outra.

É como os alhos e os bugalhos.

Uma coisa é uma coisa, e outra coisa… é outra coisa.

Fiz-me entender?

Vamos lá ler uns livrinhos de época para fazer as coisas um nadinha mais coerentes, pode ser?

 

 

Direto ao assunto

Julho 23rd, 2012

Uma das características pessoais que mais aprecio é a objetividade, o pragmatismo, o ser direto.

Valorizo muito as pessoas focadas, as que vão direto ao assunto e não divergem, como aquelas estradas bifurcadas, trifurcadas ou mesmo tetrafurcadas, de terra batida, nas serras, que um tipo nunca sabe onde vão dar.

Um dia perdi-me numa dessas estradas, porque me distraí com uma cegonha que vinha a passar.

Pareceu-me que trazia alguma coisa pendurada no bico, e como vinha a voar baixinho achei que era uma boa oportunidade para verificar se o que trazem no bico são, de facto, bebés ou não.

Não era, como eu supunha, porque não acredito nessas coisas, nem nos OVNI que eu acho que só servem para as pessoas venderem discos que sobraram do tempo do vinil, que agora é um material que já não serve para mais nada a não ser para suporte publicitário, e de má publicidade.

Como a do outdoor que ainda ontem vi numa autoestrada, durante um engarrafamento causado por um cão que saltou a vedação e foi atropelado por um camionista que vinha a tirar macacos do nariz.

Porque é que lhe chama  macacos?

Aquilo é gosma, ou monco, ou muco, ou lá o que é, mas não se parece nada com um macaco, coitado do bicho!

As pessoas têm a mania de inventar denominações e essas coisas, essa é que é essa!

Parecem maluquinhos, blá, blá, blá, a dizer coisas sem sentido, e depois não se percebe nada e ninguém se entende… uma confusão.

Fazem-me lembrar as pessoas que se esquecem do que verdadeiramente importa e não vão diretas ao assunto e enrolam, enrolam, enrolam…

Não gosto nada de pessoas assim.

Orgulho no desporto nacional

Julho 2nd, 2012

Portugal acorda hoje orgulhoso.

Foi um fim de semana em cheio para o desporto nacional e isso sente-se a cada esquina, na face das pessoas, e nas redes sociais, com as inúmeras mensagens de orgulho dirigidas aos nossos representantes, que se destacaram ao mais alto nível do desporto europeu.

Julgo até haver algum exagero na importância dada a estes feitos, a julgar pelas capas dos três maiores jornais desportivos nacionais, mas já não embandeirávamos em arco há quase uma semana e portanto compreende-se todo o destaque que se tem dado.

Segundo consta, preparam-se receções memoráveis para três portugueses que elevaram bem alto o nome de Portugal nos últimos três dias.

Pedro Proença será recebido por uma mitra jeitosa, devidamente encapuçada, que o levará até ao centro comercial Colombo, onde reviverá os momentos lá passados no início desta época, que terão sido decisivos para lhe endireitar o globo ocular esquerdo, corrigir o desvio nasal de que padecia e acertar-lhe o passo, ajudando-o assim a tornar-se no melhor árbitro europeu da atualidade.

Patrícia Mamona também será recebida com pompa e circunstância, pelos seus familiares e amigos, estando já a ser recolhidos em livro uma série de trocadilhos e piadas várias acerca do seu nome, que lhe será entregue por uma ardina brasileira do jornal Metro, assim que ela pare no semáforo à saída do aeroporto.

Para não variar, Dulce Félix também será recebida com honras de tranquilidade, por um grupo pequeno de pessoas que a conhecem desde menina e por um ou dois atrevidos colegas de equipa, que lhe abrirão caminho pela multidão indiferente até ao táxi mais próximo, onde terá que esperar como os outros.

O Presidente da República terá enviado uma SMS de felicitações para dois deles com o seguinte texto “Prb. Obg. Ab. Ass: PR”, mas entretanto ficou sem saldo para enviar para o terceiro.

Pediu no entanto ao Primeiro-ministro, se não se importasse, para assinar pelos dois quando enviasse a mensagem dele.

Disse também à comunicação social que até os receberia de bom grado, mas ficou sem arroz na despensa porque está à espera da próxima baixa de preço no Pingo Doce para enviar a sua comitiva de aprovisionamento presidencial.

Se não tiver oportunidade de os receber entretanto, pelo menos no próximo jantar de despedida da seleção nacional de futebol sub-12, que nos vai representar no Torneio Internacional de Badajoz, haverá possibilidade de os integrar, já que os miúdos comem menos dos que os séniores e portanto não haverá problema em mandar fazer mais três bicos de pato com queijo e fiambre e comprar mais três sumos de tutti-fruti.

Michelin fashion

Junho 21st, 2012

Acho piada às pessoas que se enchouriçam!

Pessoas que se inspiram no Bibendum quando compram roupa nova ou quando vão sacar um trapinho bonito ao armário.

Não sei se se tratará de um estado de negação ou se acham que enchouriçadas ficam mais apetitosas, mas eu não consigo compreender o que leva alguém a vestir roupa três tamanhos abaixo do ideal… para os filhos.

Haverá algo mais perturbador do que ver uma imensa massa corporal a esticar umas calças de ganga ou de lycra a um ponto em que se consegue ver as moléculas a ficar vermelhas e a gritar “vou estourar!… vou estourar!”?

São estas pessoas que depois originam a escassez de números normais nos saldos, sobrando os XXL e outros tamanhos adequados para pessoas de avultada xixez.

Se fosse visivelmente confortável, tudo bem.

Só o aspeto não pode causar grandes danos.

Mas o que vemos é aquelas pessoas de corpo integralmente espartilhado, a andar tipo zombies, com as pernas e os braços hirtos, tolhidos de movimentos e evitando tudo o que sejam bancos, sofás ou cadeiras, não vá o diabo rompê-las!

Ninguém deve ter vergonha do corpo que tem.

Nem todos podemos ser Adónis ou Afrodites.

Podemos é tratar a nossa persona com respeito e não fazer do nosso corpo uma máquina de testes de resistência têxtil, nem uma bomba de retalhos em potência.

Até porque tudo tem um limite, e neste caso o limite é quando verificamos que a única forma de introduzir algo entre um corpo e a roupa que o envolve é recorrendo à nanotecnologia.

Eu não sei como é com vocês, mas eu fico sempre com medo quando vejo alguém vestido assim.

Sinto-me como um participante daquele tipo de jogo em que o balão passa de pessoa para pessoa e pode explodir a qualquer momento.

Fico nervoso.

Nunca se sabe quando vamos ser vítimas de um overstretching e ficar com um estilhaço de corsário entalado na fossa nasal.