Ervas danosas

Abril 8th, 2013

Portugal é o “jardim da Europa à beira mar plantado”, dizia Tomás Ribeiro no século XIX, e muito bem.

O que ele estaria longe de supor, seguramente, é que este jardim está hoje a ser tratado por jardineiros que estimulam a propagação de ervas daninhas.

A ervas daninhas são herbáceas consideradas como pragas, de espécie menor e isentas de qualquer possibilidade de darem fruto ou, pelo menos, acrescentarem beleza ao jardim.

Espalham-se rapidamente pelo território, ocupando os espaços vazios, para depois “abafarem” as outras espécies, de maior valor, com a sua disseminação massiva e em rede.

Secam tudo à volta e deixam o jardim feio, estéril, seco, irregular e desvalorizado.

Um jardineiro em condições – não precisa de ser muito bom, só precisa de se preocupar genuinamente com o jardim – elimina logo à nascença este tipo de ervas, tratando com carinho as restantes espécies do jardim, alimentando-as, podando-as e dando-lhes as melhores condições para crescer.

O que assistimos hoje em dia em Portugal é precisamente o contrário.

À medida em que se corta cada vez mais o acesso a água, luz e adubo às espécies de maior beleza e valor – incentivando até o seu envio para o estrangeiro -, vemos os sucessivos jardineiros a deixarem as ervas daninhas espalhar-se, formando prados perfeitamente visíveis, com uma força sugadora de recursos esmagadora, intocáveis apesar de serem visivelmente nefastas.

A única forma de estas ervas saírem deste jardim – é cada vez mais evidente – é apodrecendo, por elas próprias, porque nada será feito para que sejam extraídas contra a sua vontade, ainda que sejam por demais claros os danos que fazem à saúde, beleza e sustentabilidade do jardim.

E ainda assim saem com direito a homenagens e com um forte sentimento de perda para o jardineiro.

Os danos são tão graves que julgo até que poderemos apelidar estas herbáceas de ervas danosas, porque é mais correto do que chamar-lhes daninhas.

Estamos a tornar-nos rapidamente num baldio, em vez de um jardim, onde as ervas danosas aparecem por todo o lado, em lugares de destaque, protegidas por quem deveria ter o dever de as combater.

Seria um problema fácil de resolver, houvesse um qualquer jardineiro com características diferentes do que os que têm por cá passado, mas são todos da mesma escola e portanto não haverá milagres.

Se não vamos lá com os jardineiros que temos, parece-me claro que está na altura de sermos nós próprios a começar a deitar herbicida à nossa volta, a extrair as ervas danosas e a queimar o amontoado colhido.

Temos que deitar mão á nossa terra, meus amigos, e muito rapidamente.

ervas danosas

Natal sem burro nem vaca

Dezembro 23rd, 2012

Vocês não vão sentir falta do burro e da vaca no vosso presépio?

Sou do mais seguidista que pode haver em relação ao que o Papa vai dizendo, e portanto apressei-me a escacar o burro e a vaca de porcelana que costumo pôr no meu presépio assim que ele disse que afinal eles não estavam lá na altura do nascimento do Menino.

O pior veio depois.

Aquele sentimento de vazio, de que falta alguma coisa que me acompanhou desde pequenino e o peso na cosnciência, indiciador de que algo de mau houvera feito.

Daí à reflexão sobre esta temática foi um pequeno passo.

Em relação às vacas estou de certa forma tranquilo, porque têm mais funções e estatutos simbólicos que se perpetuam, pelo menos no que à mais velha profissão do mundo diz respeito.

É o burro que me causa espécie, porque toda a gente sabe que não serve para grande coisa a não ser para postais ilustrados do mundo rural e para o presépio.

Ao tirá-lo de lá estamos, portanto, a contribuir para o burrocausto ou burrocídio, como preferirem chamar-lhe, dando o passo que faltava para a sua extinção.

Parece-me mal e pelo que se ouve à boca pequena nos corredores das grandes superfícies comerciais, algo se esconde por trás destas afirmações do Papa.

Segundo estas fontes, foram encontradas na casa de banho do mordomo de  Sua Santidade pedaços de papel higiénico amarfanhados e escritos com tinta de limão, contendo textos que indiciam que o Papa pretende destituir o burro e a vaca porque terá como objetivo de curto prazo, substituí-los no presépio por outra dupla de animais.

Os sucessores do burro e da vaca serão um cão pastor alemão de nome Cardinal e uma ratazana que canta, que à falta de melhor nome, terá ficado conhecida somente pelo nome inglês de Rat Singer.

A perspectiva de Bento XVI é a de que Cardinal e Rat Singer assumam as suas funções imediatamente após o desaparecimento do último burro, que poderá ocorrer já em 2013 se houver eleições antecipadas em Portugal.

Num próximo livro, estará a ser preparada a revelação de que existiu efetivamente um caganer na cena da natividade,  que terá uma imagem semelhante à que aqui apresentamos.

Até lá, resta-nos desejar mais uma vez os parabéns ao Menino – que conte muitos e que nós estejamos aqui para ver – e votos de bom trabalho para o senhor Pai Natal.

Para vós fica também uma palavra especial relativa a esta quadra: bom apetite e muitas no sapatinho.

SPAIN-CAGANER-POPE

12h12 de 12/12/12

Dezembro 12th, 2012

São neste momento exatamente 12h12 do dia 12/12/12.

O chão não mexe, não se vê meteoros a cair em catadupa, os animais andam tranquilos e o meu vizinho ainda é benfiquista, sinal de que nada de muito grave se estará a passar.

Estava ansioso por este dia, porque a confirmarem-se as profecias ia deixar muita coisa por fazer.

Não estava preparado para assistir à mega trovoada sabendo que ainda não subi ao Everest, não provei nenhum prato da autoria do chef Ferran Adriá, não mergulhei na grande barreira de Coral, não joguei no relvado do Estádio de Wembley nem vi pinguins na Antártica.

Mas acima de tudo não estava conformado com o facto de isto acabar e eu deixar o meu filho mais velho analfabeto e o mais novo ainda no forno.

São de facto muitas as coisas que tenho para fazer nos próximos tempos, por isso incomodava-me um bocadinho esta coisa de o Mundo acabar hoje.

Apesar do muito que se tem feito em termos de estratégia politica global, parece que mais uma vez não foram cumpridos os prazos e ainda não foi desta que conseguiram destruir isto de vez.

Teremos que esperar por 2013 para assistir a mais manobras destruidoras dos nossos agentes políticos, e pode ser que consigam, com a habitual derrapagem orçamental e temporal, dar cabo disto tudo até 2015.

Respiremos então profundamente, gozando desta sensação de que podemos voltar a trabalhar descansados, sabendo que estamos a contribuir para o prestimoso Estado português, para a visionária política de austeridade da União Europeia e para a continuidade deste armagedão económico-financeiro.

Bom resto de continuação, como soi agora dizer-se.

Earth-Exploding

 

Professores a concurso

Setembro 19th, 2012

Nos Estados Unidos da América é habitual ouvir relatos de milhares de pessoas em fila de espera por um lugar de ator, cantor ou modelo.

É o sonho americano do estrelato e da fama, que faz com que muita gente para lá emigre, alimentando esse sonho através do recurso a trabalho temporários como empregadas domésticas, entregadores de pizza ou caixas de supermercado.

Por cá é a mesmíssima coisa… mas com os professores.

Longas filas de professores não colocados, percorrendo castings de norte a sul, na esperança de conseguir esse lugar de sonho, disputado por tantos.

À imagem daquilo que se passa no outro lado do Atlântico, também por cá as produtoras televisivas se preparam para lançar reality-shows com base na concretização desse objetivo de vida de milhares de pessoas em Portugal.

“Casa dos Professores”, “Então tens a mania que sabes ensinar?” ou “Olhe que não sôtor!” são títulos possíveis para este concurso.

Aqui os professores terão a oportunidade de mostrar todas as suas capacidades, começando por um esquema de seleção semelhante ao Ídolos, onde quatro jurados de reconhecido valor escolherão os finalistas candidatos a professor.

Os quatro jurados serão uma mescla representativa do universo estudantil português: um marrão sem vida social, um delinquente juvenil sem qualquer nota positiva no último ano letivo e menos de 10% de frequência às aulas, uma adolescente viciada em telemóveis e tablets e um político, ou equivalente.

Por ser mais popular, ter mais criatividade e espontaneidade nas frases e representar um franja estudantil em crescimento, o presidente do júri será o delinquente juvenil.

Ao longo do concurso os candidatos a professor enfrentarão os mais diversos desafios.

Preenchimento exaustivo de relatórios, desenvolvimento de atividades extra-curriculares, pelotão de enxovalhamento, batalhão de pais irados, fuga ao gang e caminhada pós-esvaziamento de pneus, são alguns exemplos de provas a superar.

O vencedor levará para casa uma prestigiada função de professor, com a validade de um ano, numa escola perto do Bairro do Alto da Cova da Moura, um colete anti-bala, um vale de dez consultas com o professor Bambo, um estojo de primeiros socorros e um passe social.

Um luxo!

“Alegre” despertar

Agosto 20th, 2012

Uma bela manhã da semana passada acordei ao lado de um homem.

Nada de arrepiar, não fosse o facto de a minha cabeça repousar sobre o seu corpo, sugerindo uma intimidade que eu não estava preparado para aceitar.

Os nossos olhares cruzaram-se na torpidão do despertar, sendo indisfarçável o desconforto mútuo e a pergunta latente, não verbalizada por nenhum dos dois: como é que chegamos a esta situação?

Os seus cabelos grisalhos e as mãos calejadas sugeriam uma educação à moda antiga, onde o contacto entre homens se evita a toda a força.

A timidez com que me olhou, de forma algo paternal, deixou-me com a sensação de que para ele também era a primeira vez.

Confesso que me atrapalhei e fiquei sem reação por uns instantes.

Levantei-me num movimento brusco, limpei a saliva que me escorria da boca e olhei o infinito à procura de respostas.

Como irei explicar à minha mulher e ao meu filho o que acabou de acontecer?

De que forma este acontecimento afetará as nossas vidas?

A que tipo de doenças terei ficado exposto?

Ainda não tenho resposta para tudo, mas de uma coisa tenho a certeza: terei muito mais cuidado da próxima vez que fizer uma viagem de comboio com início às seis da manhã, para não voltar a adormecer no ombro de um estranho qualquer.