Habemus Papam

Março 12th, 2013

Se há dia em que faz sentido recomendar um filme, é este.

Começa hoje o conclave para a eleição do novo Papa e isso fez-me lembrar um excelente filme de Nanni Moretti que vi há uns tempos, chamado “Habemus Papam”.

É interessante porque mostra toda a dinâmica interna de sucessão do Sumo Pontífice, mas tem um twist verdadeiramente delicioso, que alimenta a história: o eleito acha que não é capaz de exercer o cargo, tem uma crise de pânico e recusa-se a assumi-lo já depois de ter saído fumo branco pela chaminé da Capela Sistina, e quando as portas da varanda que dá para a praça de S. Pedro já estão abertas.

Instala-se o caos  interno e entra-se em estado de emergência dentro de portas, enquanto cá fora a multidão espera, sem saber o que se passa.

É então chamado o melhor psicanalista italiano para tentar convencer o cardeal e assistimos a toda a luta interna desta personagem, brilhantemente interpretada por Michel Piccoli.

Vale a pena vê-lo, principalmente no contexto atual, porque dá uma perspectiva muito interessante ao tema.Habemus-Papam_pics_809

Natal sem burro nem vaca

Dezembro 23rd, 2012

Vocês não vão sentir falta do burro e da vaca no vosso presépio?

Sou do mais seguidista que pode haver em relação ao que o Papa vai dizendo, e portanto apressei-me a escacar o burro e a vaca de porcelana que costumo pôr no meu presépio assim que ele disse que afinal eles não estavam lá na altura do nascimento do Menino.

O pior veio depois.

Aquele sentimento de vazio, de que falta alguma coisa que me acompanhou desde pequenino e o peso na cosnciência, indiciador de que algo de mau houvera feito.

Daí à reflexão sobre esta temática foi um pequeno passo.

Em relação às vacas estou de certa forma tranquilo, porque têm mais funções e estatutos simbólicos que se perpetuam, pelo menos no que à mais velha profissão do mundo diz respeito.

É o burro que me causa espécie, porque toda a gente sabe que não serve para grande coisa a não ser para postais ilustrados do mundo rural e para o presépio.

Ao tirá-lo de lá estamos, portanto, a contribuir para o burrocausto ou burrocídio, como preferirem chamar-lhe, dando o passo que faltava para a sua extinção.

Parece-me mal e pelo que se ouve à boca pequena nos corredores das grandes superfícies comerciais, algo se esconde por trás destas afirmações do Papa.

Segundo estas fontes, foram encontradas na casa de banho do mordomo de  Sua Santidade pedaços de papel higiénico amarfanhados e escritos com tinta de limão, contendo textos que indiciam que o Papa pretende destituir o burro e a vaca porque terá como objetivo de curto prazo, substituí-los no presépio por outra dupla de animais.

Os sucessores do burro e da vaca serão um cão pastor alemão de nome Cardinal e uma ratazana que canta, que à falta de melhor nome, terá ficado conhecida somente pelo nome inglês de Rat Singer.

A perspectiva de Bento XVI é a de que Cardinal e Rat Singer assumam as suas funções imediatamente após o desaparecimento do último burro, que poderá ocorrer já em 2013 se houver eleições antecipadas em Portugal.

Num próximo livro, estará a ser preparada a revelação de que existiu efetivamente um caganer na cena da natividade,  que terá uma imagem semelhante à que aqui apresentamos.

Até lá, resta-nos desejar mais uma vez os parabéns ao Menino – que conte muitos e que nós estejamos aqui para ver – e votos de bom trabalho para o senhor Pai Natal.

Para vós fica também uma palavra especial relativa a esta quadra: bom apetite e muitas no sapatinho.

SPAIN-CAGANER-POPE

A Igreja e a crise

Junho 5th, 2012

Bom dia senhores ouvintes.

Li há pouco que a Igreja anda preocupada com o acentuado decréscimo de esmolas que os seus fiéis gentilmente depositam nos seus cofres.

As estatísticas são, efetivamente, preocupantes e por isso não posso deixar de dar o meu contributo para que a Igreja se reinvente, na indispensável captação de divisas.

Na minha perspetiva, o que a Igreja precisa fazer é estudar o que de bom se faz no marketing das várias áreas de negócio e adaptar essas formas de atuar à sua realidade.

Existem santuários com uma capacidade de atração invulgar no nosso País, como sejam Fátima, Sameiro, Bom Jesus ou Lamego.

Pois bem, porque não aproveitar essa exposição pública para fazer receita, licenciando o naming dos santuários.

Não me parece que as grandes empresas nacionais deixassem escapar a possibilidade de ver o seu nome associado a uma concentração de mais de 300.000 pessoas, um número muito mais expressivo do que qualquer festival de verão.

Santuário “Azeite Gallo” de Fátima é um bom exemplo para ilustrar esta estratégia.

Verifique-se a força de marketing e o valor de mercado que uma estratégia destas poderia gerar para a Igreja, que transforma a receita das esmolas em meras pinguinhas avulsas de água benta.

Se até o Barcelona já cedeu à tentação de deixar que as suas camisolas ostentassem nomes de patrocinadores, a Igreja também deveria estudar essa hipótese.

Será difícil imaginar o poder de comunicação que representaria conseguir inscrever nas costas de uma batina de um padre a palavra “Sogrape”, na altura da consagração do vinho.

A estratégia pingodocesca também pode trazer muito valor à Igreja, fazendo-se campanhas em que quem contribuir com 50 cêntimos ou mais durante o ofertório tem direito ao dobro das hóstias do que os crentes menos contributivos.

Pode-se ainda acumular esta promoção com um cartão de fidelidade, em que à 10ª contribuição acima dos 14 cêntimos de ganha uma hóstia extra.

Por último, mas não menos rentável, a criação de uma coleção de action figures de padres ou religiosas com maior visibilidade como o Papa, a irmã Lúcia, o Padre Borga, a Madre Teresa de Calcutá, o Padre Marcelo Rossi ou o Padre Frederico – o vilão – podia ser uma excelente estratégia de incremento de receitas.

Se os problemas forem só económico-financeiros, como podem ver, não faltam ideias para os resolver.

Quanto à crise de valores… é melhor perguntarem aos senhores da Bolsa.

 

Grau de homossexualidade

Setembro 14th, 2011

Segundo a Associação Portuguesa de Canonistas (APC) – cuidado, não confundir com camionistas -, a declaração de nulidade de um casamento em que um dos cônjugues é homossexual depende do “grau” em que este se encontra.

Ora cá está mais um conceito iluminado do órgãos eclesiásticos, que brilhantemente arranjam uma forma de arrumar a homossexualidade dentro de uma gradação organizada.

Não temais meus irmãos, pois podeis ser só medianamente panisguinhas ou ligeiramente mariquinhas!

Fala-se mesmo de “medicina de correcção” para alguns casos de “grau” mais baixo, numa tirada absolutamente retro-medieval de se lhe tirar o chapéu.

A dúvida está na forma como aferir esse “grau” de homossexualidade.

Sendo um caso médico – como é alegado -, seria de esperar que a APC tivesse acesso a um qualquer aparelho, tipo alcoolímetro, que indicasse cientificamente o teor de homossexualidade no sangue, mas não, o que se sugere é uma perícia psiquiátrica.

Só que isso acaba por ser muito vago e por isso vou deixar aqui algumas sugestões concretas.

Para começar deve-se responder a uma bateria de sessenta questões, divididas por seis temas diferentes: moda, futebol, automóveis, bricolage e construção, arranjos florais, estética e artigos de beleza.

As respostas a estas perguntas revelarão de imediato uma tendência inequívoca, mas insuficiente ainda para a determinação de “grau”.

De seguida os examinados deverão ir para a parte prática desta avaliação, sendo equipados com um capacete detector de estímulos cerebrais e postos perante diferentes cenários reais.

Serão provocados para entrar numa discussão, caminharão numa rua de lojas, visitarão uma sex-shop, assistirão a um jogo de futebol e a um desfile de moda, e ser-lhes-à dada a hipótese de decorarem uma sala, um quarto e de escolherem o seu guarda roupa e penteado para três situações distintas (para uma festa, para estarem confortáveis em casa e para trabalhar).

As suas reacções e resultado das suas acções serão monitorizadas e a partir daí serão obtidos dados científicos para a atribuição de “grau”.

A leitura destes resultados funcionará de forma distinta para homens e mulheres, já que os “sintomas” diferem de género para género.

No final, e de acordo com a escala já avançada pela APC, deverão passar a usar, na parte interior das suas vestes, um pequeno talão em que será indicado o seu “grau”, à imagem da escala de eficiência energética dos electrodomésticos actualmente em vigor.

Cordeiro

Dezembro 13th, 2010

Finalizei este fim-de-semana a leitura de um livro absolutamente fantástico.

Cordeiro- O Evangelho Segundo Biff (o amigo de infância de Jesus Cristo) relata-nos uma história surreal, extremamente bem humorada, desprovida de preconceitos e tabus sobre a vida de Jesus Cristo, com principal incidência na sua infância e juventude, tão pouco documentada.

A história é relatada por Levi bar Alphaeus (também conhecido por Biff), que foi resgatado ao mundo dos mortos pelo anjo Raziel e aprisionado no quarto de um hotel de luxo para escrever este evangelho, onde relata na primeira pessoa tudo aquilo que viveu ao lado do seu amigo de infância Jesua bar José (ou Jesus Cristo), dando a sua perspectiva muito própria de todos os acontecimentos da época.

É um livro delicioso, para se ler de mente aberta, onde Christopher Moore não tenta “achincalhar” a crença de ninguém, mas apenas fornecer um ângulo diferente, preenchendo as lacunas dos relatos sobre a vida de Jesus, com muito humor, personagens soberbas, diálogos mirabolantes e “revelações” surpreendentes.

Leitura obrigatória para quem gosta de boa escrita humorística.