“Alegre” despertar

Agosto 20th, 2012

Uma bela manhã da semana passada acordei ao lado de um homem.

Nada de arrepiar, não fosse o facto de a minha cabeça repousar sobre o seu corpo, sugerindo uma intimidade que eu não estava preparado para aceitar.

Os nossos olhares cruzaram-se na torpidão do despertar, sendo indisfarçável o desconforto mútuo e a pergunta latente, não verbalizada por nenhum dos dois: como é que chegamos a esta situação?

Os seus cabelos grisalhos e as mãos calejadas sugeriam uma educação à moda antiga, onde o contacto entre homens se evita a toda a força.

A timidez com que me olhou, de forma algo paternal, deixou-me com a sensação de que para ele também era a primeira vez.

Confesso que me atrapalhei e fiquei sem reação por uns instantes.

Levantei-me num movimento brusco, limpei a saliva que me escorria da boca e olhei o infinito à procura de respostas.

Como irei explicar à minha mulher e ao meu filho o que acabou de acontecer?

De que forma este acontecimento afetará as nossas vidas?

A que tipo de doenças terei ficado exposto?

Ainda não tenho resposta para tudo, mas de uma coisa tenho a certeza: terei muito mais cuidado da próxima vez que fizer uma viagem de comboio com início às seis da manhã, para não voltar a adormecer no ombro de um estranho qualquer.

Direto ao assunto

Julho 23rd, 2012

Uma das características pessoais que mais aprecio é a objetividade, o pragmatismo, o ser direto.

Valorizo muito as pessoas focadas, as que vão direto ao assunto e não divergem, como aquelas estradas bifurcadas, trifurcadas ou mesmo tetrafurcadas, de terra batida, nas serras, que um tipo nunca sabe onde vão dar.

Um dia perdi-me numa dessas estradas, porque me distraí com uma cegonha que vinha a passar.

Pareceu-me que trazia alguma coisa pendurada no bico, e como vinha a voar baixinho achei que era uma boa oportunidade para verificar se o que trazem no bico são, de facto, bebés ou não.

Não era, como eu supunha, porque não acredito nessas coisas, nem nos OVNI que eu acho que só servem para as pessoas venderem discos que sobraram do tempo do vinil, que agora é um material que já não serve para mais nada a não ser para suporte publicitário, e de má publicidade.

Como a do outdoor que ainda ontem vi numa autoestrada, durante um engarrafamento causado por um cão que saltou a vedação e foi atropelado por um camionista que vinha a tirar macacos do nariz.

Porque é que lhe chama  macacos?

Aquilo é gosma, ou monco, ou muco, ou lá o que é, mas não se parece nada com um macaco, coitado do bicho!

As pessoas têm a mania de inventar denominações e essas coisas, essa é que é essa!

Parecem maluquinhos, blá, blá, blá, a dizer coisas sem sentido, e depois não se percebe nada e ninguém se entende… uma confusão.

Fazem-me lembrar as pessoas que se esquecem do que verdadeiramente importa e não vão diretas ao assunto e enrolam, enrolam, enrolam…

Não gosto nada de pessoas assim.

Comida saudável

Julho 16th, 2012

– Bom dia senhores telespetadores. Em tempo de Verão aumentam os cuidados com a saúde. Por isso temos hoje connosco no programa o Dr. Elói, que nos vem falar de bons hábitos alimentares. Bom dia Dr. Elói!

– Bom dia Ginginha!

– Hoje vem falar-nos de comida saudável, não é?

– É verdade. Muita gente fala de comida saudável e pouca gente acerta naquilo que diz.

– Como assim?

– Eu explico. As pessoas que hoje se apresentam como nutricionistas ou dietistas, estão muita vezes enganados quanto ao próprio conceito de comida saudável. Comida saudável, como o próprio nome indica, é a comida que pode ser saudada ou que dá vontade de saudar.

– Ora aí está uma abordagem diferente, Dr. Elói.

– Diferente e acertada! Veja bem Ginginha, quando entra numa sala e vê pessoas mirradinhas, secas ou azedas, apetece-lhe saudá-las?

– Não.

– Isso é algo que lhe faça bem? Que a ponha bem disposta? Essas pessoas fazem-na sentir melhor? Contribuem para o seu bem estar?

– Não, de facto não.

– Pois com a comida é a mesma coisa. Se vê uma pêra mirrada, um pão seco ou um leite azedo não vai sentir vontade de os cumprimentar. Como consequência, não vai criar a devida empatia com esses alimentos e portanto eles não lhe vão fazer bem. Pelo contrário, se vir uma alface viçosa, uma maçã rijinha ou um doce croissant vai sentir naturalmente vontade de os cumprimentar com um sorriso aberto e consegue assim uma relação com os alimentos, que fará com que estes a tratem muito melhor.

– Portanto, o que no está a querer dizer é que devemos saudar a comida com bom aspeto e criar com ela uma relação positiva, para que essa comida nos faça bem, é isso?

– Exatamente. São esses os benefícios da comida saudável. Melhor ainda, não tem que andar preocupada com quantas calorias determinado alimento tem. Se tiver bom aspeto e lhe der vontade de a saudar, ela vai-lhe fazer bem de certeza.

– Mesmo os doces e o álcool?

– Claro que sim! Experimente abrir um boião com doces apetitosos e dizer de forma enérgica “Bom dia caramelo!”. Vai ver que esse caramelo vai ficar tão contente por ser saudado dessa forma, que se sentirá na obrigação de contribuir para o seu bem estar. “Olá senhor bagaço!” ou “Ora viva meu amigo suspiro recheado com doce de ovos e pepitas de chocolate!” são outros exemplos de uma abordagem saudável à comida.

– Então quer dizer que, a partir de uma saudação da comida, estabelece-se uma relação com óbvias vantagens para a saúde dos humanos, é isso?

– Exatamente.

– E como sabemos se estamos perante comida saudável?

– Pelo aspeto percebe logo, acredite. Não se pode é guiar por alguns preconceitos que se têm vindo a instituir relativamente a alguns alimentos que, apesar do inegável bom aspeto, as pessoas teimam em ostracizar.

– Isso que dizer que se me deparar com um simpático cozido à portuguesa ou uma jovial terrina de gomas não devo resistir, mas sim saudá-los alegremente?

– Sim, à partida esses exemplos enquadram-se naquilo que eu considero ser comida saudável, seguramente.

– Fantástico. Dr. Elói. Muito obrigado pela sua ajuda. Bom dia para si.

– Um excelente dia para si Ginjinha!

Orgulho no desporto nacional

Julho 2nd, 2012

Portugal acorda hoje orgulhoso.

Foi um fim de semana em cheio para o desporto nacional e isso sente-se a cada esquina, na face das pessoas, e nas redes sociais, com as inúmeras mensagens de orgulho dirigidas aos nossos representantes, que se destacaram ao mais alto nível do desporto europeu.

Julgo até haver algum exagero na importância dada a estes feitos, a julgar pelas capas dos três maiores jornais desportivos nacionais, mas já não embandeirávamos em arco há quase uma semana e portanto compreende-se todo o destaque que se tem dado.

Segundo consta, preparam-se receções memoráveis para três portugueses que elevaram bem alto o nome de Portugal nos últimos três dias.

Pedro Proença será recebido por uma mitra jeitosa, devidamente encapuçada, que o levará até ao centro comercial Colombo, onde reviverá os momentos lá passados no início desta época, que terão sido decisivos para lhe endireitar o globo ocular esquerdo, corrigir o desvio nasal de que padecia e acertar-lhe o passo, ajudando-o assim a tornar-se no melhor árbitro europeu da atualidade.

Patrícia Mamona também será recebida com pompa e circunstância, pelos seus familiares e amigos, estando já a ser recolhidos em livro uma série de trocadilhos e piadas várias acerca do seu nome, que lhe será entregue por uma ardina brasileira do jornal Metro, assim que ela pare no semáforo à saída do aeroporto.

Para não variar, Dulce Félix também será recebida com honras de tranquilidade, por um grupo pequeno de pessoas que a conhecem desde menina e por um ou dois atrevidos colegas de equipa, que lhe abrirão caminho pela multidão indiferente até ao táxi mais próximo, onde terá que esperar como os outros.

O Presidente da República terá enviado uma SMS de felicitações para dois deles com o seguinte texto “Prb. Obg. Ab. Ass: PR”, mas entretanto ficou sem saldo para enviar para o terceiro.

Pediu no entanto ao Primeiro-ministro, se não se importasse, para assinar pelos dois quando enviasse a mensagem dele.

Disse também à comunicação social que até os receberia de bom grado, mas ficou sem arroz na despensa porque está à espera da próxima baixa de preço no Pingo Doce para enviar a sua comitiva de aprovisionamento presidencial.

Se não tiver oportunidade de os receber entretanto, pelo menos no próximo jantar de despedida da seleção nacional de futebol sub-12, que nos vai representar no Torneio Internacional de Badajoz, haverá possibilidade de os integrar, já que os miúdos comem menos dos que os séniores e portanto não haverá problema em mandar fazer mais três bicos de pato com queijo e fiambre e comprar mais três sumos de tutti-fruti.

Michelin fashion

Junho 21st, 2012

Acho piada às pessoas que se enchouriçam!

Pessoas que se inspiram no Bibendum quando compram roupa nova ou quando vão sacar um trapinho bonito ao armário.

Não sei se se tratará de um estado de negação ou se acham que enchouriçadas ficam mais apetitosas, mas eu não consigo compreender o que leva alguém a vestir roupa três tamanhos abaixo do ideal… para os filhos.

Haverá algo mais perturbador do que ver uma imensa massa corporal a esticar umas calças de ganga ou de lycra a um ponto em que se consegue ver as moléculas a ficar vermelhas e a gritar “vou estourar!… vou estourar!”?

São estas pessoas que depois originam a escassez de números normais nos saldos, sobrando os XXL e outros tamanhos adequados para pessoas de avultada xixez.

Se fosse visivelmente confortável, tudo bem.

Só o aspeto não pode causar grandes danos.

Mas o que vemos é aquelas pessoas de corpo integralmente espartilhado, a andar tipo zombies, com as pernas e os braços hirtos, tolhidos de movimentos e evitando tudo o que sejam bancos, sofás ou cadeiras, não vá o diabo rompê-las!

Ninguém deve ter vergonha do corpo que tem.

Nem todos podemos ser Adónis ou Afrodites.

Podemos é tratar a nossa persona com respeito e não fazer do nosso corpo uma máquina de testes de resistência têxtil, nem uma bomba de retalhos em potência.

Até porque tudo tem um limite, e neste caso o limite é quando verificamos que a única forma de introduzir algo entre um corpo e a roupa que o envolve é recorrendo à nanotecnologia.

Eu não sei como é com vocês, mas eu fico sempre com medo quando vejo alguém vestido assim.

Sinto-me como um participante daquele tipo de jogo em que o balão passa de pessoa para pessoa e pode explodir a qualquer momento.

Fico nervoso.

Nunca se sabe quando vamos ser vítimas de um overstretching e ficar com um estilhaço de corsário entalado na fossa nasal.