Surrealismo noturno

Fevereiro 6th, 2014

O nosso cérebro tem um modo de funcionamento absolutamente excecional, que nos permite ser moderadamente racionais quando estamos conscientes, mas que permite uma autêntica revolução surrealista quado estamos a dormir.

Esse verdadeira jabardice cerebral que acontece durante o nosso sono, reflete-se nos mais originais sonhos, sendo que, infelizmente, não nos conseguimos lembrar da maioria deles.

Acontece que, quando alguém é obrigado a acordar temporariamente a meio da noite – para dar leite ou mudar a fralda a um bebé, por exemplo -, tem o inefável privilégio de irromper por esse chavascal sináptico dentro, assistindo em lugar privilegiado ao desenrolar desta surreal rambóia neuronal.

Não sei se já vos aconteceu, mas eu já dei por mim semi-acordado – ou meio a dormir, para ser mais exato – a observar a passagem pelo meu crâneo de pensamentos do género “vou ali agitar a bigorna rosa que lambeu o insuflável”, ou “verta-me aí uns narizes na porta de uma aldeia velha com gelo”, ou ainda “desviei-me de uma estrela cadente debaixo do guarda-chuva dos pinheirinhos”.

A maior parte das vezes tento voltar a estes pensamentos quando acordo, na tentativa de lhes fazer uma biópsia que revele algum sentido naquela junção de conceitos avulsos, mas já cheguei à conclusão que não vale a pena.

Estes vampiros da estupidez, além de dados ao regabofe, são camaleónicos, e conhecem os melhores esconderijos dentro da minha favela mental, o que os torna mais indetectáveis do que um piolho terrorista nas montanhas do Afeganistão.

Mas fica prometido que, se um dia conseguir apanhar algum em estado de conservação aceitável,  o venho aqui partilhar convosco, pode ser?

Pensando melhor, talvez haja melhores caminhos.

Vou encaixilhá-lo e depois vou-o enviar para a Christie’s para que o leiloem, porque pelos vistos isso é que dá muito dinheiro.

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O homem mais praxado de Portugal

Janeiro 30th, 2014

A propósito do triste episódio de um professor praxado na Universidade do Minho, achamos oportuno entrevistar o cidadão mais conhecedor de praxes em Portugal.

José Carlos Loiro – ou Zeca Loiro, como também é conhecido – é uma figura incontornável quando se fala de praxes, pois é ele próprio quem se intitula “o homem mais praxado de Portugal”.

Fomos falar com ele.

Ninho de Pássaro (NP) – Bom dia José Carlos. Afirma-se como o homem mais praxado de Portugal. Tem ideia de quantas vezes foi praxado?

Zeca Loiro (ZL) – Bom dia. Pelas minhas contas fui praxado para cima de 1472 vezes.

NP – 1473?

ZC – Talvez. Ou mais. Não sei bem.

NP – Lembra-se da primeira vez que foi praxado?

ZL – Claro que sim. Lembro-me como se fosse hoje. Eu vinha a passar em frente a uma mercearia e vi um senhor a praxar a logista, perguntando-lhe “sabes o que é um bagalho?”. Ao ouvir isto adverti o senhor que o que estava a fazer não tinha graça e não era permitido na mercearia. Foi aí que passei eu a ser o objeto da praxe questionando-me agora a mim o senhor se sabia o que era o que descrevi acima. Fiquei estupefacto com a situação e dirigi-me a ele perguntando-lhe se tinha confiança comigo para me falar daquele modo. Ao aproximar-me fui abordado fisicamente por um sem abrigo anão que estava à porta, que me agarrou (imagino que a pensar se iria agredir o senhor, coisa que obviamente não era minha intenção). Enquanto estava manietado, a pergunta referida foi-me endereçada mais algumas vezes.

NP – Que horror!

ZL – Um verdadeiro horror, digo-lho eu!

NP – Houve mais episódios de praxe violenta que se consiga lembrar?

ZL – Infelizmente sim, porque as pessoas parece que embirram comigo, sabe? Certo dia, cheguei a uma retrosaria de manhazinha e vi uma velhota a praxar um miúdo, perguntando-lhe “sabes o que é um nagalho?”. Ao ouvir isto adverti  a velhota que o que estava a fazer não era rizível e não era permitido na retrosaria. Foi aí que passei eu a ser o objeto da praxe questionando-me agora a mim a velhota se sabia o que era o que descrevi acima. Fiquei boquiaberto com a situação e dirigi-me a ela perguntando-lhe se já não tinha idade para ter juízo, para me falar daquela forma. Ao aproximar-me fui abordado fisicamente por uma senhora maneta em cadeira de rodas, que me deitou a luva (imagino que a pensar se iria dar um sopapo à velhota, coisa que logicamente nunca faria). Enquanto estava subjugado, a pergunta referida foi-me mais algumas vezes feita.

NP – Que barbaridade!

ZL – Uma verdadeira barbaridade, é o que lhe digo!

NP – Eu sei que deve ser duro para si, mas importa-se de partilhar mais um episódio de praxe abjeta?

ZL – Claro que sim. Tenho que partilhar, que é para chamar a atenção para este assunto. Conto-lhe o último, que ainda me põe a tremer. A semana passada, estava numa quinta e vi um agricultor a praxar uma vaca, perguntando-lhe “sabes o que é um cangalho?”. Ao ouvir isto adverti o agricultor que o que estava a fazer não tinha piada e não era permitido na quinta. Foi aí que passei eu a ser o objeto da praxe questionando-me agora a mim o agricultor se sabia o que era o que descrevi acima. Fiquei atónito com a situação e dirigi-me a ele perguntando-lhe se tinha andado com ele na escola, para me falar daquela maneira. Ao aproximar-me fui abordado fisicamente por uma ovelha, que me agarrou (imagino que a pensar se iria dar uns patarrões na boca do agricultor, coisa que jamais passou pela minha cabeça). Enquanto estava dominado, a pergunta referida foi-me dirigida mais algumas vezes.

NP – Uma barbárie!

ZL – Uma verdadeira barbárie, estou-lhe a dizer!

NP – Vá lá que no meio disso tudo não lhe fizeram como ao professor da Universidade do Minho, que lhe perguntaram se sabia “o que é o caralho?”.

ZL – Oh! Esse é um mariquinhas. Toda a gente sabe que caralho é a palavra com que se denominava a pequena cesta que se encontrava no alto dos mastros das caravelas, de onde os vigias prescrutavam o horizonte em busca de sinais de terra. Não percebo a indignação!

NP – Uma última pergunta: sabe o que é “chiribi ta ta ta ta”?

ZL – Também vocês, caramba? Vocês envergonham a vossa profissão! Isto é um ultraje! Devo advertir-vos que isso não é engraçado e que não é permitido aqui nesta estrumeira.

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Champignons League

Janeiro 16th, 2014

Regista-se neste momento, em Portugal uma verdadeira explosão da cultura do cogumelo.

Por todo o lado do território nacional surgem novos produtores, reforçando a ideia de que este é um negócio com potencial, onde Portugal tem todas as condições para se destacar.

Parece então ser esta uma oportunidade única de brilharmos ao mais alto nível, e por isso mesmo deveríamos fazer pressão junto da comunidade internacional para que seja criado um campeonato em torno da produção de cogumelos, onde pudéssemos espraiar toda a nossa categoria.

Já que é raro ganharmos alguma coisa internacionalmente no desporto de eleição lusitano, o futebol (salvo honrosas exceções que nos devem orgulhar a todos), que haja uma Champignons League onde possamos ser campeões com bastante regularidade.

O primeiro passo é fazer pressão para a criação da UECA (Union of European Champignon Associations), onde registaremos a nossa Federação Portuguesa de Champignons, dando acesso aos nossos produtores à tão desejada competição.

Depois é deixar as coisas acontecerem com naturalidade e ver os nossos míscaros e tortulhos em competição direta com a restante cogumelagem europeia, até à vitória final.

A glória derradeira está reservada para a conquista do título mundial que deverá ocorrer numa competição organizada pela FICA (Fédération Internationale de Champignons Association), mas vamos pensando numa coisa de cada vez, para não nos deslumbrarmos.

Mal posso esperar para ver um dos nossos compatriotas, o nosso futuro Cristiano Ronaldo dos cogumelos, a erguer bem alto este belo troféu.

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Composição: “O Natal”

Dezembro 12th, 2013

Eu gosto muito do Natal.

O Natal é em Dezembro e está muito frio.

Lá em casa decoramos o pinheirinho de Natal, montamos o presépio e pomos luzes na varanda.

Todos lá em casa acham que há sempre doces muito bons e ninguém desconfia que eu tiro macaquinhos do nariz para colar no bolo rei.

A minha prima vive em Espanha e traz gomas e rebuçados, mas espero que este ano não traga uns como os que lhe tirei da carteira no ano passado, que se desenrolavam, sabiam a borracha e eram difíceis de engolir.

O senhor padre traz um garrafão de vinho de missa e dá-me sempre uma hóstia grande para eu fazer um desenho nela antes de a comer.

O meu pai é muito engraçado no Natal, porque começa a enrolar a língua depois do jantar e no fim da noite ninguém percebe o que ele diz.

Rimo-nos muito e depois ele adormece sempre em frente à lareira e eu apanho a baba dele para pintar as rabanadas.

Toda a gente é feliz e se dá bem, tirando a empregada do meu vizinho, porque ele costuma levá-la para a garagem e dá-lhe uns beijinhos esquisitos e ela grita muito, agarrada à cabeça dele, coitadinha.

Há dois anos conheci o Pai Natal verdadeiro e não gostei nada, porque tinha muita lama nos sapatos e cheirava a cocó.

Estava muito feio porque veio só com o gorro, de fato de treino lilás e a barba estava amarela e a cair.

Fiquei muito triste porque ele não me deu prendas e quis bater no meu irmão mais velho, porque disse que ele lhe tinha comido a irmã.

O meu irmão é vegetariano e vomita se comer carne, por isso eu sei que não é verdade.

O meu irmão bateu-lhe com a porta do carro na cabeça até ele fazer ó-ó, arrastou-o para o rio à beira de nossa casa e nunca mais o vimos.

Agora quem trás as prendas é o Menino Jesus, mas ainda nunca o vi.

Como ele é uma criança como eu, as prendas têm sido mais pequeninas, para não ser muito pesado, disse-me a minha mãe.

O ano passado trouxe-me um saco pequenino da farmácia, cheio de folhas secas, castanhas e amarelas, para eu fazer uma árvorezinha bonsai.

Cá em casa cantamos muitas músicas de Natal, principalmente do “Duo Ele e Ela” e do “Nel Monteiro”, que a minha avó diz que são os melhores artistas do mundo.

Até já me prometeu que qualquer dia me deixa fazer uma tatuagem com a cara do Nel, se me portar bem na escola e deixar de roubar daquelas bolinhas presas por um fio e algemas da bolsa da professora.

É a única noite do ano em que a minha avó deixa que usemos a placa dos dentes dela para fazer de castanholas.

É mesmo muito divertido!

Se eu fosse grande, fazia com que houvesse Natal mais vezes, pelo menos ao domingo, depois do “Portugal em Festa”.

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Filozefia

Novembro 25th, 2013

A filosofia, mãe da ciência moderna, alimenta discussões e origina pensamentos inspiradores há milhares de anos.

Desde os primórdios dos pensadores gregos até aos mais contemporâneos filósofos alemães, sempre se filosofou muito na Velha Europa.

Com o decorrer dos tempos, várias foram as áreas que derivaram da filosofia e inúmeras as linhas de pensamento registadas.

Ainda assim, há pouca documentação sobre algumas correntes de pensamento bem enraizadas em determinados povos, como é o caso da Filozefia, em Portugal.

A Filozefia, é uma derivação da filosofia clássica, por influência do Zé Povinho, sujeito maior do pensamento analítico lusitano.

Esta corrente de pensamento, apesar de variada no conteúdo, tem uma coerência formal digna de registo, pois segue sempre a mesma estrutura de pensamento.

Qualquer pensamento filozéfico abre a discussão com uma observação sagaz sobre um facto, um comentário sobre uma ocorrência mundana alegadamente problemática ou com uma pergunta inquietante.

O raciocínio continua, salientando, ou lamentando, invariavelmente que tal situação só seja possível de verificar em solo luso.

Finda a fase de contextualização, o filózefo sugere finalmente uma solução para o tema registado na primeira análise, de forma contundente.

Tudo isto num tom bastante apaixonado, eivado de substancial ira e indignação, como é apanágio dos filózefos.

Vejamos alguns exemplos de filozefia:

“Há muitos interesses nos incêndios, e enquanto não houver penalizações a sério vão continuar a existir em força. É o país que temos! Por mim, todos os suspeitos eram interrogados dentro de um panelão ao lume, com um caldo de álcool, cebola e pimenta, para lhes arder muito, chorarem baba e ranho e espirrarem tudo cá para fora! “

“Um psiquiatra violou uma paciente grávida, no consultório, e foi considerado inocente pelo tribunal. Isto só mesmo neste paíszinho! Deviam era debruar-lhe os tomates com arame farpado e encher-lhe a uretra de limalha, para aprender!”

“Os nosso politiqueiros mentem todos com quantos dentes têm e ninguém é preso? Só aqui em Portugal! Havia de haver quem lhes arrancasse os dentes, um a um, às fatias fininhas, com uma plaina, até ficarem só com gengivas, e ainda lhes esfregasse com um ouriço cacheiro nas amígdalas! “

Talvez já tenham assistido a algumas conversas filozéficas sem saber exatamente como as classificar.

Pois bem, agora já se sentirão muito mais confortáveis no sofá da vossa cultura geral.

Se quiserem partilhar connosco alguns pensamentos filozéficos, vossos ou de outros filózefos, por favor estejam à vontade.

Será sempre bom acrescentar mais uma pérola ao nosso belo colar do conhecimento.

Zé Povinho Mood´ys