Burocracia sexual

Março 11th, 2011

Há mais de dois anos escrevi aqui sobre uma profissão que acredito dever ser criada na administração pública, os Técnicos Oficiais de Sexo (TOS).

É uma ideia que nunca me abandonou o pensamento até que dei por mim a pensar como a máquina burocrática poderia dar cabo da vontade do cidadão em usufruir de tão necessário serviço público.

Vejamos um exemplo:

Cidadão (C): Boa tarde, é aqui que se faz a requisição de uma TOS?

Burocrata 1 (B1): Para que uso: único ou regular?

C: Se pudesse ser regular agradecia.

B1: Qual é a sua idade?

C: 46 anos.

B1: O senhor já consultou o seu médico?

C: Sim, até foi ele que me aconselhou a vir cá.

B1: Tem a guia consigo?

C: Tenho sim senhor, está aqui.

B1: Pois… mas aqui diz que o senhor só vai ter direito a uma utilização esporádica, porque é casado e não tem patologias de necessidade permanente.

C: Mas dou-me muito mal com a minha mulher e ela só faz missionário. E sempre a ver televisão. E no dia dos meus anos, se eu não estiver muito bêbado. E se os meus pais não tiverem ido lá a casa visitar-me nem me tenham telefonado.

B1: Isso é um problema que não podemos resolver amigo. Quanto mede?

C: 1,76m.

B1: E de pénis?

C: 12 cm.

B1: Então vai ter que ir ali ao meu colega, porque aqui só posso receber formulários de homens com mais de 1,80m ou com mais de 15cm de pénis.

C: Ok, obrigado.

Desloca-se até à caixa do Burocrata 2 (B2), onde se passa o mesmo diálogo ipsis verbis, até este ponto.

Aconselha-se portanto a re-leitura do texto acima, só para ter a certeza de que se percebe tudo e para não falhar nenhuma informação.

B2: Já esteve com alguma TOS antes?

C: Não, é a primeira vez.

B2: Então tem que ir ao 2º andar e falar com o meu colega que está no segundo corredor à direita, que é o responsável pelos processos de iniciação.

Corridinha rápida até ao Burocrata 3 (B3), novamente com o mesmo diálogo que, relembro, deverá ser lido novamente.

B3: Então está todo ansioso, ãh? (riso de burgesso)

C: Estou muito nervoso, eu até nem queria muito cá vir, mas o médico diz que me vai fazer bem.

B3. Vai sim senhor, digo-lhe eu! (novo riso burgesso). E então ainda é virgem com essa idade?

C: Não, até tenho dois filhos.

B3: Oh homem, então tem que ir a outro lado que aqui só trato de quem quer perder os três, pá! Veja lá isso com o meu colega aqui do gabinete ao lado.

Aí o senhor desloca-se para o gabinete ao lado, os do Burucrata 4 (B4), para dar andamento ao processo.

As perguntas começam todas novamente.

Será melhor talvez ler novamente o que ficou para cima, não vá ter-se esquecido de algum pormenor.

B4: E então vai ser uma loirinha não é?

C: Se pudesse escolher preferia a sôdona Soraia Chaves, se não se importa.

B4. Eh pá! Então se é com a Soraia não é aqui, que eu só posso tratar de processos de TOS loiras, caramba. Siga por favor neste corredor e bata na última porta que está lá o meu colega que trata das morenas.

E lá vai mais uma caminhada até ao Burocrata 5 (B5).

Não se esqueça de reler os diálogos acima, cujas perguntas voltaram a ser feitas nesta fase para depois poder prosseguir com a candidatura.

É sempre uma mais valia para o leitor ter tudo fresquinho na memória.

B5: Tem consigo o boletim de vacinas actualizado?

C: Sim.

B5: O teste de HIV?

C: Sim.

B5: O teste da Hepatite B?

C: Sim.

B5: Comprovativos de isenção se gonorreia, sífilis, herpes genital e chatos no pénis?

C: Sim.

B5: Atestado de ausência de sintomas de disfunção eréctil e/ou inaptidão sexual?

C: Sim.

B5: Declaração de não dívida à Segurança Social, Cartão de Cidadão actualizado, atestado de residência, formulários SEX70, TOS69 e BI6 preenchidos?

C: Sim.

B5: Desenhos manuais coloridos a quatro cores, em papel cavalinho 25gr, das posições que  se propõe a concretizar no acto, até um máximo de três posições?

C: Sim.

B5: Trouxe consigo o preservativo que vai usar?

C: Não. Não sabia que tinha que o mostrar.

B5: Pois, isso é considerado equipamento técnico que tem que ser verificado à priori. Só podemos dar seguimento ao processo depois de efectuada essa vistoria.

C: Mas eu posso ir num instante buscar isso à farmácia e volto já, pode ser?

B5: Agora não pode ser, porque fechamos daqui a 30 minutos e já não aceitamos mais ninguém hoje, Depois mete-se o fim-de-semana, que é prolongado por causa do feriado da próxima semana e portanto só na quarta-feira é que pode cá vir novamente.

C: E depois de trazer isso, é rápido?

B5: Depois de verificadas as condições de segurança do dispositivo a utilizar no seu pénis, tem que fazer um teste  no centro de inspecções que certifique que está apto para cumprir os procedimentos mecânicos de uma relação sexual eficaz e apresentar um documento que comprove não haver risco de aproximação sentimental à TOS. Depois vamos apreciar o seu processo e daqui a aproximadamente um ano damos resposta à sua candidatura.

C: E se entretanto a minha frustração sexual me causar algum tipo de distúrbio mental ou mesmo uma inflamação excessiva da zona testicular?

B5: Aí terá que ver como resolve isso por si ou ver se tem alguma amiga no ministério, porque as candidaturas são muitas e as TOS andam com demasiado trabalho.

C: E se optasse por um dos técnicos em vez de uma técnica?

B5: Aí os procedimentos são outros, mais complexos, e devo-lhe dizer que eles andam agora muito na moda e as requisições têm entrado aos milhares, portanto não vai ser mais rápido.

C: Então o melhor é…

B5: Mão.

C: E não há hipótese de…

B5: Mão.

C: Nem se eu tentar…

B5: Mão, meu amigo.

C: Pois é. É melhor é. Ok, muito obrigado.

B5: Não tem de quê.

Profissão: Nativo

Março 3rd, 2011

Há pessoas neste Mundo cuja profissão é simplesmente ser nativo.

A sua missão é ficar parados o dia todo junto da sua casa típica, envergando um traje tradicional e cumprimentando em dialecto local os turistas, que procuram desesperadamente uma foto-troféu com o indivíduo, exibindo-as posteriormente como se tivessem pescado um espadarte de sete metros na rebentação das ondas provenientes do mar alto.

Os rendimentos dos nativos vêem da contribuição dos turistas que museificam estas pessoas no seu habitat natural, remunerando-os por se manterem “originais” – ainda que os artesanato local que vendem seja fabricado na China, a comida que oferecem comprada numa grande superfície ou os seus trajes obtidos numa loja de disfarces de Carnaval.

A fuga do seu padrão de comportamento expectável será tão surpreendente como um peixe decidir fumar um charro dentro de um aquário, fazendo bolinhas com a boca e dissertando sobre a filosofia de Nietzsche, e por isso não se recomenda.

Esta é a razão porque a ASAE nunca conseguiu vingar na internacionalização, porque se a ASAE se internacionalizasse os índios deixariam de poder fumar o cachimbo da paz, os asiáticos deixavam de vender insectos fritos na rua e os cubanos não mais enrolariam os charutos em cima das coxas de mulatas.O nativo de sucesso é, porém, aquele que não se limita a estar, mas que é pró-activo e criador de pontos de interesse turístico, por exemplo transformando uma simples rocha com uma forma curiosa num bisonte que aí sofreu um desgosto de amor e que enfurecido saltou do penhasco para se suicidar, sendo salvo pela intervenção de um deus local do amor que o rochificou antes que chegasse ao mar.

A natividade (não confundir com o nascimento de Cristo), ou nativismo, encontra maior expressão usualmente nos países economicamente menos desenvolvidos ou em crise, sendo por isso uma profissão de futuro no nosso burgo.

Por isso acho que deveria ser uma prioridade do POPH, cujos responsáveis têm que abrir os olhos para esta realidade e apostar na formação e qualificação de cada vez mais nativos lusos como reforço da oferta turística nacional.

Podem contar com a minha modesta contribuição, já que planeio no futuro deixar crescer o buço às minhas filhas e vestilas de saias pretas, com o devido lenço negro e cesto de vime à cabeça, enquanto os meus filhos usarão desde novos um bigode empatilhado, um garruço, palito na boca e uma sachola.

Vou pô-los a viver num palheiro junto da corte das vacas, para que não lhes falte nada e sejam nativos de sucesso e reconhecidos mundialmente.

Trabalho absorvente

Março 1st, 2011

Os bebés deviam usar trabalho em vez de fraldas, porque o trabalho é uma coisa extremamente absorvente, e ainda por cima parece que está cada vez mais barato.

O outro

Fevereiro 17th, 2011

Admiro o outro e gostava de o conhecer.

Quando digo o outro não me refiro a uma qualquer figura que representa o amante de alguém, não.

O outro a que me refiro é aquela pessoa extraordinária, sempre com algo sensato e espirituoso para dizer, que anda na boca de grande parte dos portugueses.

Mais citado que poetas, futebolistas, comediantes, políticos ou líderes religiosos, o outro inspira grande parte da população portuguesa, que bastas vezes para fazer uma intervenção pertinente recorre ao que já por esse guru foi dito.

“É como diz o outro: …”

Admirável a forma como mesmo este intróito já soa bem, anunciando o quão apropositada será a frase seguinte.

A figura abstracta na qual se escuda o outro adensa o mistério sobre este mestre da fraseologia e aumenta em mim o fascínio pela sua personagem.

Adorava conhecer o outro.

Aliás, numa limpeza profunda ao meu âmago é capaz de se encontrar um cotãozinho de esperança em tornar-me um dia, eu mesmo, no próprio outro.

Flatulência criminalizada

Fevereiro 10th, 2011

Eu não sei qual a taxa de incidência do flato no Malaui – apesar de ser um dado importante,  que não escapará a qualquer cidadão de cultura média – mas o que é certo é que essa é uma questão que preocupa as autoridades locais.

Ao que se lê na imprensa, a flatulência pública neste estado africano é de tal forma preocupante que o Ministro da Justiça deste país a pretende criminalizar.

E ainda nós nos queixamos que os nossos políticos se preocupam com questiúnculas de m€%&a!

Numa observação antropológica pertinente, o Ministro da Justiça afirma que os Malauis não se “largavam” publicamente nos tempos da ditadura porque temiam as consequências deste acto, mas que a democracia partidária fez com que as pessoas pensassem que já teriam liberdade de expressão rectal.

Com os gases acumulados em 27 anos de ditadura é natural que ainda haja muito metano para sair das entranhas dos Malauis nos próximos anos, e a questão torna-se assim explosiva.

Tenho muitos amigos que desconfio que não passariam das escadas de acesso ao aeroporto de Lilongwe, principalmente depois de uma noite de copos, e outros que regozijariam com a entrada em vigor de uma lei semelhante em Portugal, principalmente em espaços fechados, mas a meu ver deve haver bom senso nesta questão.

Os Malauis têm direito a expelir a sua gaseificação, até porque senão incham de uma forma que poderão começar a ser confundidos com elefantes-bebé, e por isso proponho a criação de “salas de bufo”, semelhantes aos espaços criados para os fumadores nos aeroportos, onde só entra quem quer e onde se evita o incómodo do cheiro para o comum transeunte.

Outra solução – e uma excelente oportunidade de negócio para o sr. Amorim – é o enrolhamento obrigatório dos Malauis na via pública, sendo apenas permitida a remoção da rolha em casas de banho estanques, com sistemas de purificação do ar integrados.

A massificação dos saca-rolhas poderia, no entanto, fornecer um álibi a alguns criminosos que utilizem este utensílio para fins menos próprios, e isso deve ser tomado em consideração na avaliação das propostas.

Outra medida a ser implementada pelas autoridades, depois da entrada em vigor desta lei, é a instalação de detectores de bombinhas de cheiro e travesseiras de pus nos locais públicos, para que ninguém tente incriminar niguém.

Além disso deverão desenvolver reconhecedores electrónicos de traques, que permitam  identificar se o som é de facto originário do traseiro do acusado ou se é emitido pelo sovaco de alguém que o deseje enviar injustamente para a cárcere.