O andador salvador

Julho 8th, 2011

Numa breve passagem por uma praia da nossa costa deparei-me com vários papéis colados nos acessos à mesma, onde constava a singela frase, inscrita a negrito sobre papel branco, “Só Jesus salva!”.

Pensei inicialmente que se tratava de mais uma iniciativa evangélica, aproveitando o aumento do fluxo de pessoas para as praias, normal na época balnear, para difundir a sua mensagem de fé.

Só depois se fez luz e percebi que aquilo se tratava na verdade de um aviso muito mais sério do que à primeira vista aparenta, e a localização dos cartazes ganha assim uma pertinência que já perceberão.

Estes cartazes têm certamente a ver com mais um caso de “lobo em pele de cordeiro” e alertam-nos para o facto de o demónio estar a prestar um serviço aparentemente útil com segundas intenções, imiscuindo-se assim num trabalho que só a Jesus compete.

Refiro-me obviamente à função do nadador salvador.

Vejam bem ao ponto a que chega Belzebú, e quão retorcido é o seu pensamento!

Distribui pelos vastos areais uma série de jovens em boa forma física, tonificados, fazendo explodir as fantasias e a líbido da população adolescente, dando-lhes simultaneamente uma aparência de valorosos heróis que nadam para salvar as almas daqueles que têm o infortúnio de se deparar com um possível afogamento, granjeando assim o apoio geral da população e tornando-os aceitáveis – diria mesmo indispensáveis – até para a mais fiel das beatas.

Ora isto tem um efeito muito pernicioso, porque o comum mortal tem dificuldade em se aperceber da perversidade desta cartada decisiva na grande batalha da fé, que os leva a crer que mais alguns terão o “poder” de salvar as pessoas, diminuindo assim a crença em Jesus e o regular recurso aos seus préstimos.

Estes cartazes são pertinentes porque nos trazem à memória que só Jesus pode efectivamente salvar essas pessoas.

E nem precisa para isso de nadar, porque é sabido que lhe basta caminhar sobre as águas para proceder à salvação das suas  demolhadas ovelhas, sendo portanto muito mais eficiente e cansando-se muito menos.

O mais impressionante disto tudo é a subtileza com que Lúcifer trabalha, senão reparem bem: a expressão encontrada para definir a função destes jovens – o “nadador salvador” – advém da troca simples das duas primeiras letras da expressão que poderia definir Jesus quando este faz alguma intervenção no meio aquático – o “andador salvador”.

Subliminar mas de uma força a toda a prova esta camuflagem linguística, que prova que no que toca ao surripianço de almas tudo vale lá para os lados dos infernos.

Tenham pois muito cuidado quando estiverem na praia, desconfiem dos nadadores salvadores e façam as vossas orações antes de entrar na água, para que possam usufruir da linha directa para o verdadeiro socorro (0800 – JESUS), que está directamente ligada à central divina.

T-shirts marcadas

Junho 29th, 2011

É um desafio titânico tentar comprar uma t-shirt original e de boa qualidade nas lojas de marcas conhecidas, nos centros comerciais.

Isto porque aparentemente saíram de linha os modelos em que o tecido não tenha sido invadido por letras com o nome da marca em tamanho gigante, para que não passe despercebido ao mais distraído dos transeuntes.

Qual é o interesse de comprar uma peça de roupa que tenha inscrita em letras garrafais a marca que estamos a usar?

Parece que todas as marcas se lembraram de transformar os seus clientes em outdoors ambulantes, tal como se fazia antigamente com aqueles painéis sanduíche que se punham em cima das pessoas, que depois andavam na rua a espalhar a mensagem desejada.

Acho piada que há quem ache parolo andar com uma t-shirt de um clube de futebol, mas não se importa nada de ter uma marca de roupa a ocupar toda a parte da frente de uma t-shirt!

Diz que é fashion, ao que parece.

Não consigo perceber porque é que se está a pagar tanto para fazer publicidade a uma marca.

No sentido exactamente contrário ao que é suposto acontecer, o cliente está a pagar para fazer publicidade de borla à marca.

Não devia ser ao contrário?

– Se não se importar de ter a nossa marca estampada em 85% da parte visível da sua t-shirt nós damos-lhe 34€.

– Não sei, parece-me pouco. Ainda ontem pedi um orçamento para um outdoor aqui à entrada do centro comercial e pediram-me 700€ por mês. E é fixo, não anda por toda a cidade! Ora como eu espero usar esta peça pelo menos 10 vezes acho que podemos negociar a partir de 230€, que me diz?

– Infelizmente só lhe podemos dar até 100€. Mesmo em saldos só podemos oferecer até 200€. Com esta crise temos que cortar um bocadinho no orçamento para publicidade, como com certeza compreenderá.

– Fazemos assim, como eu gosto muito da cor e simpatizo com a menina porque tem um busto apetecível, ficamos pelos 100€ e o seu número de telefone, e assim eu levo a t-shirt, pode ser?

– Muito bem. O meu número é o 936###### e aqui estão os seus 100€. Pedimos só que não adultere a t-shirt e nem a dê assinar a nenhuma celebridade porque pode ser alguém com quem a nossa marca não se identifique e isso poderá prejudicar a nossa imagem.

– Ok, obrigado. Logo falamos então.

 

Be Virgin

Junho 27th, 2011

– Boa tarde, o Dr. Rómulo está?

– Está sim, mas hoje é dia de consultas e o senhor doutor tem o dia cheio, posso ajudar?

– Não sei, acho que tem que ser mesmo com ele. Vinha aqui buscar a minha virgindade, porque o senhor doutor ficou-me com ela há uns tempos e depois disse-me para passar cá se precisasse dela.

– Pois, mas fez marcação?

– Fez, fez! Foram quase dois anos sempre atrás de mim, marcação cerradíssima, até que eu lá lha dei, mas só porque ele disse que depois ma devolvia se fosse preciso.

– E isso foi há quanto tempo?

– Há três meses.

– Ui! Mas assim não acredito que o doutor devolva, porque nós só fazemos devoluções até ao prazo máximo de um mês.

– Nem me diga uma coisa dessas, que eu preciso mesmo de ter isso de volta menina! É que na altura eu até nem tinha ninguém e nem notava a falta, mas entretanto conheci um rapazinho muito jeitosinho, que é sobrinho do padre que me confessa, e vou casar para a semana. E o que se passa é que sempre lhe disse que nesse dia lhe dava a virgindade a ele. Agora o que é que eu faço?

– A original não me parece mesmo que se consiga, até porque o doutor passado um tempo de as usar deita fora, mas eu costumo usar aquele pacote de experiências Be Virgin, que tem muitas soluções interessantes.

– Ai sim? E funcionam mesmo?

– Olhe, eu não tenho razão de queixa, ainda ontem usei aquela em que nos põem uns tomatinhos maduros de pele fraca, que rebentam muito bem e depois até têm nutrientes que fazem bem à pele e tudo, e o aspecto é magnífico, parece mesmo a sério. Sabe que quem namora muito está sempre a usar coisas destas.

– Namora muito, é?

– É. Infelizmente namoro muito, mas já estou a reduzir.

– Quantos namora?

– Agora já reduzi para um por semana e até já me sinto melhor. Houve alturas em que era um por dia, e então se saísse à noite eram dois ou três. Só no dia a seguir é que notava o que aquilo me fazia. Era um sufoco! Mas agora namoro muito menos e até estou a pensar em deixar de vez, porque isto faz muito mal à saúde.

– Acho que faz muito bem, eu só namorei algumas vezes, socialmente, e até nem gosto muito, sinto-me muito melada… não sei… é esquisito!

– O mal é que eu gosto sabe? Mas eu hei-de conseguir deixar! Voltando ao seu assunto, não me parece que o doutor vá encontrar a sua virgindade no meio da confusão que está naquele escritório, por isso faça como eu lhe disse e vai ver que o seu futuro marido nem se apercebe.

– De certeza?

– Absoluta, vá por mim.

– Vou experimentar então menina. Mas de qualquer das formas faça-me um favor e diga ao senhor doutor que eu cá vim, para o caso de ele encontrar aquilo me poder devolver ainda esta semana, está bem? O que é nosso tem sempre outro aspecto não é? E se for possível preferia não ter que usar outras coisas.

– Tem razão, vamos ver se é possível. Se houver novidades eu ligo, mas se não falarmos até lá: felicidades para o casamento!

– Obrigado menina.

Enganos com fartura

Junho 23rd, 2011

“- Queria um churro só com açúcar, uma fartura quentinha e um Sumol de laranja por favor.”

Passados mais de quinze minutos de espera chega finalmente o pedido à mesa.

Um churro só com canela, uma fartura fria e melada e virando a garrafa de sumo caíram meia dúzia de gotas, ficando o resto aprisionado no interior sob a forma de um enorme bloco de gêlo.

Além disso, era de ananás.

S. João da Ponte, Braga, ontem à noite.

Algo vai mal na corte do Rei das Farturas!

ben-u-ron

Junho 9th, 2011

Poucas vezes premiado ou referenciado em galas que referenciam ou premeiam coisas e pessoas, o ben-u-ron é o melhor amigo do Homem na sua luta contra as mais variadas maleitas.

Dores de cabeça? Tome um ben-u-ron.

Indisposição? Um ben-u-ron ajuda.

Dói-lhe um dente? Já tomou um ben-u-ron?

Ressaca? Experimente tomar um ben-u-ron.

Febre? É porque ainda não tomou um ben-u-ron!É tão versátil e as pessoas usam-no para tantos fins que acredito ser hoje capaz de fazer aquilo que aparentemente seria impossível: mossa concorrencial a medicamentos tão diversos como o Quitoso ou o Gino-Canesten.

Há até relatos que, devido às suas características, é utilizado em festas do jet-set para afastar pessoas que misturam o piroso e o patético, daí vir escrito na caixa que é um antipirético.

Para uma utilização tão abrangente talvez contribua o facto do nome deste medicamento fazer lembrar Ben-Hur, uma personagem lutadora, que vence qualquer desafio contra o mais poderoso dos inimigos e em condições muito desvantajosas.

É como se o medicamento se montasse numa quadriga e avançasse destemido sobre os mais variados causadores de doenças, chicoteando impiedosamente todo o tipo de vírus, bactérias e pestes.

Outra das coisas que se diz para justificar a ingestão de ben-u-ron nas mais variadas circunstâncias é que, pelo menos, mal não faz.

Isso leva-me a suspeitar que então talvez as suas substâncias não sejam tão activas como isso, e que sendo tão inócuo o mais provável é que não passe de um placebo.

Mas o que interessa é que, pelos vistos, a estratégia de mercado funciona muito bem, toda a gente o usa para tudo e mais alguma coisa, e por isso os senhores que o fabricam e comercializam devem ser referenciados ou premiados por isso.

Bem hajam ben-u-roneiros!