Homens do luxo

Agosto 4th, 2011

Muitas vezes nem damos por eles.

Andam pela noite enquanto descansamos, limpam tudo e sacrificam-se por nós enquanto dormimos, fazendo aquilo que os outros não fazem e vivendo num mundo de luxo pestilento.

A realidade deste sub-mundo pode ser chocante para muitos.

Os homens do luxo vestem a rigor e percorrem as estradas enganchados na parte de trás de carros de grandes dimensões, os “machibombos” – como lhes chama Manoel d’Avillez e Orey, a pessoa que nos guiou nesta reportagem -, que o público em geral se habituou a apelidar de limousine.

A missão destes homens passa muitas vezes por saltar dentro e fora dos “machibombos” em ruas repletas de lojas, para aí recolherem a mais variada espécie de sacos, de conteúdo muitas vezes inominável, que carregam a custo para dentro dessas abjectas viaturas.

Outra das difíceis tarefas destes homens é palmilhar as várias concentrações nocturnas de gente, em espaços muitas vezes apinhados de gente, onde cada vez mais abunda o pó – que eles inalam ao estilo de aspirador industrial – e onde as luzes dos flashes os põe sob risco permanente de cegueira.

A recolha de luxo continua noutros espaços, onde têm contacto com coisas que o comum cidadão nem sequer pensa em tocar: relógios de ouro, trufas, diamantes, peles, iates, suites presidenciais, champanhe, caviar, alta costura…

Tudo lhes passa pelas mãos, com sacrifício mas sem queixumes, cientes de que esta vida difícil não é para todos, só para os mais preparados.

Exilados à vista de todos, são muitas vezes confinados a espaços que são exclusivamente frequentados por outros como eles, sendo mesmo em alguns casos fortemente vigiados, para que não tenham contacto com as outras pessoas.

Isso traz-lhes problemas de integração e de comunicação, que se reflectem a curto prazo nos vários tiques verbais que adquirem.

A escuridão da noite, meio que privilegiam para não incomodar ninguém, por vezes serve-lhes de capa, para que passem despercebidos, mas é nossa obrigação tomar conhecimento da sua dura realidade e agradecer-lhes, porque alguém tem que fazer esse trabalho por nós.

Verão fresquinho

Agosto 2nd, 2011

– Bom dia sr. Amílcar! Queria um Verão se faz favor.

– Ó menina, beio mesmo na alturinha certa. Tenho aqui um qui é uma marabilha!

– E é de hoje?

– É sim sinhora! Fresquinho que só ele!

– Fresquinho? Não é melhor quentinho?

– Nem pinsar! Isso era dauntes! Agora é assim que os serbimos: fresquinhos e molhadinhos pu dentro.

– Ai é? Não sabia. E acompanho com um Solzinho?

– Não! Num pode sere, senoum estraga o Beroum.

– Mas eu costumava ir para a praia com um Verão quentinho e um Solzinho e sabia-me muito bem!

– Mas era munto mau pa bocê! Não tem oubido as notícias? Beja lá que se tiber sol só pode estar na praia até às 11h e boltar depois das 17h. Assim pode ir a calquer hora. É munto milhor!

– Se calhar tem razão. Então dê-me lá esse Verão que estou mortinha por sentir a areia nos pés. Mas veja lá se está mesmo fresquinho e húmido, está bem?

– Claro que sim menina. Nem lho daba se num fuosse do milhor! E bou-lhe pôr na saquinha uns lenços de papel e uma mão cheia de antigripais, que são oferta da casa.

– Muito obrigada sr. Amílcar.

Restaurante “Lonely Wolf”

Julho 19th, 2011

O restaurante Lonely Wolf, perdido algures no deserto que circunda Las Vegas, está a dar que falar pelo seu conceito inovador, absolutamente focado na satisfação plena de todas as necessidades do cliente.

Vejamos o diálogo abaixo – traduzido livremente para melhor compreensão – onde está bem patente o nível de inovação deste palácio dos sabores.

– Já escolheu?

– Sim, sim. Vou comer a picanha.

– Com feijão preto e couve mineira?

– Pode ser. E um bocadinho de arroz branco.

– Basmati?

– Sim.

– E para acompanhar?

– Para acompanhar pode ser uma núbia caribenha, bem tostadinha, por favor.

– Com picante ou sem picante?

– Traga o picante à parte, se não se importa. Elas já são quentes demais ao natural e não quero exagerar.

– Vai desejar alguma entrada?

– Desejo sim senhor! Uma portuguesinha da costa, das mais pequeninas, mas peça ao chef para pôr extra sal, que elas têm saído um bocadinho insossas ultimamente. E umas ameijoas.

– E para beber?

– Tomo o mesmo que a menina.

No final da refeição, o empregado de mesa dirige-se de novo ao cliente.

– Estava tudo bem?

– Sim, bastante bem. A núbia podia ser um bocadinho mais quentinha… mas com o picante ficou bem, não se preocupe.

– Vou informar o chef e pedir para ter isso em atenção da próxima vez, peço desculpa. Vai desejar sobremesa?

– Vou experimentar o vosso sonho de chocolate em cama de ovos moles e framboesas.

– E sobre a mesa?

– Também, sim. Acho que ainda arranjo um espacinho para o vosso misto asiático. Mas só duas! Sem creme, que já chega de calorias. Pode ser?

– Sim senhor. Duas bolas de gelado em cima?

– Não, só um saquinho de gelo, para pôr em baixo, por favor.

– E no final, um digestivozinho?

– Sim. Qualquer coisa da Real Companhia Velha.

Como viram, nada é descurado neste restaurante, um dos mais fortes candidatos a ser premiado nos guias de várias especialidades, integrando simultaneamente os guias “Boa Cama“, “Boa Vida” e “Boa Mesa“.

Uma experiência gastronómica inolvidável, certamente.

Policiamento low-cost

Julho 15th, 2011

Segundo uma notícia recente, um polícia de Vila do Conde conduzia há anos carros patrulha, apesar de não ter carta de condução.

Acho que faz sentido neste esforço nacional para a diminuição da dívida pública, porque o patrulhamento, feito por este polícia, devia ser muito mais barato do que o que é feito pelos restantes agentes.

No seguimento da secular tradição comercial portuguesa, que consta na diminuição de honorários consoante o cliente pretenda ou não factura, a polícia desenvolveu um novo meio de corte nos custos para o cliente final, que será certamente aplicável às empresas de transportes de passageiros ou mercadorias: “com carta ou sem carta?”

Muito argutas as forças de segurança, no seu contributo para a contenção da despesa do cidadão!

Segundo fonte que já ganhou verdete junto à bica, a polícia está agora a estudar a remoção da obrigatoriedade da licença de porte de arma para os seus agentes, aprovar uma diminuição do uniforme até ao nível de calção curto, utilização de fisgas  em vez de pistolas e a possibilidade de substituição do distintivo policial por uma marcação inscrita na testa ou no corpo, com batôn, a dizer PSP.

Assim, a polícia portuguesa estima poupar cerca de uma batelada de dinheiro, sendo pioneiros de uma nova vaga nas forças da ordem a nível mundial: o policiamento low-cost.

O bronco: esse animal

Julho 12th, 2011

A organização da oficina de um modelador de personagens é extremamente importante, e pode influenciar decisivamente o resultado final da sua obra.

Vou-vos dar um exemplo.

Quando o Mundo foi criado, os animais foram sendo modelados e foi-lhes sendo dado algum material essencial para a formação da sua personalidade, fundamental para a sua acção terrena.

Assim, ao Homem foi-lhe dada a razão, sendo aos restantes animais entregue ração.

Como estes dois items se encontram muito próximos, por infeliz distracção foi atribuída ração em vez de razão a alguns seres humanos, estando aqui a génese de um ser ímpar: o bronco.

O bronco, apesar de ter aparência de pessoa normal, diferencia-se pelo seu comportamento animalesco.

Também conhecido por burgesso,este animal tem por hábito cuspir para o chão, conduzir agressivamente e usar escapes ruidosos, passar à frente nas filas, atirar lixo para o chão, falar alto e dizer muitos palavrões, arrotar, trazer um palito na boca, deixar crescer a unha do dedo mindinho, ser bruto de acção e pensamento, coçar as partes íntimas frequentemente, usar cabelo com gel – curto em cima e longo atrás, a cobrir o pescoço -, usar manga cava e proeminente crucifixo dourado ao peito, comer com os olhos as mulheres que passam e mandar umas “bocas”, arrastar as crianças pelo punho em vez de lhes dar a mão, gabar-se das suas façanhas sexuais – mesmo que sejam inventadas -, entre outras maneiras de estar e de ser, inconcebíveis para o comum cidadão.

Apesar de parecer um ser desprezível, o que é certo é que há muitos e há até quem faça vida com eles e goste muito, sendo normal que as suas crias adquiram os seus comportamentos e se reproduzam desde tenra idade, garantindo assim a manutenção da espécie.

Mais do que isso, chega a ser homenageado, dando nome a clubes desportivos, artigos para crianças, roupas, remédios ou modelos de veículos automóveis, e isso, definitivamente, não se percebe e até devia ser proibido.

É uma espécie que se encontra um pouco por todo o lado, mas que se movimenta muito bem em estádios de futebol, festas populares, feiras, hipermercados e encontros de tuning, uma espécie de praga que dificilmente abrandará o ritmo de crescimento.

Por isso tenham muito cuidado, se pensarem em dedicar-se à modelagem, com a organização da vossa oficina.

Já viram o que um simples enganozinho pode ocasionar.