Arroz de miúdos

Outubro 13th, 2011

Ontem puseram-me em cima da mesa um arrozinho de miúdos.

Devo-vos dizer que foi muito bom, apesar de ter sido difícil acabar com aquela brincadeira.

É todo um festim que se espalha livremente pelo prato fora, numa espécie de jogo do gato e do rato que culmina em foguetins de sabor apurado, num ciclo que dá vontade de nunca quebrar.

Ainda por cima calhou-me um daqueles bem malandrinhos, que não pára quieto, o que cria dificuldades acrescidas a toda a operação degustativa.

Só lhe faltava mesmo pôr a língua de fora e cantar “nããão meee apaaanhas! nhé nhé nhé nhé nhé nhé” enquanto fugia a esconder-se por debaixo do garfo.

Esta malandrice, dá-me, porém, ainda mais gozo no momento da ingestão do dito arroz.

Pelo prazer que emana das palavras acima já depreenderam com certeza que sou aquilo a que se pode chamar um “pedourmet”, ou seja, um pedófilo gourmet, alguém que gosta de comer miúdos no seu arroz.

Se for com sangue, melhor ainda.

Sei que há muita gente que só de pensar neste tipo de pratos tolhe imediatamente a boca, transformando-a num pequeno esfincter tolhido, e franze o nariz até chegar com ele ao centro dos olhos, mas que querem que vos faça?

Se estivéssemos a falar de algo servido por um gigante que tivesse surpreendido miudagem humana na sua despensa, à procura de um saco de feijões mágicos , e que os tivesse castigado atirando-os para a panela onde cozinhava arroz, aí sim, ainda podia ter uma pitada de sentimento de culpa.

Mas assim não.

Assim saí do restaurante muito consoladinho!

De gigante, no final desta estória, além do prazer só mesmo a barriga e o sono.

 

Amuo na festa

Outubro 6th, 2011

Na casa de banho, a meio de uma festa:

– Que se passa Rafinha? Sentes-te bem?

– Nem por isso. Dói-me muito a barriga!

– Já fizeste cocó?

– Não é isso. Estou mal disposto.

– Bebes-te muito?

– 3 flutes de Champomy e um shot de Trina Limão. Mas já tinha bebido meio litro de groselha em casa…

– Pois! As misturas! Já se sabe! Eu fiquei-me só pelo Champomy e estou aqui impecável.

– Mas desconfio que o segurança é que me pôs assim. Quando me pegou pelas mãos e me pôr a rodopiar e depois me atirou para cima do sofá.

– Ei! A sério? E que tinhas feito tu?

– Nada. A sério. O gajo chegou à minha beira vindo do nada e pegou em mim. Só.

– Fogo. Eu nem vi nenhum segurança.

– O tipo é estranho. Com uma peruca verde e um nariz vermelho.

– Eh eh eh eh eh! O palhaço?

– Sim. É um palhaço! Deve ter a mania que é o maior lá da rua dele!

– Estava a brincar contigo de certeza, ele não é segurança, só está aqui para nos divertir.

– É… mas a mim pôs-me enjoado! Ouve… e a música também não ajuda nada. Quem é que contratou este gajo?

– Não gostas?

– Olha lá, a música do Ruca a seguir ao genérico do Digimon? Tás a gozar comigo? Este gajo devia ser proibido de pôr música!

– Não é um gajo, é uma menina.

– Eu vi logo. Modernices. até admira ter passado o Ruca então. Daqui a um bocado é só Barbies e Kittys e anda tudo aí com bonecas.

– Não sejas assim- Olha que ela é bem fixe. Até me trouxe um brinquedo novo e tudo.

– Uiiii! O Danizinho gosta de brincar com as meninas. Uiiii! Nunca pensei que fosses desses.

– Chiiiiiiu! Não comeces com isso! É um Matchbox último modelo que o pai lhe trouxe da América. Querias que dissesse que não?

– Tens aí?

– Tenho. Queres ver? Olha.

– Eia! Que fixe! E não me ias dizer nada? Vamos brincar?

– Ok. Limpa a boca e puxa o autoclismo.

– Não chego lá.

– Chama a tua irmã.

– Isso! ISAAAAAURA! ANDA PUXAR O AUTOCLIIIIISMO! Vamos brincar?

– Bora.

Verão atrasado

Outubro 3rd, 2011

– Bom dia! Finalmente cheguei caramba. Estava a ver que não era este ano.

– Ui! Ó xô Verão, o xôr está atrasadíssimo! Já viu que dia é hoje?

– Eu sei, eu sei, mas tive uns problemas intestinais antes de sair de casa e quando saí já estava um trânsito terrível ali a partir do Trópico de Cancer, de maneiras que vi-me aflito para chegar cá, não é? Mas não há problemas pois não?

– Eh pá, não sei! O chefe nem pode ouvir falar em si, caraças. Isto tem sido reclamações em cima de reclamações, tudo a querer sol e calor, e nós aqui em stock só tínhamos uma chuvita que o Inverno nos tinha deixado e uma brisasita que tinha sobrado à Primavera. Está a ver o que isto foi, não é?

– Imagino, desculpem lá, mas não tive mesmo hipótese de chegar mais cedo. Ainda tentei ligar, mas disseram-me que estava tudo para férias.

– Pois, que as pessoas têm a sua vida já marcada não é?

– Mas ainda vamos a tempo de remediar isto, não vamos?

– Não sei xô Verão. Sabe que não é fácil manter a estrutura toda activa até esta altura do ano. O chefe já mandou embora os nadadores-salvadores, diminuiu ao número de bombeiros, recolheu as esplanadas e barracas de praia, suspendeu a produção de gelados, mandou coser mangas às t-shirts que sobraram. Não vai ser fácil!

– Que maçada pá! Temos trabalhado tão bem nos outros anos, tinha agora que acontecer isto. Não queria nada que ficassem chateados comigo, pá. Fazemos assim, fico cá esta semanita e vemos como corre. Se entretanto a coisa não pegar, vou à minha vidinha outra vez, pode ser?

– Ó xô Verão, eu por mim o xôr ficava aqui o ano inteiro, já sabe, que eu gosto muito de si. Mas não me parece fácil. Fique lá esta semaninha e depois vê-se então, mas não lhe prometo nada, que o chefe quando souber que está cá, parece que já estou a ouvir a trovoada, caraças!

– Vamos lá ver, pode ser que não. Obrigado pela sua atenção.

– Não tem nada que agradecer, mas para o ano venha lá a tempo está bem?

– Vou tentar, vou ver se para o ano saio um bocadinho mais cedo e apanho o das seis e meia.

– Dê um toque quando sair, que assim preparamos tudo a contar com isso, pode ser?

– Está prometido.

Salsifré

Setembro 27th, 2011

Salsifré é uma palavra que eu aprecio, porque junta numa só expressão duas coisas que me dizem muito.

A salsa é um condimento que aprecio bastante.

Há quem a prefira dançada, mas para mim a sua utilização por cima de um bacalhau à brás, por exemplo, é aquilo que lhe faz ganhar a sua máxima expressão, é assim que tem realmente valor.

Fré é para mim muito importante também, já que é a segunda palavra que aprendemos quando entramos na universidade, logo a seguir a Frá, e portanto invoca lembranças dessa época.

Ora, uma palavra que junta um condimento de generoso paladar com as memórias dos belos tempos de instrução na universidade só pode resultar em música para os meus ouvidos, e daí eu achar que a deva utilizar mais vezes.

Quando gostamos muito de uma palavra, acho que faz sentido fazer um esforço para a utilizar mais, experimentando pô-la noutros contextos para além daqueles em que normalmente as usamos.

Sendo assim, se doravante me ouvirem dizer “esta coisa causa-me salsifré”, “parece que tenho um salsifré dentro do peito” “isto está muito salsifré” ou “és salsifré para mim”, devem entender que estão a obter uma reacção muito positiva da minha parte e não que estou a ter um discurso incoerente, amalucado ou estúpido.

Estamos combinados?

Não ficam a pensar que estou bêbado ou a ter convulsões ao nível do meu armazém vocabular?

Muito bem.

Então tenham um dia salsifré, e até uma próxima oportunidade.

Ideia peregrina

Setembro 16th, 2011

Existe uma expressão idiomática que se costuma usar com ironia quando se pretende identificar uma ideia descabida.

Já ouviram falar, de certeza, em alguém que teve uma “ideia peregrina”.

Além da transtornante imagem mental de uma ideia a peregrinar, parece-me que esta expressão é um dos maiores contra-sensos da língua portuguesa.

Ora façam lá esta análise comigo.

Se a ideia é descabida, é legítimo dizer que não tem pernas para andar, certo?

Os peregrinos, tradicionalmente, caminham para o local de peregrinação, correcto?

Faltando as pernas à ideia, esta não pode caminhar, pelo que se dá uma espécie de curto-circuito linguístico que retira lógica à expressão, porque, não tendo possibilidade de fazer o seu caminho, a ideia não peregrinará.

Uma forma mais correcta de denominar este tipo de ideias seria, por exemplo, “ideias com necessidades especiais”.

Além de mais exacta linguísticamente esta expressão, as ideias poderiam ostentar um autocolante identificativo e assim conseguiriam até arranjar com mais facilidade lugar para estacionar, e ficarem lá, bem quietinhas no seu sítio.