Arroz de miúdos

Outubro 13th, 2011

Ontem puseram-me em cima da mesa um arrozinho de miúdos.

Devo-vos dizer que foi muito bom, apesar de ter sido difícil acabar com aquela brincadeira.

É todo um festim que se espalha livremente pelo prato fora, numa espécie de jogo do gato e do rato que culmina em foguetins de sabor apurado, num ciclo que dá vontade de nunca quebrar.

Ainda por cima calhou-me um daqueles bem malandrinhos, que não pára quieto, o que cria dificuldades acrescidas a toda a operação degustativa.

Só lhe faltava mesmo pôr a língua de fora e cantar “nããão meee apaaanhas! nhé nhé nhé nhé nhé nhé” enquanto fugia a esconder-se por debaixo do garfo.

Esta malandrice, dá-me, porém, ainda mais gozo no momento da ingestão do dito arroz.

Pelo prazer que emana das palavras acima já depreenderam com certeza que sou aquilo a que se pode chamar um “pedourmet”, ou seja, um pedófilo gourmet, alguém que gosta de comer miúdos no seu arroz.

Se for com sangue, melhor ainda.

Sei que há muita gente que só de pensar neste tipo de pratos tolhe imediatamente a boca, transformando-a num pequeno esfincter tolhido, e franze o nariz até chegar com ele ao centro dos olhos, mas que querem que vos faça?

Se estivéssemos a falar de algo servido por um gigante que tivesse surpreendido miudagem humana na sua despensa, à procura de um saco de feijões mágicos , e que os tivesse castigado atirando-os para a panela onde cozinhava arroz, aí sim, ainda podia ter uma pitada de sentimento de culpa.

Mas assim não.

Assim saí do restaurante muito consoladinho!

De gigante, no final desta estória, além do prazer só mesmo a barriga e o sono.

 

Salsifré

Setembro 27th, 2011

Salsifré é uma palavra que eu aprecio, porque junta numa só expressão duas coisas que me dizem muito.

A salsa é um condimento que aprecio bastante.

Há quem a prefira dançada, mas para mim a sua utilização por cima de um bacalhau à brás, por exemplo, é aquilo que lhe faz ganhar a sua máxima expressão, é assim que tem realmente valor.

Fré é para mim muito importante também, já que é a segunda palavra que aprendemos quando entramos na universidade, logo a seguir a Frá, e portanto invoca lembranças dessa época.

Ora, uma palavra que junta um condimento de generoso paladar com as memórias dos belos tempos de instrução na universidade só pode resultar em música para os meus ouvidos, e daí eu achar que a deva utilizar mais vezes.

Quando gostamos muito de uma palavra, acho que faz sentido fazer um esforço para a utilizar mais, experimentando pô-la noutros contextos para além daqueles em que normalmente as usamos.

Sendo assim, se doravante me ouvirem dizer “esta coisa causa-me salsifré”, “parece que tenho um salsifré dentro do peito” “isto está muito salsifré” ou “és salsifré para mim”, devem entender que estão a obter uma reacção muito positiva da minha parte e não que estou a ter um discurso incoerente, amalucado ou estúpido.

Estamos combinados?

Não ficam a pensar que estou bêbado ou a ter convulsões ao nível do meu armazém vocabular?

Muito bem.

Então tenham um dia salsifré, e até uma próxima oportunidade.

Tiro aos pratos

Agosto 22nd, 2011

Ontem apercebi-me – por estar próximo de um campo de tiro – de um verdadeiro genocídio.

Cento e vinte e seis pratos morreram durante uma tarde, assassinados por atiradores equipados com óculos especiais e protecções auditivas, e ninguém fez nada para impedir esta matança.

Não consigo perceber o que motiva estas pessoas, capazes de um acto tão bárbaro.

Podiam fazê-lo com o intuito de os comer, mas não me recordo de ouvir falar em Arroz de Prato nem de Prato com Laranja.

O mínimo exigível seria que, pelo menos, utilizassem os restos mortais para fazer Bolo do Caco, mas nem isso é aproveitado.

Há mais motivos que me causam alguma exaltação interior quando penso nas consequências desta mortandade selvática.

Alguém se importa com o drama familiar que o desaparecimento destes pratos causa?

Como ficará uma prata, ao receber a notícia de que o seu marido foi morto enquanto voava inocentemente por cima de um campo?

Fundida, com certeza!

É um problema muito grave da nossa sociedade, que tem que ser denunciado.

Há um tratamento desigual de umas coisas para as outras, preconceitos que persistem, resistindo ao evoluir das mentalidades.

Se alguém dispara contra um banco, mesmo que só arranhando a sua pintura ligeiramente, vai logo a polícia atrás dele, perseguindo-o, prendendo-o e punindo-o com severidade.

Mas se se dispara contra um prato, deixando-o estraçalhado, jazendo no chão, nada é feito a não ser bater palmas ao indivíduo que efectuou o disparo e felicitá-lo pela pontaria.

Há até competições que legitimam esta prática e prémios para os melhores atiradores.

Uma pouca-vergonha!

Pratos e bancos deviam ser tratados da mesma forma e já é altura de acabar com estas razias de pratos ao fim de semana.

Persiga-se e castigue-se quem dizima a pratalhada!

Restaurante “Lonely Wolf”

Julho 19th, 2011

O restaurante Lonely Wolf, perdido algures no deserto que circunda Las Vegas, está a dar que falar pelo seu conceito inovador, absolutamente focado na satisfação plena de todas as necessidades do cliente.

Vejamos o diálogo abaixo – traduzido livremente para melhor compreensão – onde está bem patente o nível de inovação deste palácio dos sabores.

– Já escolheu?

– Sim, sim. Vou comer a picanha.

– Com feijão preto e couve mineira?

– Pode ser. E um bocadinho de arroz branco.

– Basmati?

– Sim.

– E para acompanhar?

– Para acompanhar pode ser uma núbia caribenha, bem tostadinha, por favor.

– Com picante ou sem picante?

– Traga o picante à parte, se não se importa. Elas já são quentes demais ao natural e não quero exagerar.

– Vai desejar alguma entrada?

– Desejo sim senhor! Uma portuguesinha da costa, das mais pequeninas, mas peça ao chef para pôr extra sal, que elas têm saído um bocadinho insossas ultimamente. E umas ameijoas.

– E para beber?

– Tomo o mesmo que a menina.

No final da refeição, o empregado de mesa dirige-se de novo ao cliente.

– Estava tudo bem?

– Sim, bastante bem. A núbia podia ser um bocadinho mais quentinha… mas com o picante ficou bem, não se preocupe.

– Vou informar o chef e pedir para ter isso em atenção da próxima vez, peço desculpa. Vai desejar sobremesa?

– Vou experimentar o vosso sonho de chocolate em cama de ovos moles e framboesas.

– E sobre a mesa?

– Também, sim. Acho que ainda arranjo um espacinho para o vosso misto asiático. Mas só duas! Sem creme, que já chega de calorias. Pode ser?

– Sim senhor. Duas bolas de gelado em cima?

– Não, só um saquinho de gelo, para pôr em baixo, por favor.

– E no final, um digestivozinho?

– Sim. Qualquer coisa da Real Companhia Velha.

Como viram, nada é descurado neste restaurante, um dos mais fortes candidatos a ser premiado nos guias de várias especialidades, integrando simultaneamente os guias “Boa Cama“, “Boa Vida” e “Boa Mesa“.

Uma experiência gastronómica inolvidável, certamente.

Enganos com fartura

Junho 23rd, 2011

“- Queria um churro só com açúcar, uma fartura quentinha e um Sumol de laranja por favor.”

Passados mais de quinze minutos de espera chega finalmente o pedido à mesa.

Um churro só com canela, uma fartura fria e melada e virando a garrafa de sumo caíram meia dúzia de gotas, ficando o resto aprisionado no interior sob a forma de um enorme bloco de gêlo.

Além disso, era de ananás.

S. João da Ponte, Braga, ontem à noite.

Algo vai mal na corte do Rei das Farturas!