Habemus Papam

Março 12th, 2013

Se há dia em que faz sentido recomendar um filme, é este.

Começa hoje o conclave para a eleição do novo Papa e isso fez-me lembrar um excelente filme de Nanni Moretti que vi há uns tempos, chamado “Habemus Papam”.

É interessante porque mostra toda a dinâmica interna de sucessão do Sumo Pontífice, mas tem um twist verdadeiramente delicioso, que alimenta a história: o eleito acha que não é capaz de exercer o cargo, tem uma crise de pânico e recusa-se a assumi-lo já depois de ter saído fumo branco pela chaminé da Capela Sistina, e quando as portas da varanda que dá para a praça de S. Pedro já estão abertas.

Instala-se o caos  interno e entra-se em estado de emergência dentro de portas, enquanto cá fora a multidão espera, sem saber o que se passa.

É então chamado o melhor psicanalista italiano para tentar convencer o cardeal e assistimos a toda a luta interna desta personagem, brilhantemente interpretada por Michel Piccoli.

Vale a pena vê-lo, principalmente no contexto atual, porque dá uma perspectiva muito interessante ao tema.Habemus-Papam_pics_809

Xiu, xôr agente!

Novembro 7th, 2011

Um dos truques mais utilizados pela indústria cinematográfica, para dar mais ação aos filmes, são as perseguições policiais.

É sempre bastante excitante e prazeroso assistir a uma boa perseguição enquanto se faz uma boa perguiçassão, e por isso essa dupla deve ser convenientemente alimentada, a bem do espectador.

O que me aflige é a forma como às vezes o início dessa perseguição é demasiadamente forçada, retirando a espontaneidade necessária a um entretenimento minimamente credível.

Já assistiram a isto várias vezes, aposto: o meliante está compenetrado a tentar forçar a fechadura de uma casa, quando do fim da rua ouve um grito a clamar para que pare com esta sua ação criminal, permaneça no seu sítio e ponha as mãos no ar.

Invariavelmente o bandido foge, gozando de uma distância inicial que lhe permite manter a fuga durante largos minutos, enquanto se desarrumam contentores do lixo, se disparam balas que acertam em corrimões e se forçam travagens bruscas aos carros que transitam na via pública (quando isto acontece dá bem para ver quem é o polícia e o ladrão, porque o primeiro agradece e pede desculpa ao condutor).

É sabido que os polícias são sempre mais fortes, rápidos e certeiros que os ladrões, tudo bem, mas para quê dar-lhes sempre um avanço tão grande?

A imagem transmitida é uma de duas: ou os polícias do cinema são muito estúpidos e ainda não perceberam que assim estão a “assustar a caça”, dando-lhes uma vantagem desnecessária, ou então são uns irresponsáveis, que para seu entretenimento próprio – já que lhes dá imenso gozo perseguir ladrões -, estão-se nas tintas para o objectivo final e põem em causa a segurança dos cidadãos e o perfeito estado dos objetos danificados durante a perseguição.

Meus amigos, como é que se caçam moscas?

Como é que se obtém bons resultados na pesca?

Com gritinhos a avisar que estamos ali?

Não é, pois não?

É muito mais eficaz que o agente da autoridade se aproxime sem fazer ruído, para depois, à distância de meio braço, aplicar um calduço em condições ao metralha, pondo-o inconsciente!

Ou então disparar um balázio certeiro à cabeça, usando aquela mira espetacular que costumam ter, mas preparando o tiro à distância e em silêncio.

Perdia-se emoção, é certo, mas ganhava-se em contenção de custos e serenidade da vizinhança, e isso é algo que temos que ter em conta, dada a época de crise que vivemos.

Não se acordam meninos, não se partem vidros, não se explodem carros.

Perfeito.

Paz e ordem, senhores agentes das películas, é o que vocês devem garantir, não é exatamente o inverso.

Não se esqueçam que são um exemplo e peçam aos vossos guionistas para vos mudar esta atitude.

Vão ficar muito mais credíveis, serão muito mais admirados pelos métodos utilizados e vão estar muito menos cansados no final do filme, vão ver.

 

 

Música no coração

Dezembro 6th, 2010

O filme “Música no Coração“, além de ter ganho o Óscar para melhor filme em 1966, marcou profundamente a minha geração.

Quem tem a minha idade já teve que ver este filme e  através das músicas intemporais, da narrativa tocante, das belas paisagens alpinas, ou, quanto mais não seja, pela incessante repetição em época natalícia, recorda-o seguramente, com mais ou menos saudade.

O que se calhar pouca gente sabe é que a família Von Trapp existe na vida real, e que o filme surge de uma adaptação de um livro escrito pela própria Maria Von Trapp em 1949.

Para os adeptos mais fervorosos do filme, existe a possibilidade de visitarem os sítios onde o filme foi rodado, verem um musical adaptado do filme em Graz ou na Broadway e até comprar on-line toda a memorabilia relacionada com o filme.

Para quem apenas tiver uma ligeira saudadesinha e o quiser relembrar, é uma questão de estar atento, porque nos próximos dias deve aparecer na programação de um qualquer canal português.

Ajami

Maio 10th, 2010

Ajami, filme israelita de Scandar Copti e Yaron Shanti, é mais uma prova de que o bom cinema não conhece fronteiras.

A história decorre no conturbado bairro de Ajami em Jaffa, onde coabitam judeus, muçulmanos e cristãos, e é-nos narrada por capítulos, centrando a atenção em quatro personagens que aparentemente não têm ligação.

À medida que o filme se desenrola, apercebemo-nos que as suas histórias se intersectam e constatamos a realidade de uma colisão dramática entre diferentes culturas e as consequências trágicas da vizinhança entre povos inimigos.

É um daqueles filmes que não pode deixar ninguém indiferente e que é aconselhável para quem gosta de sentir o cérebro activo durante todo o visionamento.

Shutter Island

Abril 10th, 2010

Vi recentemente Shutter Island, o novo filme do grande mestre Martin Scorcese, que nos conta a história de dois agentes federais (protagonizados por um Leonardo Di Caprio em boa forma e Mark Ruffalo) que são chamados a uma ilha na costa de Massachusetts para investigar o desaparecimento misterioso de uma assassina, internada num hospital para criminosos com distúrbios mentais.

Ao longo das suas investigações, o agente protagonizado por Di Caprio descobre indícios de práticas ilegais no tratamento destes pacientes, apercebe-se da resistência dos responsáveis pelo hospital ao normal seguimento das pistas e começa a desconfiar de que estará envolvido numa trama com o intuito de o fazer duvidar dele próprio e o internar nesta instituição.

As surpresas estão reservadas para o final e não convém revelar mais nada deste verdadeiro brain twister muito bem engendrado, para não estragar a experiência de quem ainda não viu o filme.

Achei que o filme está muito bom, o argumento é interessante e surpreendente q.b. e as interpretações estão à altura dos nomes dos intervenientes.

São detectáveis algumas falhas na continuidade em algumas passagens de câmara, mas não são flagrantes e não tornam o filme menos aconselhável.