Arca de “num é?”

Fevereiro 20th, 2014

A chuva cai quase ininterruptamente há aproximadamente três meses e o desespero já começa a tomar conta de quem já não suporta tanta água a cair do céu e amedronta quem pensa tratar-se de uma espécie de acerto de contas divina.

Encontramos, nos arrabaldes de uma cidade nortenha, Laurêncio Barbudo, um homem que acredita que esta enorme quantidade de água poderá consubstanciar-se num dilúvio e que tomou uma atitude perante esse facto.

Ninho de Pássaro (NP) – Bom dia senhor Barbudo, fomos informados de que construiu uma Arca de Noé, confirma?

Laurêncio Barbudo (LB) – Não! Isso num é berdade.

NP – Não é? Mas telefonaram-nos a dizer que o senhor tem uma arca no jardim e que vai falar com Deus e tudo!?

LB – Ah! Isso é outra cuoisa. Teinho a iarca no quintal, sim sinhuora e bou falar cum Dieus, efetibamente.

NP – Foi o senhor Barbudo que construiu a arca pessoalmente, certo?

LB – Taumbém não! A iarca é uma iarca de cungelassoum belha, que tinha nos fórrinhos e que estaba escaungalhada, com ferruge e tudo, e num serbia pa nada. Custou-me 12€ num tócófe, há uns anos, e serbia só para dar arrumaçoum.

NP – E o que o levou a pegar na arca e trazê-la para o jardim?

LB – Ora beim! A minha mulher aundava a dezer que esta chuba tuoda era um dilúbio e que iera castigo de Dieus, porque tínhamos bendido um gato morto, esfolado, a um bezinho, a dezer que iera um cueilho. Mas eu aicho que num fuoi! Aicho que há muntas outras cuoisas pra sermos castigados e apostei cum a minha mulher uma saundes de courato e uma mine em como num era nada disso. E fuoi aí que resolbi preguntar isso diretamente a Dieus.

NP – Mas não podia ter feito isso numa oração, numa igreja ou de outra forma?

LB – Podia, mas pensei “eu se lhe maundo uma mensage agora nunca mais me respónde, e tou cuma larica do carailho”, de maneiras que me lembrei daquilo da iarca, porque chama a atenssoum, num é?

NP – E vai recolher todas as espécies de animais, um macho e uma fêmea, só para chamar a atenção?

LB – QUÊ?!? Tá douda!? Já me chegu aos cães, os porcos e as galinhas! Ia agora trazer mais bixos páqui?! Nada disso!

NP – Então não tem nada a ver com a Arca de Noé?

LB – Nem sei o que ié isso.

NP – Pois… estou a ver que não. Diga-nos lá então, como vai utilizar a arca?

LB – Bou lebá-la pró quintal. Já lebei! Bou bestir uma sarapilheira enrolada no rego e um garruço furescente e bou entrar nela. Assim num tenho dúbidas que Deus bai ficar a olhar. E depois pregunto “é por causa da gosma no xouriço, num é?”

NP – E depois?

LB – Depois, se cuntinuar a chuber, é porque num é, e bou continuar a fazer preguntas.

NP – De que género?

LB – “É por causa de ter bumitado no binho de missa, num é?”, “é por causa da senaita rapada da Adélia, num é?”, “é por causa do estrume seco misturado no café, num é?”, “é por causa de ter rumpido as bentas à abó do Mingos, num é?”, “é por causa de ter grelhado o cão da Tina, num é?”, e por aí fora até acertar. Quando acertar a chuba pára, eu peço desculpa e segue a bida, num lhe parece?

NP – … Ãh… pois… talvez… agora… vá embora… até… um dia, sim?

LB – Bolte sempre! Cuando passar abise auntes, que eu preparo-lhe um cabritinho dos nossos, que ié uma marabilha!

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O homem mais praxado de Portugal

Janeiro 30th, 2014

A propósito do triste episódio de um professor praxado na Universidade do Minho, achamos oportuno entrevistar o cidadão mais conhecedor de praxes em Portugal.

José Carlos Loiro – ou Zeca Loiro, como também é conhecido – é uma figura incontornável quando se fala de praxes, pois é ele próprio quem se intitula “o homem mais praxado de Portugal”.

Fomos falar com ele.

Ninho de Pássaro (NP) – Bom dia José Carlos. Afirma-se como o homem mais praxado de Portugal. Tem ideia de quantas vezes foi praxado?

Zeca Loiro (ZL) – Bom dia. Pelas minhas contas fui praxado para cima de 1472 vezes.

NP – 1473?

ZC – Talvez. Ou mais. Não sei bem.

NP – Lembra-se da primeira vez que foi praxado?

ZL – Claro que sim. Lembro-me como se fosse hoje. Eu vinha a passar em frente a uma mercearia e vi um senhor a praxar a logista, perguntando-lhe “sabes o que é um bagalho?”. Ao ouvir isto adverti o senhor que o que estava a fazer não tinha graça e não era permitido na mercearia. Foi aí que passei eu a ser o objeto da praxe questionando-me agora a mim o senhor se sabia o que era o que descrevi acima. Fiquei estupefacto com a situação e dirigi-me a ele perguntando-lhe se tinha confiança comigo para me falar daquele modo. Ao aproximar-me fui abordado fisicamente por um sem abrigo anão que estava à porta, que me agarrou (imagino que a pensar se iria agredir o senhor, coisa que obviamente não era minha intenção). Enquanto estava manietado, a pergunta referida foi-me endereçada mais algumas vezes.

NP – Que horror!

ZL – Um verdadeiro horror, digo-lho eu!

NP – Houve mais episódios de praxe violenta que se consiga lembrar?

ZL – Infelizmente sim, porque as pessoas parece que embirram comigo, sabe? Certo dia, cheguei a uma retrosaria de manhazinha e vi uma velhota a praxar um miúdo, perguntando-lhe “sabes o que é um nagalho?”. Ao ouvir isto adverti  a velhota que o que estava a fazer não era rizível e não era permitido na retrosaria. Foi aí que passei eu a ser o objeto da praxe questionando-me agora a mim a velhota se sabia o que era o que descrevi acima. Fiquei boquiaberto com a situação e dirigi-me a ela perguntando-lhe se já não tinha idade para ter juízo, para me falar daquela forma. Ao aproximar-me fui abordado fisicamente por uma senhora maneta em cadeira de rodas, que me deitou a luva (imagino que a pensar se iria dar um sopapo à velhota, coisa que logicamente nunca faria). Enquanto estava subjugado, a pergunta referida foi-me mais algumas vezes feita.

NP – Que barbaridade!

ZL – Uma verdadeira barbaridade, é o que lhe digo!

NP – Eu sei que deve ser duro para si, mas importa-se de partilhar mais um episódio de praxe abjeta?

ZL – Claro que sim. Tenho que partilhar, que é para chamar a atenção para este assunto. Conto-lhe o último, que ainda me põe a tremer. A semana passada, estava numa quinta e vi um agricultor a praxar uma vaca, perguntando-lhe “sabes o que é um cangalho?”. Ao ouvir isto adverti o agricultor que o que estava a fazer não tinha piada e não era permitido na quinta. Foi aí que passei eu a ser o objeto da praxe questionando-me agora a mim o agricultor se sabia o que era o que descrevi acima. Fiquei atónito com a situação e dirigi-me a ele perguntando-lhe se tinha andado com ele na escola, para me falar daquela maneira. Ao aproximar-me fui abordado fisicamente por uma ovelha, que me agarrou (imagino que a pensar se iria dar uns patarrões na boca do agricultor, coisa que jamais passou pela minha cabeça). Enquanto estava dominado, a pergunta referida foi-me dirigida mais algumas vezes.

NP – Uma barbárie!

ZL – Uma verdadeira barbárie, estou-lhe a dizer!

NP – Vá lá que no meio disso tudo não lhe fizeram como ao professor da Universidade do Minho, que lhe perguntaram se sabia “o que é o caralho?”.

ZL – Oh! Esse é um mariquinhas. Toda a gente sabe que caralho é a palavra com que se denominava a pequena cesta que se encontrava no alto dos mastros das caravelas, de onde os vigias prescrutavam o horizonte em busca de sinais de terra. Não percebo a indignação!

NP – Uma última pergunta: sabe o que é “chiribi ta ta ta ta”?

ZL – Também vocês, caramba? Vocês envergonham a vossa profissão! Isto é um ultraje! Devo advertir-vos que isso não é engraçado e que não é permitido aqui nesta estrumeira.

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Filatelia fecal

Novembro 14th, 2013

Desconhecida de grande parte da população, a filatelia fecal é o estudo e o colecionismo dos selos das cuecas e materiais relacionados.

Os selos das cuecas são pequenas marcas na roupa interior, originadas pelo contacto de fezes ou seus gases com os tecidos.

Cada selo da cueca tem uma história e característica única, não havendo um igual ao outro no mundo, o que torna esta forma de colecionismo virtualmente interminável.

Segundo os filatelistas fecais, o que os move para ter este hobby é a vontade de conhecer mais sobre as pessoas que os produziram e o contexto temporal, económico e social em que o fizeram.

Hernâni Poio é o presidente da Fundação Filatelia Fecal, que promove esta forma de colecionismo em Portugal.

Falamos com ele, para perceber melhor este fenómeno.

NP – Olá Hernâni, como começou a sua paixão pelos selos das cuecas?

HP – O meu pai era um filatelista “clássico” e sempre me incentivou a dar continuidade à sua paixão. Nunca liguei muito aos selos, porque me pareciam muito impessoais, mas um dia fiz um selo na cueca e tudo mudou para mim. Apercebi-me ao olhar com atenção para o que tinha acabado de fazer, que tinha ali algo que dizia muito sobre mim, naquela altura da vida.

NP – Guardou essa cueca?

HP – Infelizmente não. Na altura pareceu-me um fascínio que as pessoas teriam dificuldade em perceber, e só depois de atingida a idade adulta senti segurança para assumir publicamente esta minha paixão.

NP – Coleciona só artigos produzidos por si?

HP – Não! Nem pensar nisso! A riqueza da filatelia fecal está precisamente no conhecimento dos outros através dos selos das cuecas, pelo que, quanto mais diversificadas forem as origens dos especimens mais rica é a coleção.

NP – Como são preservados os selos?

HP – Depois de recolhidos são postos a secar – no caso de ainda os obtermos frescos –  e posteriormente é passada uma laca própria, que preserva na perfeição o selo, que encaixilhamos numas pequenas lamelas, para melhor acondicionamento e indexação.

NP – Quantos selos tem neste momento?

HP – Mais de 5000 dos mais variados cantos do globo. É o souvenir que nunca pode faltar nas minhas viagens. Aliás, vou-lhe pedir também que me deixe um antes de ir embora.

NP – Deixarei com todo o gosto. Tem algum que destaque de forma especial na sua vasta coleção?

HP – Sim, de uma senhora alemã cujo nome não posso divulgar. É uma cueca de gola alta, de grandes dimensões, com um rasto aloirado e bem definido, que encontrei num caixote do lixo junto ao parlamento alemão.

NP – Recolhe selos no lixo, portanto?

HP – Sim, há muita gente que ainda receia doar – ou mesmo vender – os seus selos das cuecas, por se sentirem afetadas na sua intimidade.

NP – Existe algum sítio em particular onde recolha com mais frequência?

HP – Sim, sem dúvida. Junto aos parlamentos é onde encontro o maior número de selos com valor. É um sítio onde se faz muita feze e onde mesmo os que não a fazem é porque são uns cagões. Além disso os parlamentares tendem a ocultar todos os indícios da enormidade de fezes que produzem diariamente, deitando-os fora.

NP – Tem algum desejo particular para o futuro da filatelia fecal?

HP – Sim. Gostava muito de viver o dia em que se pudesse utilizar o selo da cueca no correio normal. São tantas as vantagens! Personalização, diversidade, economia, e nem é preciso lamber o selo para ele ficar colado – eu só faço isso pela minha paixão avassaladora pelos selos -, é uma maravilha!

NP – Obrigado pela entrevista e boa sorte para o futuro da filatelia fecal Hernâni.

HP – Obrigado sou eu. Tive muito gosto em conhecer-vos e aproveito para agradecer também ao vosso editor, que me enviou uns selos magníficos, que fez depois de uma atribulada viagem de barco. Um espanto!

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Moncocausto

Janeiro 24th, 2013

Hoje temos conosco Frederico Burrié, presidente do MAM (Movimento de Alerta para o Moncocausto) que irá hoje fazer uma intervenção na ONU para dar conta das suas preocupações.

– Sr. Burrié, bom dia, qual é a mensagem que traz hoje à Nações Unidas?

– Bom dia! Olhe, o que nos traz aqui hoje é a necessidade de alertar o Mundo para o verdadeiro Moncocausto a que assistimos diariamente, sem que ninguém faça nada para o travar.

– Moncocausto é um expressão com a qual os nossos leitores talvez não estejam familiarizados, quer-nos explicar o que é?

– É a erradicação massiva e/ou deslocação involuntária de moncos, ou mucosidades nasais secas se preferir, das cavidades ou fossas nasais.

– E de que forma é que isso é feito?

– Olhe, isso é feito geralmente de forma manual, com a inserção do indicador para remoção das mucosidades secas da narina, nas mais variadas situações: no carro, na casa de banho, a ver televisão, … por todo o lado vemos seres humanos a esgravatar as fossas nasais extraindo moncos que não estão ali a fazer mal a ninguém.

– É portanto algo comum na sociedade.

– Evidente! É um flagelo diário. Um genocídio da nossa espécie que acontece por todo o lado, apesar de muitos o negarem.

– Não serão os moncos perigosos para a saúde dos humanos, no sentido em que obstruem as vias respiratórias?

– Isso é uma falsa questão! Nunca ninguém nos pediu que nos desviássemos, porque senão tínha-mo-lo feito. Somos secreções que gostamos de gerar consensos e não nos custava nada desviar um pouco para passagem de ar se alguém, alguma vez, nos tivesse pedido para o fazer.

– E se for alegado que vocês são saborosos e nutritivos, devendo por isso ser encarados como víveres?

– Só aceito esse argumento quando me mostrarem uma roda dos alimentos onde estejamos representados e um prato confecionado à base de moncos num restaurante com pelo menos uma estrela Michelin. Tudo o que for fora disso é pura demagogia e especulação.

– O que é que acontece às mucosidades secas depois de removidas das cavidades nasais?

– A maioria é realojada na cavidade bocal, mas não existem condições de habitação ali nem em nenhuma localidade do sistema digestivo. Sítios muito húmidos, escuros, sempre com comida a entrar e a sair e com um cheiro que não se aguenta. Demasiadamente insalubres para nós, que necessitamos de sítios com pilosidades que filtrem quem entra e quem sai, com vista para a rua e onde se possa estar sossegado. Os mais desafortunados são mandados para outras fossas, como as sépticas por exemplo, ou mesmo colados em cadeiras ou postos na borda de pratos, onde é absolutamente impossível manter uma família.

– O que é que vêm aqui solicitar então?

– Em primeiro lugar o recenseamento universal obrigatório dos moncos, para que se possa identificar com maior acuidade o desaparecimento de algum. Em segundo lugar, a criminalização da erradicação ou realojamento involuntário de moncos. Temos que parar de uma vez por todas com este verdadeiro Moncocausto. Em terceiro, que nos deixem de chamar macacos, porque estamos fartos que nos venham buscar para levantar carros sempre que fura um pneu.

– Como seria o Mundo ideal para si?

– Um planeta que me permitisse estar tranquilo com a minha mulher e os meus filhos num sítio confortável e sem medo de ser removido abruptamente e contra a minha vontade. E escusa de ser num Júlio Isidro, que sou gente modesta, o importante é poder dar aos meus filhos um lugar seguro para viver.

– Obrigado e boa sorte para a vossa luta sr. Burrié.

– Obrigado pela oportunidade e bom dia para si.

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Futebol amaricado

Janeiro 9th, 2013

O futebol é jogado de várias formas um pouco por todo o mundo e é isso que faz dele o desporto mais popular do planeta, esta adaptabilidade às várias circunstâncias, preferências e necessidades.

Futebol de 5, de 7 ou de 11, feminino ou masculino, europeu ou americano, em relva, sintético ou pelado, na rua, no pavilhão ou na praia.

Dada a crescente influência do movimento gay em tudo o que se mexe na sociedade moderna, a FIFA está já a preparar uma nova variante do futebol direcionada para este “nicho de mercado”.

O futebol amaricado – assim será chamado em português – terá como principais fatores diferenciadores uma mudança visual radical e regras adaptadas.

O terreno de jogo será a primeira modificação, decorrendo os jogos num recinto de cor marfim, em alcatifa não abrasiva e brilhante.

À volta do campo, tabelas decoradas com papel de parede, ao gosto da equipa da casa, sendo os cantos ornados com bonitos arranjos florais e as balizas revestidas a veludo.

Os equipamentos serão em lycra justa à pele, de cores garridas, e no pés serão utilizadas somente sapatilhas de sola lisa, para não correr riscos de mazelas.

Todos os equipamentos deverão ser aprovados pelo Conselho de Estilo e ser assinados por um estilista de referência.

Os árbitros usarão apitos suaves, ao estilo flauta de pã, para as suas intervenções, e mostrarão lenços de seda mostarda e grená, em vez dos tradicionais cartões amarelos e vermelhos.

O jogo será dividido em 4 partes de 5 minutos cada, intervalado por três pequenas peças de teatro musical coreografadas com a duração de 15 minutos cada.

Importante também, por ser o objeto do jogo, a bola, que deverá ser de material insuflável, saltitona e com as cores do arco-irís, estando proibido o seu pontapeamento com muita força.

Fixem por isso, se pretenderem um dia ser atletas deste campeonato, a primeira e última regra escrita na sua forma original: não vale pastilhos!summer_beach_ball_pastel