Surrealismo noturno

Fevereiro 6th, 2014

O nosso cérebro tem um modo de funcionamento absolutamente excecional, que nos permite ser moderadamente racionais quando estamos conscientes, mas que permite uma autêntica revolução surrealista quado estamos a dormir.

Esse verdadeira jabardice cerebral que acontece durante o nosso sono, reflete-se nos mais originais sonhos, sendo que, infelizmente, não nos conseguimos lembrar da maioria deles.

Acontece que, quando alguém é obrigado a acordar temporariamente a meio da noite – para dar leite ou mudar a fralda a um bebé, por exemplo -, tem o inefável privilégio de irromper por esse chavascal sináptico dentro, assistindo em lugar privilegiado ao desenrolar desta surreal rambóia neuronal.

Não sei se já vos aconteceu, mas eu já dei por mim semi-acordado – ou meio a dormir, para ser mais exato – a observar a passagem pelo meu crâneo de pensamentos do género “vou ali agitar a bigorna rosa que lambeu o insuflável”, ou “verta-me aí uns narizes na porta de uma aldeia velha com gelo”, ou ainda “desviei-me de uma estrela cadente debaixo do guarda-chuva dos pinheirinhos”.

A maior parte das vezes tento voltar a estes pensamentos quando acordo, na tentativa de lhes fazer uma biópsia que revele algum sentido naquela junção de conceitos avulsos, mas já cheguei à conclusão que não vale a pena.

Estes vampiros da estupidez, além de dados ao regabofe, são camaleónicos, e conhecem os melhores esconderijos dentro da minha favela mental, o que os torna mais indetectáveis do que um piolho terrorista nas montanhas do Afeganistão.

Mas fica prometido que, se um dia conseguir apanhar algum em estado de conservação aceitável,  o venho aqui partilhar convosco, pode ser?

Pensando melhor, talvez haja melhores caminhos.

Vou encaixilhá-lo e depois vou-o enviar para a Christie’s para que o leiloem, porque pelos vistos isso é que dá muito dinheiro.

download

Acidentes estúpidos

Abril 9th, 2012

O denominador comum de um relato sobre qualquer tipo de acidente é o facto de este ser sempre descrito como sendo estúpido.

É tão comum esta adjetivação que conseguimos identificar a maior ou menor gravidade de um acidente pelo grau de estupidez alcançado pelo mesmo.

Um acidente menor, como um tropeção numas escadas, será descrito como um acidente estúpido, enquanto uma queda de uma ravina será descrito como uma estupidez de todo o tamanho.

O que fazer para modificar esta situação?

Os mais precipitados dirão que, se todos os acidentes são estúpidos, há que torná-los instruídos, criando portanto escolas especiais para acidentes, onde estes se possam sentar – atabalhoadamente, de certeza – nos bancos e aprender a ser menos estúpidos.

Mas o caminho não é por aí.

Temos que ir ao cerne da questão, que é a base de toda a estupidez dos acidentes, os criadores de tudo o que é estúpido à face da Terra, as pessoas.

É possível diminuir o índice de acidentes de todo o género fazendo uma campanha de desestupidificação coletiva.

Para quê gastar milhões em campanhas de segurança rodoviária com foco na diminuição da velocidade, se nos basta aumentar ligeiramente a inteligência da generalidade dos condutores?

Há que abandonar todo o avultado investimento em imposição de apertadas normas de segurança e higiene no trabalho e trazer para as empresas programas que permitam o exercitar dos marcadores somáticos dos trabalhadores.

É um trabalho que se prevê difícil, para um país com tanta gente com propensão ao acidente, mas pode ser que no final se passe a ouvir nos cafés as pessoas comentarem que um colega de trabalho morreu num acidente verdadeiramente astuto e perspicaz.