Fogo de artifício

Setembro 26th, 2013

Têm visto muito fogo de artifício pelas vossas terras ultimamente?

Eu tenho.

Cada vez mais.

Demasiado.

O que me impressiona é a capacidade que o fogo de artifício tem de distrair as pessoas do essencial, iludindo-as com as suas explosões de cor e o barulho do seu troar.

Quando maior for sua explosão e brilho, mais o povo abre a boca de espanto e bate palmas.

Uns batem mais palmas aos laranjas, outros aos rosas, outros preferem os azuis ou os vermelhos.

Discutem-se o tamanho das bolas, as novas formas luminosas, a aparente durabilidade e consistência de algumas luzes.

E aplaude-se cegamente.

Muito.

Poucos param, porém, para olhar além das luzes e perceber a essência deste fenómeno.

Começa pelo próprio nome, onde a palavra artifício claramente expõe as características de fingimento, artificialidade, astúcia e manha deste espetáculo.

Mas não faz mal, as pessoas gostam de ser enganadas e quanto maior é a envergadura da fraude mais elas aplaudem.

Depois há o custo que está implícito à produção de fogo de artifício.

Poucos se importam em saber que é extremamente caro produzir fogo de artifício.

Paradoxalmente, quanto mais em crise estamos, mais parece que os cidadãos deste território valorizam que se gaste dinheiro nestas coloridas explosões aéreas.

Quem paga isto tudo?

Não interessa.

O povo aplaude e distrai-se.

E o que fica, no fim do espetáculo de rua?

Nada.

Absolutamente nada.

O final aparece com estrondo, com um barulho ensurdecedor, e segue-se um pesado silêncio, o cheiro a queimado e um enorme buraco negro, para onde todos olham, à procura do vazio que lá ficou.

O aplauso cresce em intensidade e o povo vai feliz para casa, com a sensação de ter a alma aquecida por aquele fogo de vista, contando já os dias e preparando as canas, para dentro de pouco tempo os mestres pirotécnicos voltarem a fazê-los cegos de luz e som.

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Portugal não opina

Junho 7th, 2011

Uma grande parte dos meus concidadãos absteve-se de exercer o seu direito (e dever cívico, nunca é demais relembrar) de voto no último domingo, e isso é um fenómeno que me preocupa.

Há até quem se orgulhe de uma abstinência eleitoral prolongada, como se a sua opinião fosse tão importante que não merecesse ser partilhada com o resto do País.

São autênticos missionários do abstencionismo político, numa espécie de Cruzada, mas ao contrário, já que se recusam a fazer cruzes.

As pessoas queixam-se dos estado da nossa democracia e não participam, mas esquecem-se que é exactamente essa falta de participação que a levou a chegar ao seu estado actual.

Aflige-me viver num País em que será necessário haver uma tempestade de proporções bíblicas, um terramoto, uma peste ou uma série de fuzilamentos colectivos para haver uma grande afluência às urnas.

A participação cívica está a esvaziar-se rapidamente no associativismo, na solidariedade, nas manifestações culturais e até mesmo na religião, onde os portugueses se assumem secularmente como católicos… mas hoje em dia são não-praticantes.

A julgar pela baixa taxa de natalidade do nosso País, e assistindo a esta tendência pouco participativa das nossas gentes, começo até a pensar que apesar de se afirmarem na maioria heterossexuais, talvez os portugueses se fiquem só pela treta também neste campo.

Em suma e num desabafo: é triste viver num País em que não se opina.