Be Virgin

Junho 27th, 2011

– Boa tarde, o Dr. Rómulo está?

– Está sim, mas hoje é dia de consultas e o senhor doutor tem o dia cheio, posso ajudar?

– Não sei, acho que tem que ser mesmo com ele. Vinha aqui buscar a minha virgindade, porque o senhor doutor ficou-me com ela há uns tempos e depois disse-me para passar cá se precisasse dela.

– Pois, mas fez marcação?

– Fez, fez! Foram quase dois anos sempre atrás de mim, marcação cerradíssima, até que eu lá lha dei, mas só porque ele disse que depois ma devolvia se fosse preciso.

– E isso foi há quanto tempo?

– Há três meses.

– Ui! Mas assim não acredito que o doutor devolva, porque nós só fazemos devoluções até ao prazo máximo de um mês.

– Nem me diga uma coisa dessas, que eu preciso mesmo de ter isso de volta menina! É que na altura eu até nem tinha ninguém e nem notava a falta, mas entretanto conheci um rapazinho muito jeitosinho, que é sobrinho do padre que me confessa, e vou casar para a semana. E o que se passa é que sempre lhe disse que nesse dia lhe dava a virgindade a ele. Agora o que é que eu faço?

– A original não me parece mesmo que se consiga, até porque o doutor passado um tempo de as usar deita fora, mas eu costumo usar aquele pacote de experiências Be Virgin, que tem muitas soluções interessantes.

– Ai sim? E funcionam mesmo?

– Olhe, eu não tenho razão de queixa, ainda ontem usei aquela em que nos põem uns tomatinhos maduros de pele fraca, que rebentam muito bem e depois até têm nutrientes que fazem bem à pele e tudo, e o aspecto é magnífico, parece mesmo a sério. Sabe que quem namora muito está sempre a usar coisas destas.

– Namora muito, é?

– É. Infelizmente namoro muito, mas já estou a reduzir.

– Quantos namora?

– Agora já reduzi para um por semana e até já me sinto melhor. Houve alturas em que era um por dia, e então se saísse à noite eram dois ou três. Só no dia a seguir é que notava o que aquilo me fazia. Era um sufoco! Mas agora namoro muito menos e até estou a pensar em deixar de vez, porque isto faz muito mal à saúde.

– Acho que faz muito bem, eu só namorei algumas vezes, socialmente, e até nem gosto muito, sinto-me muito melada… não sei… é esquisito!

– O mal é que eu gosto sabe? Mas eu hei-de conseguir deixar! Voltando ao seu assunto, não me parece que o doutor vá encontrar a sua virgindade no meio da confusão que está naquele escritório, por isso faça como eu lhe disse e vai ver que o seu futuro marido nem se apercebe.

– De certeza?

– Absoluta, vá por mim.

– Vou experimentar então menina. Mas de qualquer das formas faça-me um favor e diga ao senhor doutor que eu cá vim, para o caso de ele encontrar aquilo me poder devolver ainda esta semana, está bem? O que é nosso tem sempre outro aspecto não é? E se for possível preferia não ter que usar outras coisas.

– Tem razão, vamos ver se é possível. Se houver novidades eu ligo, mas se não falarmos até lá: felicidades para o casamento!

– Obrigado menina.

Burocracia sexual

Março 11th, 2011

Há mais de dois anos escrevi aqui sobre uma profissão que acredito dever ser criada na administração pública, os Técnicos Oficiais de Sexo (TOS).

É uma ideia que nunca me abandonou o pensamento até que dei por mim a pensar como a máquina burocrática poderia dar cabo da vontade do cidadão em usufruir de tão necessário serviço público.

Vejamos um exemplo:

Cidadão (C): Boa tarde, é aqui que se faz a requisição de uma TOS?

Burocrata 1 (B1): Para que uso: único ou regular?

C: Se pudesse ser regular agradecia.

B1: Qual é a sua idade?

C: 46 anos.

B1: O senhor já consultou o seu médico?

C: Sim, até foi ele que me aconselhou a vir cá.

B1: Tem a guia consigo?

C: Tenho sim senhor, está aqui.

B1: Pois… mas aqui diz que o senhor só vai ter direito a uma utilização esporádica, porque é casado e não tem patologias de necessidade permanente.

C: Mas dou-me muito mal com a minha mulher e ela só faz missionário. E sempre a ver televisão. E no dia dos meus anos, se eu não estiver muito bêbado. E se os meus pais não tiverem ido lá a casa visitar-me nem me tenham telefonado.

B1: Isso é um problema que não podemos resolver amigo. Quanto mede?

C: 1,76m.

B1: E de pénis?

C: 12 cm.

B1: Então vai ter que ir ali ao meu colega, porque aqui só posso receber formulários de homens com mais de 1,80m ou com mais de 15cm de pénis.

C: Ok, obrigado.

Desloca-se até à caixa do Burocrata 2 (B2), onde se passa o mesmo diálogo ipsis verbis, até este ponto.

Aconselha-se portanto a re-leitura do texto acima, só para ter a certeza de que se percebe tudo e para não falhar nenhuma informação.

B2: Já esteve com alguma TOS antes?

C: Não, é a primeira vez.

B2: Então tem que ir ao 2º andar e falar com o meu colega que está no segundo corredor à direita, que é o responsável pelos processos de iniciação.

Corridinha rápida até ao Burocrata 3 (B3), novamente com o mesmo diálogo que, relembro, deverá ser lido novamente.

B3: Então está todo ansioso, ãh? (riso de burgesso)

C: Estou muito nervoso, eu até nem queria muito cá vir, mas o médico diz que me vai fazer bem.

B3. Vai sim senhor, digo-lhe eu! (novo riso burgesso). E então ainda é virgem com essa idade?

C: Não, até tenho dois filhos.

B3: Oh homem, então tem que ir a outro lado que aqui só trato de quem quer perder os três, pá! Veja lá isso com o meu colega aqui do gabinete ao lado.

Aí o senhor desloca-se para o gabinete ao lado, os do Burucrata 4 (B4), para dar andamento ao processo.

As perguntas começam todas novamente.

Será melhor talvez ler novamente o que ficou para cima, não vá ter-se esquecido de algum pormenor.

B4: E então vai ser uma loirinha não é?

C: Se pudesse escolher preferia a sôdona Soraia Chaves, se não se importa.

B4. Eh pá! Então se é com a Soraia não é aqui, que eu só posso tratar de processos de TOS loiras, caramba. Siga por favor neste corredor e bata na última porta que está lá o meu colega que trata das morenas.

E lá vai mais uma caminhada até ao Burocrata 5 (B5).

Não se esqueça de reler os diálogos acima, cujas perguntas voltaram a ser feitas nesta fase para depois poder prosseguir com a candidatura.

É sempre uma mais valia para o leitor ter tudo fresquinho na memória.

B5: Tem consigo o boletim de vacinas actualizado?

C: Sim.

B5: O teste de HIV?

C: Sim.

B5: O teste da Hepatite B?

C: Sim.

B5: Comprovativos de isenção se gonorreia, sífilis, herpes genital e chatos no pénis?

C: Sim.

B5: Atestado de ausência de sintomas de disfunção eréctil e/ou inaptidão sexual?

C: Sim.

B5: Declaração de não dívida à Segurança Social, Cartão de Cidadão actualizado, atestado de residência, formulários SEX70, TOS69 e BI6 preenchidos?

C: Sim.

B5: Desenhos manuais coloridos a quatro cores, em papel cavalinho 25gr, das posições que  se propõe a concretizar no acto, até um máximo de três posições?

C: Sim.

B5: Trouxe consigo o preservativo que vai usar?

C: Não. Não sabia que tinha que o mostrar.

B5: Pois, isso é considerado equipamento técnico que tem que ser verificado à priori. Só podemos dar seguimento ao processo depois de efectuada essa vistoria.

C: Mas eu posso ir num instante buscar isso à farmácia e volto já, pode ser?

B5: Agora não pode ser, porque fechamos daqui a 30 minutos e já não aceitamos mais ninguém hoje, Depois mete-se o fim-de-semana, que é prolongado por causa do feriado da próxima semana e portanto só na quarta-feira é que pode cá vir novamente.

C: E depois de trazer isso, é rápido?

B5: Depois de verificadas as condições de segurança do dispositivo a utilizar no seu pénis, tem que fazer um teste  no centro de inspecções que certifique que está apto para cumprir os procedimentos mecânicos de uma relação sexual eficaz e apresentar um documento que comprove não haver risco de aproximação sentimental à TOS. Depois vamos apreciar o seu processo e daqui a aproximadamente um ano damos resposta à sua candidatura.

C: E se entretanto a minha frustração sexual me causar algum tipo de distúrbio mental ou mesmo uma inflamação excessiva da zona testicular?

B5: Aí terá que ver como resolve isso por si ou ver se tem alguma amiga no ministério, porque as candidaturas são muitas e as TOS andam com demasiado trabalho.

C: E se optasse por um dos técnicos em vez de uma técnica?

B5: Aí os procedimentos são outros, mais complexos, e devo-lhe dizer que eles andam agora muito na moda e as requisições têm entrado aos milhares, portanto não vai ser mais rápido.

C: Então o melhor é…

B5: Mão.

C: E não há hipótese de…

B5: Mão.

C: Nem se eu tentar…

B5: Mão, meu amigo.

C: Pois é. É melhor é. Ok, muito obrigado.

B5: Não tem de quê.

D. Nina vai ao psicólogo

Janeiro 6th, 2011

D. Nina é uma doninha com fortes problemas psicológicos e dificuldades de integração, devido ao permanente mau cheiro que exala.

Na tentativa de superar esses seus complexos, como resolução de início de ano D. Nina (N) decidiu consultar o reputado psicólogo Dr. Vicente (V), o texugo.

V – Bom dia D. Nina! Ora então o que é que a traz aqui?

N – É uma coisa que me perturba muito sôtor. Até tenho dificuldade em dizer, de tão envergonhada que fico.

V – Mas olhe que aqui não pode haver vergonha, porque senão não a posso ajudar. Diga-me lá o que se passa.

N – Ó sôtor… é que é tão embaraçoso! … Mas cá vai. Eu passo a vida a feder sôtor! Em qualquer lado, quando menos se espera, vai-se a ver… e lá estou eu a feder outra vez!

V – Já falou a alguém sobre esta… hmmm… situação?

N – Já sôtor, mas é sempre a mesma coisa. Ninguém me compreende e até parece que é pecado feder muito. Chamam-me nomes…

V – Que tipo de nomes?

N – Nomes muito feios. Primeiro era “fedorenta”. Já me chamaram isso tantas vezes que até me comecei a habituar, mas agora apareceu um pássaro que me chama de “fedilhona” e isso tira-me mesmo do sério! Às vezes sonho que tenho um poder divino que me permita mandar toda a gente feder, para eu poder passar despercebida.

V – Pois… compreendo. Diga-me D. Nina, a sua situação ocorre-lhe de forma espontânea?

N – Sim sôtor. E o pior é que não me consigo controlar quase nunca.

V – E agora? Está aqui e não está a feder!

N – Pois não sôtor, mas olhe que estou a fazer um esforço enorme por respeito ao senhor. Até já sinto a cauda a arder! Parece que os calores me sobem pela espinha! Mas vou-me controlar. Prometo. Isto tem é que ser rápido, sôtor.

V – Vai ser, vai ser. Agradeço-lhe a atenção, até porque tenho outros pacientes lá fora e podia ser embaraçoso. Diga-me uma coisa D. Nina… há alguma ocasião em que consiga feder sem sentir culpa?

N – A única ocasião em que me sinto mais à vontade é quando vou visitar o meu amigo Tó à pocilga.

V – E então porquê?

N – Deve ser por ele também feder muito. Quando estou em casa dele não me sinto tão mal. Ele compreende-me muito bem.

V – E então porque é que não se muda para casa desse seu amigo? Passa a feder só com ele e assim talvez até seja melhor para os dois.

N – Ó sôtor, o Tó é um velho amigo, mas não passa disso. Tenho um bocado de medo de estragar essa amizade se começo a feder em exclusividade na casa dele. Não sei se ele está preparado e mesmo eu não sei se aguentaria.

V – Então tem que aproveitar essa sua situação de alguma forma. Já pensou ganhar a vida a feder?

N – Como?

V – Há pessoas com todo o tipo de fetiches. Pode haver alguém disposto a pagar para a ver feder. Ou então pode criar uma espécie de “apanhados” em que vai feder para um centro comercial cheio de gente e filma a reacção das pessoas. Acha boa ideia?

N – É bem visto, é. Nunca me passaria isso pela cabeça! Vou averiguar essa hipótese sôtor. Muito obrigado pela ajuda.

V – Não tem nada que agradecer. Tudo de bom para si D. Nina. E bom ano!

N – Bom ano sôtor.

Kagame

Agosto 10th, 2010

Gostava de presenciar o diálogo, e posterior reacção do nosso primeiro-ministro, se lhe fosse apresentado espontaneamente o recém-eleito presidente do Ruanda.

Virando-se de repente e estendendo a mão, diria:

– Hello, Sócrates.

Ao que o outro responderia:

– Hello, Kagame.

A cara do senhor nesta fotografia ainda torna mais prometedor este momento bonito, sem dúvida.

E se passasse pela cabeça do nosso primeiro-ministro que o tom de pele do senhor ruandês se devia a ele já ter sido apresentado a mais portugueses solícitos anteriormente?

Aquele momento constrangedor em que limpa a mão ao casaco disfarçadamente e aproveita a primeira abébia para cheirar os dedos… que delícia de imagem mental!

Outra particularidade interessante deste senhor é que, visitado o seu site pessoal, não deixa de parecer estranha a colocação do punho branco fechado, donde parece sair, mais ao menos a meio, uma faixa branca e estreita, onde está inscrita a letra P.

Será, pergunto eu, um P de “pirete”?

Sindicalista explosivo

Fevereiro 9th, 2010

– Muito boa tarde. Estamos em directo de Óbidos, onde há poucos dias foi desmantelada uma fabrica de bombas da ETA e temos aqui connosco o senhor Eliseu Estoura, presidente do SOBI, Sindicato dos Operários Bombistas Ibéricos…

– Secretário-geral.

– Secretário-geral, peço desculpa. O que tem a dizer sobre o encerramento desta fábrica sr. Estoura?

– Olhe, eu acho que tá mal! O País está no estado em que está, toda a gente sabe disso, o investimento estraungeiro tá tuodo a ir prós romenos ou prá China, e assim que alguém quer pôr aqui dinheiro, cum boa buntade, daum-lhe cabo do negócio. Num acho beim e acho qué mau.

– E como se sente ao ver acabar com os postos de trabalho que tinham sido criados recentemente?

– Ó amigo! Parece que me implode o coraçoum…

– Isso até nem é mau, porque não faz muitos destroços no resto corpo não é?

– …

– Peço desculpa por interromper, continue por favor.

– Ora bem, o que eu taba a dizer é que me sinto mal, porque é gente jobem, que quer pôr a vida a bombar e num lhe daum oportunidades, tá a cumprender? Deixam-nos por aí aos caídos, parecem mochilas abandonadas… E mais! Num sei porque  continuo a perseguir os trabalhadores… ãh?!… porque num me lembro, por exemplo, quando fecharam outras fábricas, de ver na televisoum e na rádio fotografias dos trabalhadores que despedirum! E dos administradores da ETA taumbeim num vejo fotografias em lado ninhum!

– É a estas fotografias que se refere?

– É sim senhor, já veu isso? Tem algum jeito?

– O que me pode dizer da ETA?

– Eu acho que nessa o rapaz deve ter dormido mal e por isso…

– Não, não é esta fotografia. Perguntava-lhe sobre a organização que geria a fábrica… a ETA?

– É uma bregonha. Nós já tínhamos informações que isto ia acontecer mais dia menos dia e tentamos inclusivelmente… ãh?!… ligar par lá e falar com os senhores. Num sei porquê, nunca conseguimos, parece que se escondem e ando sempre a fugir ou assim. Ma nós já tamos habituados, porque o patronato é sempre assim e nunca tenta arranjar acordos cum os sindicatos. Além disso dão munto más condições de trabalho: fábricas sem janelas, sítios de difícil acesso, não podem usar o chuveiro nem pentes e o lenço que usam ao pescoço tem que servir taumbeim para assoar o nariz e servir de garrote para quem precisar. Uma desgraça.

– Está mau o negócio para o vosso sector?

– Tá! Aqui em Portugal tá munto mau, porque num se dá o devido valor. Os das bombas de gasolina, por exemplo, podem ganhar dinheiro como tudo e aundar aí em bons carros e assim. Nós, se quisernos fazer vida, temos que emigrar pá Arábia ou assim, ou viver de bombinhas de Carnaval que só dá uns tostões. Num tá correcto. Olhe, ás vezes apetece é rebentar cum tudo e ir embora de vez, sabe?

– Muito obrigado sr. Estoura, por nos ter ajudado a perceber melhor os problemas dos trabalhadores.

– Obrigado sou eu, e queria taumbeim agardecer ao director da prisão de Custóias, por me ter emprestado a carrinha celular pa vir aqui hoje.

– Boa tarde.

– Boa tarde.