Amuo na festa

Outubro 6th, 2011

Na casa de banho, a meio de uma festa:

– Que se passa Rafinha? Sentes-te bem?

– Nem por isso. Dói-me muito a barriga!

– Já fizeste cocó?

– Não é isso. Estou mal disposto.

– Bebes-te muito?

– 3 flutes de Champomy e um shot de Trina Limão. Mas já tinha bebido meio litro de groselha em casa…

– Pois! As misturas! Já se sabe! Eu fiquei-me só pelo Champomy e estou aqui impecável.

– Mas desconfio que o segurança é que me pôs assim. Quando me pegou pelas mãos e me pôr a rodopiar e depois me atirou para cima do sofá.

– Ei! A sério? E que tinhas feito tu?

– Nada. A sério. O gajo chegou à minha beira vindo do nada e pegou em mim. Só.

– Fogo. Eu nem vi nenhum segurança.

– O tipo é estranho. Com uma peruca verde e um nariz vermelho.

– Eh eh eh eh eh! O palhaço?

– Sim. É um palhaço! Deve ter a mania que é o maior lá da rua dele!

– Estava a brincar contigo de certeza, ele não é segurança, só está aqui para nos divertir.

– É… mas a mim pôs-me enjoado! Ouve… e a música também não ajuda nada. Quem é que contratou este gajo?

– Não gostas?

– Olha lá, a música do Ruca a seguir ao genérico do Digimon? Tás a gozar comigo? Este gajo devia ser proibido de pôr música!

– Não é um gajo, é uma menina.

– Eu vi logo. Modernices. até admira ter passado o Ruca então. Daqui a um bocado é só Barbies e Kittys e anda tudo aí com bonecas.

– Não sejas assim- Olha que ela é bem fixe. Até me trouxe um brinquedo novo e tudo.

– Uiiii! O Danizinho gosta de brincar com as meninas. Uiiii! Nunca pensei que fosses desses.

– Chiiiiiiu! Não comeces com isso! É um Matchbox último modelo que o pai lhe trouxe da América. Querias que dissesse que não?

– Tens aí?

– Tenho. Queres ver? Olha.

– Eia! Que fixe! E não me ias dizer nada? Vamos brincar?

– Ok. Limpa a boca e puxa o autoclismo.

– Não chego lá.

– Chama a tua irmã.

– Isso! ISAAAAAURA! ANDA PUXAR O AUTOCLIIIIISMO! Vamos brincar?

– Bora.

Verão atrasado

Outubro 3rd, 2011

– Bom dia! Finalmente cheguei caramba. Estava a ver que não era este ano.

– Ui! Ó xô Verão, o xôr está atrasadíssimo! Já viu que dia é hoje?

– Eu sei, eu sei, mas tive uns problemas intestinais antes de sair de casa e quando saí já estava um trânsito terrível ali a partir do Trópico de Cancer, de maneiras que vi-me aflito para chegar cá, não é? Mas não há problemas pois não?

– Eh pá, não sei! O chefe nem pode ouvir falar em si, caraças. Isto tem sido reclamações em cima de reclamações, tudo a querer sol e calor, e nós aqui em stock só tínhamos uma chuvita que o Inverno nos tinha deixado e uma brisasita que tinha sobrado à Primavera. Está a ver o que isto foi, não é?

– Imagino, desculpem lá, mas não tive mesmo hipótese de chegar mais cedo. Ainda tentei ligar, mas disseram-me que estava tudo para férias.

– Pois, que as pessoas têm a sua vida já marcada não é?

– Mas ainda vamos a tempo de remediar isto, não vamos?

– Não sei xô Verão. Sabe que não é fácil manter a estrutura toda activa até esta altura do ano. O chefe já mandou embora os nadadores-salvadores, diminuiu ao número de bombeiros, recolheu as esplanadas e barracas de praia, suspendeu a produção de gelados, mandou coser mangas às t-shirts que sobraram. Não vai ser fácil!

– Que maçada pá! Temos trabalhado tão bem nos outros anos, tinha agora que acontecer isto. Não queria nada que ficassem chateados comigo, pá. Fazemos assim, fico cá esta semanita e vemos como corre. Se entretanto a coisa não pegar, vou à minha vidinha outra vez, pode ser?

– Ó xô Verão, eu por mim o xôr ficava aqui o ano inteiro, já sabe, que eu gosto muito de si. Mas não me parece fácil. Fique lá esta semaninha e depois vê-se então, mas não lhe prometo nada, que o chefe quando souber que está cá, parece que já estou a ouvir a trovoada, caraças!

– Vamos lá ver, pode ser que não. Obrigado pela sua atenção.

– Não tem nada que agradecer, mas para o ano venha lá a tempo está bem?

– Vou tentar, vou ver se para o ano saio um bocadinho mais cedo e apanho o das seis e meia.

– Dê um toque quando sair, que assim preparamos tudo a contar com isso, pode ser?

– Está prometido.

Verão fresquinho

Agosto 2nd, 2011

– Bom dia sr. Amílcar! Queria um Verão se faz favor.

– Ó menina, beio mesmo na alturinha certa. Tenho aqui um qui é uma marabilha!

– E é de hoje?

– É sim sinhora! Fresquinho que só ele!

– Fresquinho? Não é melhor quentinho?

– Nem pinsar! Isso era dauntes! Agora é assim que os serbimos: fresquinhos e molhadinhos pu dentro.

– Ai é? Não sabia. E acompanho com um Solzinho?

– Não! Num pode sere, senoum estraga o Beroum.

– Mas eu costumava ir para a praia com um Verão quentinho e um Solzinho e sabia-me muito bem!

– Mas era munto mau pa bocê! Não tem oubido as notícias? Beja lá que se tiber sol só pode estar na praia até às 11h e boltar depois das 17h. Assim pode ir a calquer hora. É munto milhor!

– Se calhar tem razão. Então dê-me lá esse Verão que estou mortinha por sentir a areia nos pés. Mas veja lá se está mesmo fresquinho e húmido, está bem?

– Claro que sim menina. Nem lho daba se num fuosse do milhor! E bou-lhe pôr na saquinha uns lenços de papel e uma mão cheia de antigripais, que são oferta da casa.

– Muito obrigada sr. Amílcar.

Restaurante “Lonely Wolf”

Julho 19th, 2011

O restaurante Lonely Wolf, perdido algures no deserto que circunda Las Vegas, está a dar que falar pelo seu conceito inovador, absolutamente focado na satisfação plena de todas as necessidades do cliente.

Vejamos o diálogo abaixo – traduzido livremente para melhor compreensão – onde está bem patente o nível de inovação deste palácio dos sabores.

– Já escolheu?

– Sim, sim. Vou comer a picanha.

– Com feijão preto e couve mineira?

– Pode ser. E um bocadinho de arroz branco.

– Basmati?

– Sim.

– E para acompanhar?

– Para acompanhar pode ser uma núbia caribenha, bem tostadinha, por favor.

– Com picante ou sem picante?

– Traga o picante à parte, se não se importa. Elas já são quentes demais ao natural e não quero exagerar.

– Vai desejar alguma entrada?

– Desejo sim senhor! Uma portuguesinha da costa, das mais pequeninas, mas peça ao chef para pôr extra sal, que elas têm saído um bocadinho insossas ultimamente. E umas ameijoas.

– E para beber?

– Tomo o mesmo que a menina.

No final da refeição, o empregado de mesa dirige-se de novo ao cliente.

– Estava tudo bem?

– Sim, bastante bem. A núbia podia ser um bocadinho mais quentinha… mas com o picante ficou bem, não se preocupe.

– Vou informar o chef e pedir para ter isso em atenção da próxima vez, peço desculpa. Vai desejar sobremesa?

– Vou experimentar o vosso sonho de chocolate em cama de ovos moles e framboesas.

– E sobre a mesa?

– Também, sim. Acho que ainda arranjo um espacinho para o vosso misto asiático. Mas só duas! Sem creme, que já chega de calorias. Pode ser?

– Sim senhor. Duas bolas de gelado em cima?

– Não, só um saquinho de gelo, para pôr em baixo, por favor.

– E no final, um digestivozinho?

– Sim. Qualquer coisa da Real Companhia Velha.

Como viram, nada é descurado neste restaurante, um dos mais fortes candidatos a ser premiado nos guias de várias especialidades, integrando simultaneamente os guias “Boa Cama“, “Boa Vida” e “Boa Mesa“.

Uma experiência gastronómica inolvidável, certamente.

T-shirts marcadas

Junho 29th, 2011

É um desafio titânico tentar comprar uma t-shirt original e de boa qualidade nas lojas de marcas conhecidas, nos centros comerciais.

Isto porque aparentemente saíram de linha os modelos em que o tecido não tenha sido invadido por letras com o nome da marca em tamanho gigante, para que não passe despercebido ao mais distraído dos transeuntes.

Qual é o interesse de comprar uma peça de roupa que tenha inscrita em letras garrafais a marca que estamos a usar?

Parece que todas as marcas se lembraram de transformar os seus clientes em outdoors ambulantes, tal como se fazia antigamente com aqueles painéis sanduíche que se punham em cima das pessoas, que depois andavam na rua a espalhar a mensagem desejada.

Acho piada que há quem ache parolo andar com uma t-shirt de um clube de futebol, mas não se importa nada de ter uma marca de roupa a ocupar toda a parte da frente de uma t-shirt!

Diz que é fashion, ao que parece.

Não consigo perceber porque é que se está a pagar tanto para fazer publicidade a uma marca.

No sentido exactamente contrário ao que é suposto acontecer, o cliente está a pagar para fazer publicidade de borla à marca.

Não devia ser ao contrário?

– Se não se importar de ter a nossa marca estampada em 85% da parte visível da sua t-shirt nós damos-lhe 34€.

– Não sei, parece-me pouco. Ainda ontem pedi um orçamento para um outdoor aqui à entrada do centro comercial e pediram-me 700€ por mês. E é fixo, não anda por toda a cidade! Ora como eu espero usar esta peça pelo menos 10 vezes acho que podemos negociar a partir de 230€, que me diz?

– Infelizmente só lhe podemos dar até 100€. Mesmo em saldos só podemos oferecer até 200€. Com esta crise temos que cortar um bocadinho no orçamento para publicidade, como com certeza compreenderá.

– Fazemos assim, como eu gosto muito da cor e simpatizo com a menina porque tem um busto apetecível, ficamos pelos 100€ e o seu número de telefone, e assim eu levo a t-shirt, pode ser?

– Muito bem. O meu número é o 936###### e aqui estão os seus 100€. Pedimos só que não adultere a t-shirt e nem a dê assinar a nenhuma celebridade porque pode ser alguém com quem a nossa marca não se identifique e isso poderá prejudicar a nossa imagem.

– Ok, obrigado. Logo falamos então.