Moncocausto

Janeiro 24th, 2013

Hoje temos conosco Frederico Burrié, presidente do MAM (Movimento de Alerta para o Moncocausto) que irá hoje fazer uma intervenção na ONU para dar conta das suas preocupações.

– Sr. Burrié, bom dia, qual é a mensagem que traz hoje à Nações Unidas?

– Bom dia! Olhe, o que nos traz aqui hoje é a necessidade de alertar o Mundo para o verdadeiro Moncocausto a que assistimos diariamente, sem que ninguém faça nada para o travar.

– Moncocausto é um expressão com a qual os nossos leitores talvez não estejam familiarizados, quer-nos explicar o que é?

– É a erradicação massiva e/ou deslocação involuntária de moncos, ou mucosidades nasais secas se preferir, das cavidades ou fossas nasais.

– E de que forma é que isso é feito?

– Olhe, isso é feito geralmente de forma manual, com a inserção do indicador para remoção das mucosidades secas da narina, nas mais variadas situações: no carro, na casa de banho, a ver televisão, … por todo o lado vemos seres humanos a esgravatar as fossas nasais extraindo moncos que não estão ali a fazer mal a ninguém.

– É portanto algo comum na sociedade.

– Evidente! É um flagelo diário. Um genocídio da nossa espécie que acontece por todo o lado, apesar de muitos o negarem.

– Não serão os moncos perigosos para a saúde dos humanos, no sentido em que obstruem as vias respiratórias?

– Isso é uma falsa questão! Nunca ninguém nos pediu que nos desviássemos, porque senão tínha-mo-lo feito. Somos secreções que gostamos de gerar consensos e não nos custava nada desviar um pouco para passagem de ar se alguém, alguma vez, nos tivesse pedido para o fazer.

– E se for alegado que vocês são saborosos e nutritivos, devendo por isso ser encarados como víveres?

– Só aceito esse argumento quando me mostrarem uma roda dos alimentos onde estejamos representados e um prato confecionado à base de moncos num restaurante com pelo menos uma estrela Michelin. Tudo o que for fora disso é pura demagogia e especulação.

– O que é que acontece às mucosidades secas depois de removidas das cavidades nasais?

– A maioria é realojada na cavidade bocal, mas não existem condições de habitação ali nem em nenhuma localidade do sistema digestivo. Sítios muito húmidos, escuros, sempre com comida a entrar e a sair e com um cheiro que não se aguenta. Demasiadamente insalubres para nós, que necessitamos de sítios com pilosidades que filtrem quem entra e quem sai, com vista para a rua e onde se possa estar sossegado. Os mais desafortunados são mandados para outras fossas, como as sépticas por exemplo, ou mesmo colados em cadeiras ou postos na borda de pratos, onde é absolutamente impossível manter uma família.

– O que é que vêm aqui solicitar então?

– Em primeiro lugar o recenseamento universal obrigatório dos moncos, para que se possa identificar com maior acuidade o desaparecimento de algum. Em segundo lugar, a criminalização da erradicação ou realojamento involuntário de moncos. Temos que parar de uma vez por todas com este verdadeiro Moncocausto. Em terceiro, que nos deixem de chamar macacos, porque estamos fartos que nos venham buscar para levantar carros sempre que fura um pneu.

– Como seria o Mundo ideal para si?

– Um planeta que me permitisse estar tranquilo com a minha mulher e os meus filhos num sítio confortável e sem medo de ser removido abruptamente e contra a minha vontade. E escusa de ser num Júlio Isidro, que sou gente modesta, o importante é poder dar aos meus filhos um lugar seguro para viver.

– Obrigado e boa sorte para a vossa luta sr. Burrié.

– Obrigado pela oportunidade e bom dia para si.

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Bullying espiritual

Dezembro 6th, 2012

– Hoje temos connosco no programa Alpistas do Crime, o senhor Sebastião Corvo, que tem algumas reclamações a fazer relativamente ao estado da justiça portuguesa. Senhor Sebastião, boa madrugada, o senhor sente que a justiça não se faz neste País, não é assim?

– É assim, sim, Simão. A justiça não se faz, nem deixa que outros a façam.

– Quer-nos explicar o que o  leva a estar tão triste com a justiça?

– Quero, sim, Simão. O que se passa é que eu sou vítima de bullying espiritual já há muito tempo, tenho-me queixado frequentemente às autoridades e ninguém faz nada para pôr fim a este suplício.

– Pode-nos explicar o que é o bullying espiritual?

– Sim. É simples, Simão. Há já muito tempo que uma dúvida me assalta o espírito. É recorrente. Uma, outra vez e mais outra. Quando tive a certeza de que se tratava já de bullying e não apenas de uma dúvida obcessiva-compulsiva recorri às autoridades.

– E que resposta obteve?

– Silêncio sibilino Simão. Ficaram ali especados a olhar para mim fixamente durante três ou quatro minutos, quase como se estivéssemos a jogar ao sério, até que um dos polícias teve que ir dar uma farpa à rua e o outro, para não ficarmos em ambiente elevador, meteu conversa e disse que isso não era nada com eles e que devia ir a um psicólogo ou assim.

– Ou assim?

– Ou assim, sim, Simão!

– E o que fez a seguir?

– A seguir sumi Simão. Fui à minha vida. Mas depois continuaram os assaltos da dúvida ao meu espírito. O meu espírito começou a ficar amedrontado, a acordar á noite com suores frios e a fazer chichi na alma e a minha vida nunca mais foi a mesma. Voltei a queixar-me às autoridades cerca de 23 vezes, e nunca obtive qualquer tipo de reação da parte deles.

– Como acha que se resolve o problema?

– Só ao soco Simão! O que eu queria mesmo era ver a dúvida atrás das grades, que é onde pertence, mas a continuar assim só ao soco.

– Olhe, mas hoje temos uma surpresa para si Sebastião. Abram a porta número 2 para vermos o que lá está, por favor!

(Abre-se a porta número 2 e vê-se a dúvida vestida de presidiário, por trás das grades)

Está contente Sebastião?

– Sim, surpreendido e satisfeito Simão! Que vida descansada que vou ter agora, Já vou poder voar como dantes e picar miolos de cabra como antigamente. Que alegria! Muito obrigado ao Simão e à produção do Alpistas do Crime, que foram sempre impecáveis.

– Não tem nada que agradecer. estamos cá para isto. Quanto a si, que nos segue atentamente, bons sonhos e até ao próximo programa.

Não chamem nomes aos animais

Novembro 13th, 2012

Nos últimos tempos tem-se acentuado a contestação social e isso terá feito esgotar a paciência dos animais, que veem frequentemente associados os seus nomes a adjetivos pouco edificantes, como forma de insulto para os sujeitos visados.

Temos hoje connosco o Dr. Tó Reco, presidente do movimento “Não chamem nomes aos animais”.

– Boa noite Dr. Tó. O vosso movimento está agastado com a permanente  associação de adjetivos pouco abonatórios aos vossos nomes. Pode-me dar exemplos desta prática?

 – Claro que sim. Tornou-se um hábito quase. Veja nas manifestações – e comecemos por um caso que me diz muito – a quantidade de vezes que os políticos são chamados de porcos fascistas. Diga-me por favor quando é que viu algum porco a saudar uma bandeira nazi ou a desfilar com a mocidade portuguesa? Nunca! E no entanto a expressão popularizou-se. Outra: porco chauvinista. Nem sei o que é chauvina, como é que podia ser chauvinista!?!

– E isso incomoda-o?

– É evidente! Imagine que era consigo. as pessoas andarem por aí a associar a sua personagem humana amaricada aos ideais fascistas. Queria ver se gostava de ver as pessoas andarem por aí a gritar “Panisgas fascistas! Panisgas fascistas!” ?!?

– Tem razão. Que horror! Até porque nós preferimos ser chamados de homosexuais.

– Tá a ver? Também nós preferimos que nos chamem suínos, mas isso até já damos de barato!

– E é só com os suínos que acontecem estas associações?

– Nem pensar! Já ouviu de certeza expressões como “vaca mal cheirosa”, “cabra interesseira”, raposa matreira”, “burro teimoso”, “pato bravo”, “rato cobarde” ou “cão raivoso”, isto só para mencionar alguns. Ora isto tem que acabar, porque a maior parte dos animais é digno, honesto e não tem nada a ver com estes epítetos.

– E então o que é que vocês querem que seja feito?

– Sabemos que será difícil que as pessoas deixem de usar as expressões, mas ao menos que sejamos ressarcidos monetariamente pelo constante vilipendiar da nossa imagem.

– De que forma?

– Criando uma taxa anti-adjetivação perjorativa dos animais, cujas receitas reverterão a favor do nosso movimento.

– Basicamente, o que vos move é o dinheiro.

– Nem pensar nisso! Mais ou menos. Estamos em crise, não sei se sabe. Sim. É um bocadinho isso.

– E as questões éticas e morais que levantaram? Deixam de interessar?

– Não vamos fazer mais comentários, porque denoto alguma má vontade da sua parte.

– Deixa de fazer sentido a vossa indignação, já que os vossos valores ficam corrompidos.

– Não vá por aí caro amigo, que ainda se aleija!

– A nobreza da vossa ação esvazia-se e…

– Olha o c@?@/#0 do homem, hã!? Deixe-se de ser fuínha e meta-se na sua vida! Paneleiro de m€?&a!

Comida saudável

Julho 16th, 2012

– Bom dia senhores telespetadores. Em tempo de Verão aumentam os cuidados com a saúde. Por isso temos hoje connosco no programa o Dr. Elói, que nos vem falar de bons hábitos alimentares. Bom dia Dr. Elói!

– Bom dia Ginginha!

– Hoje vem falar-nos de comida saudável, não é?

– É verdade. Muita gente fala de comida saudável e pouca gente acerta naquilo que diz.

– Como assim?

– Eu explico. As pessoas que hoje se apresentam como nutricionistas ou dietistas, estão muita vezes enganados quanto ao próprio conceito de comida saudável. Comida saudável, como o próprio nome indica, é a comida que pode ser saudada ou que dá vontade de saudar.

– Ora aí está uma abordagem diferente, Dr. Elói.

– Diferente e acertada! Veja bem Ginginha, quando entra numa sala e vê pessoas mirradinhas, secas ou azedas, apetece-lhe saudá-las?

– Não.

– Isso é algo que lhe faça bem? Que a ponha bem disposta? Essas pessoas fazem-na sentir melhor? Contribuem para o seu bem estar?

– Não, de facto não.

– Pois com a comida é a mesma coisa. Se vê uma pêra mirrada, um pão seco ou um leite azedo não vai sentir vontade de os cumprimentar. Como consequência, não vai criar a devida empatia com esses alimentos e portanto eles não lhe vão fazer bem. Pelo contrário, se vir uma alface viçosa, uma maçã rijinha ou um doce croissant vai sentir naturalmente vontade de os cumprimentar com um sorriso aberto e consegue assim uma relação com os alimentos, que fará com que estes a tratem muito melhor.

– Portanto, o que no está a querer dizer é que devemos saudar a comida com bom aspeto e criar com ela uma relação positiva, para que essa comida nos faça bem, é isso?

– Exatamente. São esses os benefícios da comida saudável. Melhor ainda, não tem que andar preocupada com quantas calorias determinado alimento tem. Se tiver bom aspeto e lhe der vontade de a saudar, ela vai-lhe fazer bem de certeza.

– Mesmo os doces e o álcool?

– Claro que sim! Experimente abrir um boião com doces apetitosos e dizer de forma enérgica “Bom dia caramelo!”. Vai ver que esse caramelo vai ficar tão contente por ser saudado dessa forma, que se sentirá na obrigação de contribuir para o seu bem estar. “Olá senhor bagaço!” ou “Ora viva meu amigo suspiro recheado com doce de ovos e pepitas de chocolate!” são outros exemplos de uma abordagem saudável à comida.

– Então quer dizer que, a partir de uma saudação da comida, estabelece-se uma relação com óbvias vantagens para a saúde dos humanos, é isso?

– Exatamente.

– E como sabemos se estamos perante comida saudável?

– Pelo aspeto percebe logo, acredite. Não se pode é guiar por alguns preconceitos que se têm vindo a instituir relativamente a alguns alimentos que, apesar do inegável bom aspeto, as pessoas teimam em ostracizar.

– Isso que dizer que se me deparar com um simpático cozido à portuguesa ou uma jovial terrina de gomas não devo resistir, mas sim saudá-los alegremente?

– Sim, à partida esses exemplos enquadram-se naquilo que eu considero ser comida saudável, seguramente.

– Fantástico. Dr. Elói. Muito obrigado pela sua ajuda. Bom dia para si.

– Um excelente dia para si Ginjinha!

Leôncio, o chulo em greve de fome

Junho 11th, 2012

Leôncio van Helsing é um chulo.

Aquilo que poderia ser uma frase ofensiva para qualquer homem, na verdade é uma constatação e um orgulho para ele.

Leôncio sempre olhou o pai, Ludwig van Helsing – dono da maior cadeia bordeleira holandesa, a Cum Inn -, como um modelo a seguir.

Tanto ele como o irmão – Florindo – sempre quiseram seguir as pisadas do seu ídolo.

No seu fim de vida, Ludwig caiu nas malhas do jogo ilegal e foi assassinado após as suas dívidas chegarem a um ponto não resgatável pelo Banco Central Europeu, tendo Leôncio e Florindo sido obrigados a fugir para a terra de sua mãe, Carminda, portuguesa da região de Setúbal.

Tiveram então que se adaptar à nova realidade, a um país estranho, com leis diferentes, e à necessidade de trabalhar para sobreviver.

O único legado que o seu pai lhes deixou foi a sua enorme experiência de vida e o savoir-faire na arte da chulice.

O grande problema de consciência de Leôncio começa aqui.

A prostituição é proibida em Portugal, o que implica exercer a sua profissão na clandestinidade.

Leôncio nunca foi dado a patranhas, sempre foi extremamente correto, leal e defensor da transparência nos negócios.

Florindo sempre foi mais dado a esquemas, ao recurso ao engano, ao desvio e à aldrabice.

Os seus caminhos separaram-se aqui.

Leôncio assumiu que a clandestinidade ainda tinha alguma coisa de nobre e que seria a melhor forma de dignificar a memória do pai, enquanto Florindo descambou e lançou-se numa carreira política no sistema partidário português.

Há cinco dias atrás, passados dez anos sobre o início da sua carreira em Portugal, Leôncio começou uma greve de fome, para salvar o seu negócio da penúria.

Encontramo-lo no Cais do Sodré, a beber umas minis.

– Boa tarde senhor Leôncio. Começou há cinco dias uma greve de fome. Mas continua a beber minis?

– Meu caro amigo, a greve é de fome, não é de sede.

– Isso não lhe faz mal? Não teme pela sua saúde?

– Nem pensar nisso. Primeiro: sempre que bebo faço um brinde á minha saúde. Segundo: a cerveja tem lúpulo e cevada, que são dois alimentos bestiais. Terceiro: a cerveja faz-me esquecer que tenho fome. É uma alegria! Quando estou mais à rasca bebo um vinhito, para ir buscar proteína à uva, uma amarguinha por causa dos hidratos de carbono da amêndoa, ou um whisky… de malte.

– Está a fazer esta greve para chamar a atenção? É a crise a bater-lhe à porta?

– Não, não é a crise. Esta é de facto uma medida que visa salvar o meu negócio, mas não tem nada a ver com a crise. Aliás, nunca o negócio me correu tão bem! Estou a encher – perdoe-me a expressão – o cú de dinheiro.

– Salvo seja.

– Não, não! Efetivamente. Não posso pôr o dinheiro debaixo do colchão porque nunca se sabe quem vai lá parar, neste negócio. Nos bancos também não acredito, de maneiras que tenho mesmo que o meter – perdoe-me a expressão – no cú, não é? É o sítio mais seguro, porque aqui ninguém mexe sem eu deixar.

– E isso não o deixa muito cheio?

– Não, devido ao tipo de alimentos que normalmente ingiro, que são de muito fácil digestão. Só tenho que ter o cuidado de enrolar bem as notas em papel, para não manchar.

– Sendo assim, é uma boa solução, sim senhor. Mas se não é por causa da crise, se o negócio está a correr tão bem, o que o motiva a fazer uma greve de fome? É um apelo à legalização do seu negócio?

– Não tenho nenhum interesse em legalizar o meu negócio meu amigo! Assim não pago impostos e ninguém sabe o que faço ou deixo de fazer. Tenho ainda a vantagem de que, se alguma das minhas meninas desaparece, ninguém me chateia a cabeça.

– Costumam desaparecer muitas?

– Pois aí é que está o meu problema! O meu negócio vai mal porque as meninas me desaparecem.

– São raptadas? Fogem para outros países? Ou é uma guerra entre chulos, pelas melhores meninas?

. Nada disso meu caro. Muito pior do que isso. O meu problema é que me foi diagnosticada antropofagia.

– Ui! Isso é que é mau, caramba! Vai-me perdoar, mas isso é exatamente o quê?

– Como gajas. Não consigo resistir a afiambrar as meninas.

– Salvo seja.

– Não, não! Efetivamente. Tenho uma máquina de fatiar muito boa e aprecio comê-las em sandes com pão de cereais e molho de mostarda. O senhor se prova um fiambrino de mulata não quer outra coisa, ouça o que eu lhe digo! Os restos congelo e aproveito para as fazer em carpaccio, que é uma maravilha.

– Então a greve de fome…

– É para evitar comê-las, porque estava-me a matar o negócio.

– O senhor então é… pois… mas isso eu não posso noticiar… e…

– Deixe lá isso e beba uma mini. Ou quinze! Com três litrinhos no buxo de certeza que já nem se lembra disso. E se acompanhar com uns tremoços ao alho vai ver que vai ficar mais saboroso e tudo.

– Como?

– Não ligue. Já são alucinações faminógénicas. O senhor comigo está seguro porque eu só posso comer chicha da boa, por causa do colesterol. Se comia um badocha entupia-me já as veias todas!