Copos de caramelo, framboesas e chocolate

Outubro 23rd, 2010

Ontem foi um dia muito bonito e especial, que começou com um passo importante para formalizar um caminho desejado, e que merecia portanto ser celebrado.

Comemoração que se preze passa necessariamente pela mesa, e por isso nada melhor do que acabar o dia com uma refeição pensada e executada a dois, com entradas várias e um folhado de bacalhau de excelência como prato forte do repasto – com o aplauso merecidíssimo à minha cara metade, feito em êxtase por toda a população papilo-gustativa – e onde a mim me calhou a tarefa de elaborar a sobremesa.

Com a modéstia que me é reconhecida, permitam-me dizer que  foi um bonito e muito saboroso culminar de jornada, com uns copos de caramelo, framboesas e chocolate – documentados num exemplar para memória futura, na fotografia abaixo – e cujos segredos partilho convosco, indicando-vos o sítio onde os descobri: o sempre delicioso blogue de Leonor Sousa Bastos.

Aprender a falar

Setembro 21st, 2010

Imaginem que se julgam incapazes de ser surpreendidos, que pensam que já ouviram tudo e que não há absolutamente nada que vos possa apanhar completamente desprevenidos.

Essa é a alturinha certa para que surja algo completamente inesperado, que vos porá completamente embasbacados e sem reacção durante breves instantes, com a boca aberta como se tentassem sorver do ar alguma informação que traga sentido ao que acabaram de lhes expôr.

Foi precisamente isso que me aconteceu hoje.

Após alguns tempo – anos talvez – em que me apercebi que estava gradualmente a perder capacidades vocais e com rouquidão permanente, decidi consultar um otorrinolaringologista para verificar o que se estava a passar dentro da minha garganta.

Não duvido que haja quem pense que só lá fui para poder um dia escrever a palavra otorrinolaringologista neste blogue – e não andarão longe da verdade – mas o facto é que, depois de um exame onde me debati com a necessidade do recurso a técnicas ao melhor estilo de Garganta Funda, mas sem prazer, a imagem no visor pôs a médica a exclamar coisas como “impressionante!”, “isto é fantástico!”, “nunca tinha visto uma coisa destas!”.

Nessa altura chamou outra médica, que mal entrou na sala ficou com os olhos colados ao televisor, como se tivesse acabado de ver Deus retratado na minha laringe, e exclamou “olha que coisa engraçada! como é que é possível?”.

Foi então que, entre muitas exclamações avulsas e vários pedidos de explicação da minha parte – porque começaram só a balbuciar coisas e a falar de mim como se eu não estivesse presente, como a minha mãe fazia com as amigas na rua quando eu era pequeno – , me disseram que estávamos perante um caso raro, já que eu utilizo as cordas vocais ao contrário, ou seja, parafraseando uma médica, “é como se andasse, mas tivesse as pernas ao contrário”.

Isso pode explicar alguma falta de doçura nas minhas palavras, porque afinal de contas eu exprimo-me com os calcanhares para a frente, pensei eu.

Depois ainda interpretei as frases delas como que a dizer “o senhor fala mal”, e pensei “tá bem, mas sou do Norte, é normal dizer palavrões”.

No meu pensamento ocorreu-me ainda “e se eu digo “lambreta”, será que no fundo estou a pensar dizer “aterbmal””?

Não. Isso é parvoíce.

O que se passa na realidade é que utilizo mal as cordas vocais, tensiono a parte que devia estar folgada e deixo passar o ar por onde devia estar a bloqueá-lo para criar vibração.

Para quem passou a juventude a cantar, que faz a vida a conversar com pessoas e que é capaz de vociferar com pujança o mais robusto vernáculo português, esta é uma informação, no mínimo, surpreendente.

Fiquei sem palavras durante uns minutos, e ainda bem, porque se as tivesse ia ter medo de as dizer de forma pouco ortodoxa, o que era extremamente vexatório, porque elas não tiravam os olhos da minha garganta.

Sou, portanto, um tipo que fala muito, mas mal, e por isso vou ter que aprender a falar, começando a terapia da fala já para a próxima semana.

Não me telefonem até lá, porque podem aperceber-se que eu vos estou a falar de uma forma um bocadinho esquisita e depois eu fico envergonhado.

A Marquesa de Sade

Setembro 13th, 2010

O diálogo tido há umas semanas atrás,quando me disseram que tinha que ser sujeito a terapia, soou-me mais ao menos assim:

“Vem cá todos os dias de manhã, põe-se em cima da Marquesa, enfia a cabecinha no buraquinho e vai ficar novo!”

A minha libido correu a apanhar o comboio imaginário que passava pelo apeadeiro das rambóias medievais, numa viagem de libertinagem em que a Marquesa seria a principal artífice das minhas melhoras, manipulando prazerosamente o meu corpo com mestria.

Sendo esta aventura prescrita por um médico, estava ilibado de qualquer ilícito conjugal, ficando assim o cenário perfeito.

A realidade norteia-se, no entanto, pelo princípio básico que inspirou a criação do io-iô, e trouxe-me de volta num instantinho.

Durante vinte dias deitei-me na Marquesa, sim senhor, enfiei a cabeça no buraco, não há dúvidas, só que a dita senhora do meu sonho eroterapêutico não passava afinal de uma cama branca e fria, estática, desprovida de arte e intervenção activa, cujo buraco largo se encontrava ao nível do meu crânio, permitindo apenas que este se apoiasse, ficando a observar durante uma hora o solo, sem mexer.

Durante esse tempo não tive um único minuto de prazer, sofrendo com a dureza de alguns tratamentos e com a imobilidade necessária para a prossecução deles.

Quando me levantava, a Marquesa não me dava qualquer palavra de apoio, um abraço ou um aceno que fosse e ficava ali, impávida e gelada a ver-me ir embora, com o buraco a parecer transformar-se num sorriso sádico de gozo, como se tivesse tido muito prazer em me ter ali, a sofrer.

Tudo ficou então claro para mim.

O nome deste aparelho só pode ter vindo, digo eu, desse prazer que ela parece sentir no sofrimento das pessoas, qual Marquês de Sade, regozijando-se por poder receber vários pacientes que lhes satisfaçam essa necessidade, hora após hora.

Maldita sejas, Marquesa!

Espero tão cedo não te pôr o corpinho em cima.

Mayra Andrade

Setembro 10th, 2010

O fim de semana aproxima-se a uma velocidade caracolesca, numa estratégia retorcida para aumentar o valor que lhe atribuímos.

Este parece que ainda faz a viagem no tempo mais devagar do que o normal, carregado de sadismo, porque sabe que trás consigo um grande momento.

No Theatro Circo, este sábado à noite, vou ter a oportunidade de tornar a ouvir uma das mais bonitas vozes que já ouvi ao vivo, com participação especial da minha companhia preferida, ao meu lado na primeira fila.

É um concerto com simbolismo para nós, porque foi precisamente ao som de Mayra Andrade que trocamos as primeiras palavras e olhares, o primeiro instante partilhado, num rio de momentos que se perspectiva de longo caudal.

É favor acelerar então a chegada desse sábado, porque eu não consigo deixar de trautear esta música e se um polícia me tenta multar pode pensar que lhe estou a dar música.

Mr. Potato Head

Setembro 6th, 2010

A madrugada de sábado para Domingo trouxe mais um forte sinal da minha velhice latente.

Ao espreguiçar-me a meio da noite consegui fazer a proeza de pôr um músculo da perna a saltar – o gémeo da perna direita – como se fosse dar uma voltinha nocturna para fora do meu corpo, com a respectiva dor associada a fazer-se notar agudamente.

Consegui conter o enorme grito de dor que buzinava junto do meu sistema nervoso central, prontinho para sair com toda a força, enquanto esperneava simultaneamente para alongar o músculo, sempre com o máximo cuidado para não perturbar o sono da minha mais que tudo, numa notável performance plena de concentração e sincronismo.

Estou numa fase da vida em que pareço a versão humana do Mr. Potato Head, com as peças a saltarem para fora do corpo como se dissessem “não quero brincar mais contigo”.

Sou um bocado teimoso, e preservador dos meus amigos de brincadeira de toda a vida, portanto vou tratando de as voltar a pôr no sítio, pelo menos para já, enquanto vou podendo.

Claro está que tenho que remediar com as peças que vou tendo, remendado-as, e assim se calhar arrisco-me a ficar parecido com aqueles trabalhos toscos de colagens de papel que fazia na primária.

É aí que reside a enorme vantagem do bonequinho em relação a mim, porque é mais fácil trabalhar o plástico do que os tecidos humanos, e portanto ele arranja peças suplentes que se ajustam na perfeição ao seu corpo, sem dificuldades de maior.

Outra diferença é que ele e as suas  peças devem ter um certificado de qualidade que atesta a sua  fiabilidade, enquanto eu tenho que procurar certificar-me a mim próprio que não faço nenhum movimento brusco provocador de nova lesão.