Filatelia fecal

Novembro 14th, 2013

Desconhecida de grande parte da população, a filatelia fecal é o estudo e o colecionismo dos selos das cuecas e materiais relacionados.

Os selos das cuecas são pequenas marcas na roupa interior, originadas pelo contacto de fezes ou seus gases com os tecidos.

Cada selo da cueca tem uma história e característica única, não havendo um igual ao outro no mundo, o que torna esta forma de colecionismo virtualmente interminável.

Segundo os filatelistas fecais, o que os move para ter este hobby é a vontade de conhecer mais sobre as pessoas que os produziram e o contexto temporal, económico e social em que o fizeram.

Hernâni Poio é o presidente da Fundação Filatelia Fecal, que promove esta forma de colecionismo em Portugal.

Falamos com ele, para perceber melhor este fenómeno.

NP – Olá Hernâni, como começou a sua paixão pelos selos das cuecas?

HP – O meu pai era um filatelista “clássico” e sempre me incentivou a dar continuidade à sua paixão. Nunca liguei muito aos selos, porque me pareciam muito impessoais, mas um dia fiz um selo na cueca e tudo mudou para mim. Apercebi-me ao olhar com atenção para o que tinha acabado de fazer, que tinha ali algo que dizia muito sobre mim, naquela altura da vida.

NP – Guardou essa cueca?

HP – Infelizmente não. Na altura pareceu-me um fascínio que as pessoas teriam dificuldade em perceber, e só depois de atingida a idade adulta senti segurança para assumir publicamente esta minha paixão.

NP – Coleciona só artigos produzidos por si?

HP – Não! Nem pensar nisso! A riqueza da filatelia fecal está precisamente no conhecimento dos outros através dos selos das cuecas, pelo que, quanto mais diversificadas forem as origens dos especimens mais rica é a coleção.

NP – Como são preservados os selos?

HP – Depois de recolhidos são postos a secar – no caso de ainda os obtermos frescos –  e posteriormente é passada uma laca própria, que preserva na perfeição o selo, que encaixilhamos numas pequenas lamelas, para melhor acondicionamento e indexação.

NP – Quantos selos tem neste momento?

HP – Mais de 5000 dos mais variados cantos do globo. É o souvenir que nunca pode faltar nas minhas viagens. Aliás, vou-lhe pedir também que me deixe um antes de ir embora.

NP – Deixarei com todo o gosto. Tem algum que destaque de forma especial na sua vasta coleção?

HP – Sim, de uma senhora alemã cujo nome não posso divulgar. É uma cueca de gola alta, de grandes dimensões, com um rasto aloirado e bem definido, que encontrei num caixote do lixo junto ao parlamento alemão.

NP – Recolhe selos no lixo, portanto?

HP – Sim, há muita gente que ainda receia doar – ou mesmo vender – os seus selos das cuecas, por se sentirem afetadas na sua intimidade.

NP – Existe algum sítio em particular onde recolha com mais frequência?

HP – Sim, sem dúvida. Junto aos parlamentos é onde encontro o maior número de selos com valor. É um sítio onde se faz muita feze e onde mesmo os que não a fazem é porque são uns cagões. Além disso os parlamentares tendem a ocultar todos os indícios da enormidade de fezes que produzem diariamente, deitando-os fora.

NP – Tem algum desejo particular para o futuro da filatelia fecal?

HP – Sim. Gostava muito de viver o dia em que se pudesse utilizar o selo da cueca no correio normal. São tantas as vantagens! Personalização, diversidade, economia, e nem é preciso lamber o selo para ele ficar colado – eu só faço isso pela minha paixão avassaladora pelos selos -, é uma maravilha!

NP – Obrigado pela entrevista e boa sorte para o futuro da filatelia fecal Hernâni.

HP – Obrigado sou eu. Tive muito gosto em conhecer-vos e aproveito para agradecer também ao vosso editor, que me enviou uns selos magníficos, que fez depois de uma atribulada viagem de barco. Um espanto!

selo na cueca

A cueca enquanto marca identitária

Agosto 28th, 2012

Tenho para mim que a cueca é o objeto pessoal que mais nos define enquanto pessoas.

É pena que ainda ninguém tenha estudado academicamente o impacto da cueca na formação do caráter ou a sua importância enquanto marca identitária.

Boxers, cuecões, gola alta, fio dental, slips.

Rotos, engomados, com esquissos rupestres, coloridos ou cinzentões, com bonequinhos ou lisos, largos ou apertados, com pinga ou sem pinga.

Todas estas variáveis do universo cuequês identificam, sem margem para dúvidas, a personalidade da pessoa que as utiliza.

Não acho correta a catalogação das pessoas pelo tipo de vestuário visível exteriormente.

Betos, punks, dreads ou rockabillys, todos têm por baixo algo que não mostram, mas onde reside de facto a sua afirmação enquanto pessoas.

Na cueca.

Se pensarem bem, a expressão “quero-te saltar para a cueca” tem sido das mais injustiçadas no que à sua interpretação diz respeito, já que o que ela realmente significa é “quero entrar no mais intímo de ti e conhecer-te tal como verdadeiramente és”.

Nada mais romântico, diria eu, mas as pessoas regra geral não entendem a frase desta maneira.

Uma das maiores dificuldades de historiadores e investigadores de outras eras, reside no facto de as cuecas não resistirem ao passar do tempo, decompondo-se.

Seria bastante mais fácil perceber a evolução humana tendo acesso às cuecas dos nossos antepassados.

Que impurezas esconderiam as arianas cuecas de Hitler?

O que tentava Marilyn Monroe esconder quando o vento soprava por baixo da sua saia?

Quão elásticas seriam as cuecas de Churchill?

A que cheirariam as milagrosas cuecas de Cristo?

Que pinturas ostentariam as surreais cuecas de Salvador Dali?

Terá sido Pedro Álvares Cabral o inventor do fio dental?

O conhecimento destas pequenas peças de vestuário abrir-nos-ia a porta de uma nova enciclopédia histórica, certamente.

Melhor ainda seria se pudéssemos conhecer os nossos contemporâneos dessa forma.

Daniel Oliveira, se me estás a ler, presta atenção a este conselho: encontrarás muito mais emoção nos teus convidados, e revelações surpreendentes, se perguntares “o que dizem as tuas cuecas?”.