Composição: “O Natal”

Dezembro 12th, 2013

Eu gosto muito do Natal.

O Natal é em Dezembro e está muito frio.

Lá em casa decoramos o pinheirinho de Natal, montamos o presépio e pomos luzes na varanda.

Todos lá em casa acham que há sempre doces muito bons e ninguém desconfia que eu tiro macaquinhos do nariz para colar no bolo rei.

A minha prima vive em Espanha e traz gomas e rebuçados, mas espero que este ano não traga uns como os que lhe tirei da carteira no ano passado, que se desenrolavam, sabiam a borracha e eram difíceis de engolir.

O senhor padre traz um garrafão de vinho de missa e dá-me sempre uma hóstia grande para eu fazer um desenho nela antes de a comer.

O meu pai é muito engraçado no Natal, porque começa a enrolar a língua depois do jantar e no fim da noite ninguém percebe o que ele diz.

Rimo-nos muito e depois ele adormece sempre em frente à lareira e eu apanho a baba dele para pintar as rabanadas.

Toda a gente é feliz e se dá bem, tirando a empregada do meu vizinho, porque ele costuma levá-la para a garagem e dá-lhe uns beijinhos esquisitos e ela grita muito, agarrada à cabeça dele, coitadinha.

Há dois anos conheci o Pai Natal verdadeiro e não gostei nada, porque tinha muita lama nos sapatos e cheirava a cocó.

Estava muito feio porque veio só com o gorro, de fato de treino lilás e a barba estava amarela e a cair.

Fiquei muito triste porque ele não me deu prendas e quis bater no meu irmão mais velho, porque disse que ele lhe tinha comido a irmã.

O meu irmão é vegetariano e vomita se comer carne, por isso eu sei que não é verdade.

O meu irmão bateu-lhe com a porta do carro na cabeça até ele fazer ó-ó, arrastou-o para o rio à beira de nossa casa e nunca mais o vimos.

Agora quem trás as prendas é o Menino Jesus, mas ainda nunca o vi.

Como ele é uma criança como eu, as prendas têm sido mais pequeninas, para não ser muito pesado, disse-me a minha mãe.

O ano passado trouxe-me um saco pequenino da farmácia, cheio de folhas secas, castanhas e amarelas, para eu fazer uma árvorezinha bonsai.

Cá em casa cantamos muitas músicas de Natal, principalmente do “Duo Ele e Ela” e do “Nel Monteiro”, que a minha avó diz que são os melhores artistas do mundo.

Até já me prometeu que qualquer dia me deixa fazer uma tatuagem com a cara do Nel, se me portar bem na escola e deixar de roubar daquelas bolinhas presas por um fio e algemas da bolsa da professora.

É a única noite do ano em que a minha avó deixa que usemos a placa dos dentes dela para fazer de castanholas.

É mesmo muito divertido!

Se eu fosse grande, fazia com que houvesse Natal mais vezes, pelo menos ao domingo, depois do “Portugal em Festa”.

Drawing-of-Christmas-by-SOS-child-in-Ethiopia

 

 

Amuo na festa

Outubro 6th, 2011

Na casa de banho, a meio de uma festa:

– Que se passa Rafinha? Sentes-te bem?

– Nem por isso. Dói-me muito a barriga!

– Já fizeste cocó?

– Não é isso. Estou mal disposto.

– Bebes-te muito?

– 3 flutes de Champomy e um shot de Trina Limão. Mas já tinha bebido meio litro de groselha em casa…

– Pois! As misturas! Já se sabe! Eu fiquei-me só pelo Champomy e estou aqui impecável.

– Mas desconfio que o segurança é que me pôs assim. Quando me pegou pelas mãos e me pôr a rodopiar e depois me atirou para cima do sofá.

– Ei! A sério? E que tinhas feito tu?

– Nada. A sério. O gajo chegou à minha beira vindo do nada e pegou em mim. Só.

– Fogo. Eu nem vi nenhum segurança.

– O tipo é estranho. Com uma peruca verde e um nariz vermelho.

– Eh eh eh eh eh! O palhaço?

– Sim. É um palhaço! Deve ter a mania que é o maior lá da rua dele!

– Estava a brincar contigo de certeza, ele não é segurança, só está aqui para nos divertir.

– É… mas a mim pôs-me enjoado! Ouve… e a música também não ajuda nada. Quem é que contratou este gajo?

– Não gostas?

– Olha lá, a música do Ruca a seguir ao genérico do Digimon? Tás a gozar comigo? Este gajo devia ser proibido de pôr música!

– Não é um gajo, é uma menina.

– Eu vi logo. Modernices. até admira ter passado o Ruca então. Daqui a um bocado é só Barbies e Kittys e anda tudo aí com bonecas.

– Não sejas assim- Olha que ela é bem fixe. Até me trouxe um brinquedo novo e tudo.

– Uiiii! O Danizinho gosta de brincar com as meninas. Uiiii! Nunca pensei que fosses desses.

– Chiiiiiiu! Não comeces com isso! É um Matchbox último modelo que o pai lhe trouxe da América. Querias que dissesse que não?

– Tens aí?

– Tenho. Queres ver? Olha.

– Eia! Que fixe! E não me ias dizer nada? Vamos brincar?

– Ok. Limpa a boca e puxa o autoclismo.

– Não chego lá.

– Chama a tua irmã.

– Isso! ISAAAAAURA! ANDA PUXAR O AUTOCLIIIIISMO! Vamos brincar?

– Bora.

Bebés inflacionados

Agosto 12th, 2010

Depois da especulação em volta do montante que o Cristiano Ronaldo terá despendido para ter um filho só dele, a mais recente notícia da aquisição de um Bebé pelo Manchester United, por nove milhões de euros, vem provar que a cotação dos bebés no mercado internacional está bastante inflacionada.

A famosa frase “o meu bebé vale ouro” conhece assim novos contornos e ganha uma carga muito mais capitalista, capaz de pôr o mercado das barrigas de aluguer a atingir níveis nunca vistos de capitalização em bolsa.

Mesmo tendo em conta as medidas de incentivo à natalidade do nosso Estado, este é um investimento cujo retorno, do ponto de vista estritamente económico, é bastante difícil de alcançar para o comum dos “baby buyers”.

Tratando-se de um mercado bastante volátil, com uma matéria muito instável, onde os activos estão sujeito a quedas abruptas e amuos frequentes, o que os torna pouco fiáveis no curto-médio prazo, torna-se fundamental o acompanhamento prematuro e o recurso a consultores especializados.

Para isso, felizmente para eles, já vai havendo sítios que poderão ajudar a tratar bem do investimento e a acrescentar-lhe valor, numa perspectiva de obtenção de ganhos e concretização de mais-valias no longo prazo.

Está visto que a concepção natural, além de mais prazenteira, trás também consigo uma enorme vantagem financeira, com poupanças de milhões de euros para os candidatos a papás e mamãs, e por isso estou decidido a continuar a aposta nesta via reprodutora de raízes tradicionais.

As férias grandes

Julho 16th, 2010

Eu gosto muito das férias grandes.

Nas férias grandes vou para a praia ou para a piscina.

Há muitos passarinhos e flores e tremoços e fruta e saladas e amendoins e gelados nas férias grandes.

Nas férias grandes está muito calor e as meninas andam com roupa muito pequenina e ficam muito bonitas.

O meu amigo tem umas primas que chegam sempre de França nas férias grandes, e eu gosto muito de brincar aos doutores com elas porque elas falam francês e trazem caramelos.

É nas férias grandes que tenho muito tempo para brincar com os meus amigos e jogar à bola e correr e pular e fazer construções e corridas.

Na PSP.

A minha pele fica mais escura nas férias grandes e fica parecida com a da dona Sucena, mas eu tenho sorte porque os meus lábios não incham tanto.

Os dias são muito grandes nas férias grandes e dormimos menos, porque nascem muitos mosquitos que fazem barulho junto ao ouvido durante a noite.

Nas férias grandes eu suo muito, e eu gosto porque assim posso rebolar na areia e parecer um croquete.

Eu gosto muito das férias grandes e tenho muitas saudades delas.

Mini terroristas

Junho 28th, 2010

Uma criança um bocadinho mais arisca que as outras, que prega partidas e está constantemente a fazer asneirolas é frequentemente chamada, com um tom condescendente e paternalista, de terrorista.

Pois bem, as autoridades americanas levaram demasiadamente a sério esta expressão e impediram uma criança de 6 anos (seis!) de embarcar num vôo de Cleveland para Minneapolis, por ela constar da lista de suspeitos de terrorismo norte-americana.

Não se sabe muito bem em que é que se basearam para assumir que esta criança era uma terrorista, mas consta que terão sido os seus pertences – bonecos, um balão, uma t-shirt, banda desenhada variada e um serviço de chá de brincar –  a denunciá-la.

Tenho as minhas dúvidas que seja motivo por a considerar suspeita, mas cá vão as fotografias dos objectos que terão levado as autoridades a agir.


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