D. Lusa

Abril 22nd, 2011

A estória que hoje tenho para partilhar convosco não é nada alegre, é uma estória que me deixa perplexo perante um cenário incompreensível.

D. Lusa namorou 7 anos com aquele que viria a ser o seu marido, separaram-se momentaneamente por vicissitudes da vida, mas ao fim de pouco tempo o amor falou mais alto e são já casados há 6 anos.

O que a seduziu nele foi a sua imagem de galã, a sua facilidade de comunicação, os seus planos para um futuro risonho, a segurança que dele emanava e a certeza de que ao seu lado tudo seria um mar de rosas.

No início, como em tudo na vida, as coisas correram aparentemente bem, mas ao fim de algum tempo a máscara começou a cair e a arrogância do marido veio acompanhada de violência verbal, rompimento de promessas, gastos com coisas supérfluas e esbanjamento com os amigos dele, mentiras, pressões para ela não dizer nada a ninguém, traições, vícios vários, tornando o ambiente insuportável e insustentável, espoliando-a dos seus recursos financeiros e da estabilidade que tinha adquirido com o tempo e deixando-a sem dinheiro sequer para tratar da educação ou saúde dos seus filhos, com dificuldades até para lhes garantir o pão futuramente e marcas muito profundas, que dificilmente serão saradas.

D. Lusa é uma mulher bonita, muito bonita, com valores morais centenários, de boas famílias, desejável para qualquer homem, e portanto não lhe faltaram, ao longo da sua vida e até hoje, pretendentes ao lugar de seu marido.

Com o passar do tempo tornou-se no entanto numa mulher acomodada, sujeitando-se aos vários abusos sem retorquir, fechando os olhos aos sinais, ignorando as evidências e rezando muito, só rezando, para um dia acordar de um sonho mau e regressar ao seu mundo idealizado.

Apesar do mal estar sufocante, de ter a certeza de que o marido é mau para ela, pensa que todos serão como ele e que não vale a pena aspirar a algo melhor, porque fatalmente irá redundar no mesmo tipo de pessoa.

Nem lhe passa aparentemente pela cabeça abandonar o seu marido, fiel a uma teimosia dolorosa, que a arrasta cada vez mais para o fundo.

Nada fez para o denunciar às autoridades e responsabilizá-lo pelo estado miserável a que a sua vida chegou, como é comum nas mulheres vítimas de violência doméstica, e só com muita pressão externa foi forçada a revelar a realidade do seu quotidiano.

Quando questionada sobre a sua relação, depois de expostas publicamente todas as fragilidades do seu casamento e abusos a que foi sujeita, D. Lusa encolheu os ombros, resignada ao seu fado, e disse que não queria apresentar queixas, e mais, sabe-se agora, comentou que ponderava manter no futuro a relação com o seu marido.

A única certeza que tem na sua vida é que o seu marido a maltrata, mente descaradamente e continuadamente abusa dela.

O futuro ao seu lado é doloroso e negro, mas nem sequer lhe passa pela cabeça mudar, porque acredita que os outros também devem ser da mesma laia.

Serão, talvez – nada dá certezas do contrário-, mas ainda haverá uma réstia de esperança de que pelo menos o seu próximo parceiro não seja tão mau.

Porque teima em não mudar?

Será assim tão estranho ter vontade de procurar alguém diferente, que lhe possa trazer felicidade e prosperidade?

E porquê limitar-se a ouvir só os homens do seu bairro?

Porque não viajar ao bairro vizinho, ao das casinhas pequenas, na esperança de encontrar alguém que satisfaça as suas necessidades e que pelo menos a respeite, trabalhe para lhe dar um futuro consistente e a ajude a eliminar a erva daninha do seu jardim?

Como é possível que esta mulher se permita ficar agarrada a quem tão mal lhe tem feito, sem se revoltar contra ele, sem se insurgir com quem a magoa?

Como é possível que esta mulher se acomode a uma relação podre, sem esgotar todas as alternativas e partir para a luta, determinada como os seus antepassados e senhora do seu futuro?

Estou amargurado porque gosto imenso da D. Lusa e a vejo apática e sem esperança, frustrado porque não consigo fazê-la entender o óbvio, incrédulo por vê-la perpetuar um erro.

O meu apelo para a D. Lusa é o seguinte: não premeie quem mal lhe fez mantendo uma relação que já tanto a magoou, arrisque mudar, abra os olhos e procure novos caminhos, procure fora dos caminhos habituais, porque esses já estão caminhados, recalcados e esburacados.

Dê uma volta à sua vida, aproveite para limpar a casa, areje-a, decore-a de novo e escolha um novo marido que a ajude a ser feliz como merece!

Tenho saudades de a ver bonita, tranquila, confiante e orgulhosa, quero vê-la de novo a sorrir.

O varão da droga

Março 15th, 2011

A minha vida sempre foi complicada, mas estava longe de imaginar que acabasse aqui sentado nesta gruta penitenciária, sem nada mais para fazer do que contar a minha estória.

A vida dá muitas voltas, e eu presenciei mesmo a muitas, acreditem.

Nasci fruto de uma relação íntima de uma dançarina exótica dos arredores de Nápoles com o seu instrumento de trabalho e desde o primeiro dia senti que era diferente das outras crianças.

Fui o primeiro filho varão da minha mãe e parece-me que não nasciam assim tantos varões nas redondezas, pela reacção das pessoas quando me viam no estojo em que a minha mãe me transportava para todo o lado.

Talvez os espermatozóides-menina estejam na moda – pensei – , e habituei-me à ideia rapidamente.

Até apreciava a minha unicidade, sentia-me distinto, exclusivo, importante.

Ainda criança de estojo comecei a frequentar os locais de trabalho da minha mãe, locais obscuros frequentados por toda a espécie de gente com dinheiro para estourar, mas onde a minha mãe reinava no cimo do palco.

A cor e o movimento do espectáculo sempre me seduziu e não descansei enquanto não consegui fazer parte de um número de strip numa casa nocturna, treinava nas caves e sótãos, mas só aos 15 anos ganhei corpo para me fixar numa sala a sério e fazer o meu primeiro espectáculo.

Vivia então um mundo de novidades e sonho, sempre com mulheres rodopiando à minha volta e aplausos orgásmicos a jorrar dos sofás, pondo frequentemente de pé partes da plateia.

Um sonho tornado realidade, que foi muito bonito enquanto durou.

Mas depois de alguns anos uma pessoa fica cansada, comecei a entender este negócio e a perceber que as dançarinas eram afinal quem ficava com todos os lucros e louvores.

Era a elas que estava reservado o convívio com os magnatas e estes vertiam-lhes rios de dinheiro no decote mais rapidamente que um gasolineiro de fórmula um.

Ninguém apreciava devidamente o meu trabalho e a frustração acumulava-se em mim como o lixo num aterro sanitário, até que num dia em que a sorte se distraiu me cruzei com uma pessoa que mudou a minha vida.

No intervalo de um show, encostado à janela partida do armazém do clube, no beco sombrio situado nas traseiras dos holofotes da entrada, fumava um cigarro descontraidamente quando fui abordado por um indigente de vestes rasgadas, que me abriu os olhos para a realidade.

À minha volta circulava muito dinheiro, muito mesmo, muitas jóias, carros bons, todo o luxo que se podia imaginar, e muito dele vinha da vida do crime, da extorsão, das armas, da droga.

Já nessa altura era uma pessoa marcada pelas cicatrizes da vida, mas era indesmentível que poucos seriam tão duros como eu e o meu corpo esguio tornava-me muito difícil de apanhar.

As palavras do sábio mendigo martelavam a minha cabeça noite após noite até que numa madrugada gelada tomei a resolução de começar a minha guerra contra os senhores do crime locais, e armado de um revólver Vareta que encontrei numa caixa de sapatos que pertenceu ao meu avô comecei a minha demanda.

Desenvolvi capacidades de camuflagem inauditas à época, atacava furtivamente e eles rapidamente sucumbiram ao meu poder.

Assumi assim o controle do crime organizado.

Durante vários anos controlei todos os esquemas: prostituição, jogo, bebida, segurança, roubos de carros, contrafacção, raptos e até roubo de guloseimas a crianças.

Mas a minha principal fonte de rendimento – e futuramente de desgraça – era a droga.

Controlava todo o processo, desde a produção à distribuição e ninguém ousava pensar em enrolar um charro sem que eu desse autorização.

Por isso me começaram a chamar o Varão da Droga.

O que eu não consegui controlar foi a tentação de usar os produtos que fabricava e vendia.

Comecei a empoeirar-me com cocaína de forma descontrolada, ficava com a visão turva e os sentidos adormecidos, imerso num mundo irreal de facilidades e de vã felicidade, e daí a injectar-me com heroína foi um pequeno passo.

Fui aos poucos ficando todo furado e uns jovens ambiciosos começaram a fazer-me frente.

Perdi o controlo de alguns negócios, primeiro as meninas, depois a jogatana e rapidamente perdi a protecção de polícias e juízes, que viram o seu valor de mercado aumentar com o aparecimento dos meus concorrentes.

Fui então indicado como um dos dez criminosos mais procurados no mundo e a partir daí a minha vida foi um inferno, de fuga em fuga, num corropio que nem os meus nervos de aço me ajudavam a suportar.

É inexplicável a sensação de saber que ao mínimo deslize estamos fundidos.

Ia-me valendo o facto de ser esguio para não ser apanhado facilmente, mas ao fim de muito fugir fui um dia apanhado numas redes apertadas de pesca à lampreia e encaminhado para este buraco, onde só me resta esperar pelo final dos meus dias.

Tolhido neste espaço soturno e insalubre, vejo agora que os meus primos que se dedicaram a uma vida de cortinados estavam afinal certos.

Não têm carros, mulheres, nem luxos, mas a luz é certinha a cada manhã e nada lhes corta o poder de continuar a sonhar.

Do mendigo nunca mais soube nada, mas agora desconfio que as vestes rasgadas não terão tido origem em decisões sensatas da sua vida.

Papel duplicado

Novembro 11th, 2010

Tancredo Nêspera era um homem do povo, pedreiro de profissão com as mãos empedernidas pela labuta, modesto, aparentemente pouco dado às artes da escrita e desconhecido na vizinhança, dado o seu recolhimento habitual.

Um dia, no intervalo para o almoço, entre papéis de jornais amarfanhados e guardanapos de papel, descobriu dentro de si um escritor, Tarcísio Nereu, homem de grande inspiração, sedutor e de escrita fácil.

Recebeu-o alegremente, emocionado, com honras de abraço apertado, ao nível dos que se guardam para os familiares que regressam de um longo exílio, e acolheu-o em sua casa com a promessa de que nada lhe faltaria.

Desde esse dia, e durante muitos anos, conviveram harmoniosamente.

Tancredo tratava da logística, ia às compras, limpava a casa, organizava as tertúlias, Tarcísio redigia textos singulares, vertia prosa que era lida nos quatro cantos do mundo, declamava poesia de forma sublime e partilhava o seu sucesso de bom grado com Tancredo, seu parceiro inseparável.

Certo dia, cansado dos milhares de quilómetros de tinta percorrida, Tarcísio exprimiu a sua vontade de ver o Mundo, de abandonar a vila onde sempre se foram quedando, de deixar de escrever e partir à aventura da descoberta de novos povos e lugares.

Tancredo não queria acreditar.

Tinham sido anos tão bons!

Longe do trabalho árduo da pedreira, do calor enfornecido da lage e das crateras na pele provocadas pelos instrumentos de trabalho.

Não concebia a ideia de perder todo o conforto e alegoria que brotavam do sucesso da escrita do seu companheiro, e foi invadido pelo pavor desse cenário, que o relegava para dias de trabalho duro e monótonos, com a recompensa de uma côdea tostão.

Foi instintivo o acto de fechar Tarcísio numa sala escura, sem janelas, no piso inferior de sua casa e mantê-lo lá a pão e água, obrigando-o a escrever.

O escritor implorava compreensão, dizendo-lhe que nunca o abandonaria, que estava cansado e que da fonte da inspiração só jorravam agora gotículas baças, mas o pedreiro perdera-lhe a confiança e insistia na sua prisão, ordenando-lhe que escrevesse .

“Quero só mais um escrito, que me sustenha a velhice”, dizia-lhe.

Mas Tarcísio via definhar a sua criatividade a cada refeição negada, a cada sombra no escuro quarto, e a sua pena não conseguia voar pelo papel quando desprovida de liberdade.

Pouco depois deixaram de se falar, o silêncio irrompeu na casa como um líquido espesso que ocupa todos os espaços e tolhe ainda mais os movimentos, sufocando a sanidade.

Tancredo mantinha a guarda, Tarcísio a caneta parada.

O peso da divergência comprimiu-os contra o chão, numa luta que nenhum poderia vencer, até um ponto insustentável em que Tarcísio, desesperado, encontrou um caminho tortuoso e fez um furo na cabeça de Tancredo, por onde escapou, à procura de novas vidas.

Tancredo ficou inerte, abandonado à sua sorte, e foi descoberto pouco tempo depois por um vizinho curioso, jazendo no fétido chão.

A populaça chorou a partida do reputado Tarcísio Nereu, e como que reconhecendo a sua imagem no imóvel Tancredo, enterrou-o, como se faz aos feijões, na esperança de que um dia dali voltem a florescer belas palavras.