Carteiras economizadoras

Dezembro 22nd, 2010

Enquanto escrevo, milhões de pessoas estarão a fazer compras de Natal de última hora, com forte possibilidade de se deixarem levar por compras de impulso e gastarem mais do que desejariam e poderiam, sem sequer se aperceberem.

Pensando nestas pessoas e noutras com iguais problemas em gerir as suas economias, os laboratórios do MIT desenvolveram umas carteiras que encolhem à medida que o seu dono vai gastando dinheiro ou usando os cartões de crédito, dificultando assim o acesso ao chamado “pilim”, para evitar consumo excessivo.

Existem três modelos diferentes, todos equipados com um computador interno que está ligado a um smartphone do utilizador via Bluetooth, permitindo acesso permanente à situação do saldo da sua conta bancária.

Quanto mais o dono gasta, mais esforço a carteira faz para dissuadi-lo de continuar a gastar, acrescentando a dificuldade de aceder fisicamente ao dinheiro e aos cartões.

O criador, John Kestner, chama-lhes “Proverbial Wallets“, qualquer coisa como “carteiras sábias” e era muito bom que fosse a próxima aquisição do Estado português para oferecer à sua administração pública.

Compra brava

Julho 28th, 2010

Um dos grandes defeitos do comércio tradicional, para mim, é não ter sabido adaptar-se aos novos tempos, nem ter modificado a maneira de estar no negócio, indo buscar inspiração a outras tradições nacionais.

As grandes superfícies souberam fazê-lo, e, hoje em dia, todo o acto de comprar em superfícies comerciais modernas se assemelha a uma tourada.

Nesta época de saldos, as práticas tauromáquicas nas compras ganham ainda maior expressão, com os grandes cartazes que indicam os descontos, em substituição das capas vermelhas, a terem a função de atrair o cliente, que corre furiosamente para dentro da loja.

Mal entra fica meio atordoado, com o ambiente carregado de informações de  múltiplos descontos, que o deixa indeciso para onde se deve dirigir, e a música alta, que indicia que vai começar a lide.

À sua frente apresenta-se, vestido a rigor, o empregado de loja, destemido, que toma a iniciativa de abordar o cliente de frente, como que a dizer “Eh! Cliente liiiiiindo!”, e provocando-o para ver se ele investe.

A partir daí dá-se todo um bailado, onde o cliente adopta uma postura mais agressiva na procura do melhor negócio possível, evitando o galopar dos preços e tentando ao mesmo tempo esquivar-se das abordagens do lojista.

Mas este persegue-o pela loja, insistindo e cansando o cliente até ao momento da estucada final, que é sempre tentada quando este se encontra encostado à caixa.

Infelizmente verifica-se que muita gente, sem alternativa, vê-se obrigada a trabalhar em lojas e nota-se que lhes falta perícia ao lidar com os clientes.

São esses que ficam mais sujeitos às “marradas” destes, e que normalmente não resistem à sua violência e ao preenchimento do livro de reclamações pela “afición”.

O paralelismo entre a tauromaquia e as compras segue até ao final, já que é usual que os lojistas, adoptando uma postura de vacas chocas, acompanhem o cliente até à saída, assegurando que a arena fique livre para o seguinte.

Ainda só não cortam orelhas depois de uma venda de grande sucesso, mas se prestarem atenção verão como há muitos clientes a sair das lojas completamente esvaídos.


A Guerra dos Saldos

Dezembro 28th, 2009
Depois da época de paz, amor e harmonia que se vive no mundo por altura de Natal, vem a abertura oficial dos saldos de Inverno.
Custava muito manter o espírito natalício, custava muito continuar a viver sem hostilidade e belicismo?
Aparentemente sim.
E por isso é que se fazem saldos.
Toda a gente sabe que a indústria da guerra é a mais rentável do mundo, suplantando a venda de drogas e o negócio do sexo pago, e é por isso que o comércio inventou os saldos.
Os comerciantes inspiraram-se no modelo de sucesso do mercado da guerra e decidiram incutir na população o prazer pela confrontação, incentivar o guerreiro dentro de cada um de nós a travar a luta desenfreada pela melhor peça ao melhor preço, fazem fluir nas pessoas a adrenalina de uma batalha em que objectivo é comprar muito e gastar pouco, como se os artigos fossem inimigos tornados reféns e o dinheiro as balas escassas que devem gerir com parcimónia.
Há até quem já assuma frontalmente que só compra em período de saldos, não pelo preço baixo das coisas, mas porque só dá gozo comprar se o próprio acto da compra constituir um desafio.
É o salde-se quem puder!
E é aqui, minhas amigas e meus amigos, que vemos que as mulheres não tardarão a conquistar o mundo.
São verdadeiras gladiadoras dos tempos modernos, transformando as lojas em autênticos coliseus romanos, onde só uma poderá sair como verdadeira vencedora.
Analisam e escolhem os alvos com rigor e estabelecem o plano de ataque com meses de antecedência.
Agarram-se ao objectivo e lutam por ele até às últimas consequências, evitando, ágeis, todas as possíveis opositoras.
Mostram a sua persistência, não se dando como vencidas e correndo de imediato para outra superfície comercial para ver se conseguem dominar esse território.
Conseguem passar dias inteiros nesta luta, muitas vezes descurando a alimentação ou a vida familiar, resistindo às adversidades loja após loja.
É tão importante esta guerra que travam que é usual vê-las depois a mostrar umas às outras, qual veterano de guerra, o espólio recolhido, gabando-se do pouco que tinham para gastar para conseguir esses objectivos, das manobras que realizaram e dos sacrifícios que tiveram de fazer e lembrando com saudade guerras de anos anteriores em que foram bem sucedidas.

Christkindlmarkt

Dezembro 20th, 2009
Em muitas cidades da europa central, com principal incidência na Alemanha e na Áustria, existe a tradição de fazer nas praças centrais das cidades o Mercado de Natal (na língua original Christkindlmarkt).
É um mercado dedicado somente a vender artigos relacionados com a época natalícia e ao ver estas imagens fico com imensa vontade de lá ir.
Dá-me a sensação que, para lá do aspecto comercial da coisa, se respira verdadeiramente o chamado “espírito natalício” nestes lugares e por isso, como tenho ouvido muita gente dizer que este ano não o está a sentir, fica aqui uma dica para se deixarem invadir pela magia natalícia.
Nós por cá temos Óbidos – Vila Natal, que também não fica nada atrás destas iniciativas, está mais pertinho, é menos frio e portanto vale seguramente a pena dar lá um saltinho.

Arcashopping

Dezembro 6th, 2009
Acordar a um Domingo de manhã e sair de casa cedinho para ir trabalhar já não é fácil, mas hoje de manhã foi particularmente difícil porque implicou que me tenha embrenhado num dilúvio de dimensão bíblica.
É certo que o domingo é talvez o dia mais propenso a analogias bíblicas, mas não havia necessidade de dar cabo do humor a uma pessoa logo de manhã, não é?
Pois é.
Foi precisamente em Noé que me lembrei durante todo o caminho.
Estive quase para arrancar a minha cara-metade da cama para ir comigo encontrar refúgio na arca desse senhor, mas depois lembrei-me que deve ser apertado lá dentro, já não é vista a navegar por aqui há muito tempo e como não tem muita concorrência deve ser extremamente caro, não é?
Provavelmente é.
Só que entretanto veio-me à mente que a arca dos tempos modernos são os centros comerciais.
Tem a vantagem de ser gratuito, ter lugar para estacionar e por isso é quase instintivo às primeiras pinguinhas de chuva em dia de descanso ir toda a gente aos pares, quartetos ou bairros inteiros, fazer filinhas e dar encontrões para os centros comerciais, não é?
Eu acho que é.
Como há muitos perto do sítio onde moro, fiquei mais descansado e deixei-a dormir, porque se a coisa azedar mesmo é só dar dois passinhos e fica a salvo.
Entretanto, quando a tempestade passar lá virá a Bonanza, não é?
Não, não é… quer dizer… devo estar com o cérebro húmido… não sei… parece que não é.

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