A classe média de António José Saraiva

Julho 1st, 2011

Eu adoro ficção, gosto imenso de pessoas criativas e até aprecio de certa forma assistir a dissertações lunáticas de alguns loucos na rua, mas este texto de António José Saraiva, o director do SOL, é um disparate editorial tão grande, um desfasamento da realidade tão assombroso, uma alucinação tão demente que me deixou perplexo.

Se os desastres naturais são considerados por muitos um espectáculo, este desastre intelectual será também algo digno de observação atenta.

Para este senhor a classe média bebe água Vichy ou Voss, champanhe Cristal ou Möet et Chandon e desloca-se de carro em Mercedes classe E e Audi A6, voando sempre em 1ª classe ou executiva.

Nada mais corriqueiro para qualquer classe-mediano, que por simples peneiras ou falta de patriotismo económico prefere Marlboro a SG Gigante ou uma Carlsberg a uma Super Bock.

Ah! Esses safardanas da classe média!

Se eles não existissem é que estávamos bem!

Esbanjadores!

Chega a ser insultuoso este texto para quem, sendo de classe média, não se pode dar ao luxo de voar em 1ª nem beber regularmente água Voss, mas que ainda vai tendo informação suficiente para saber que o Marlboro é produzido cá, tal como a Carlsberg, e discernimento q. b. para gerir como bem lhe aprouver o seu cada vez mais escasso rendimento.

Mas não sei se me deva sentir insultado ou se devo ter pena por assistir ao processo crescente de demência de uma pessoa com responsabilidade social, pela posição que ocupa e mediatismo a que tem acesso.

Se calhar não devia estar surpreendido, até porque já havia quem tivesse tido o cuidado de nos alertar para o estado caótico do raciocínio deste senhor, mas antes agradecido, pela orientação que me deu.

Vou deixar de gastar dinheiro com o SOL.

Cabidela de “pica-no-chão”

Agosto 4th, 2010

Ontem ao final de tarde/princípio de noite, tive o imenso prazer de me sentar debaixo de uma ramada de uma tasca, num banco corrido de granito.

Debaixo dessa frescura estavam colocadas em cima da mesa, também de pedra, uma broa e um chouriço caseiros partidos toscamente aos bocados, e umas malguinhas de barro à espera da frase dita alto e bom som pela senhora que nos recebeu – “Ó Paulo! Bóta binho ós sinhuores!”.

O cenário ideal estava montado para receber aquilo que nos tinha levado ali: um arroz de cabidela feito com um verdadeiro “pica-no-chão”, caseirinho e de carne dura e escura, de tamanho generoso, porque todos os elementos da mesa eram meninos de bom alimento, confeccionado de uma forma divinal, só possível por ter sido feita da forma que foi sendo ensinada ancestralmente de mães para filhas (sim, porque os homens não entravam na cozinha!).

E é este imenso prazer de degustar aquilo que nos é tão tradicional, e que nos é servido com a genuinidade que só o povo português sabe ter, que me leva a escrever hoje, porque me preocupa que se perca esta hospitalidade popular, que se proíba aquilo que nos identifica enquanto nação, que se restrinjam os nossos saberes e sabores a leis super proteccionistas feitas por alguém que com certeza nunca sequer teve interesse de provar tais iguarias.

É claro que, olhando à minha volta, encontrei mil e uma razões para a ASAE fechar aquele espaço – que acredito que esteja mais do que ilegal aos olhos da lei – mas estava lá porque quis, porque assim é que sabe bem e faz sentido, porque só se conseguem aqueles paladares fugindo do produto embalado, padronizado e certificado, porque esta é a nossa herança e deve ser preservada, porque senão qualquer dia os nossos filhos pensam que os galos vivos e à solta num campo são tão perigosos e invulgares como um leão selvagem.

Acho muito bem que se regulamente, que se cuide da saúde pública, mas não me lembro de ninguém ter morrido de cabidelite e julgo que é um crime contra a nossa identidade nacional o excesso de  legislação, que restringe a confecção com produtos originais a este e outro tipo de comida, que são muito mais que isso, são valores ancestrais que devem ser preservados.

E com isto tudo, já ia mais uma garfada e um golinho do “carrascão”.