Buffet por carta

Janeiro 20th, 2017

Hoje encontrei num panfleto de um restaurante japonês uma novidade metodológica.

Uma inovadora experiência de consumo, que me agradou de sobremaneira por aliar a gastronomia à literatura.

Constava neste panfleto: “Buffet por carta”.

Que belas reminiscências do tempo em que as missivas permitiam que se mastigasse a palavra e se digerisse a mensagem na comunicação entre as pessoas!

Que alegria para um indivíduo que gosta de escrever, poder verter para um texto a sua seleção de sabores, de entre uma ampla panóplia degustativa que este estabelecimento oferece.

Eis o meu primeiro exercício nesta corrente literária.

“Querido Restaurante Japonês,

Espero que estas linhas te encontrem bem de saúdinha.

Nós por cá lá vamos andando, graças a Deus, enquanto batemos na madeira para que a sorte não mude.

Temo-nos lembrado muito de ti nos últimos tempos, e a saudade é muita.

Os enchidos e açordas são bons, mas sabes como fico com gases quando abuso, e a esta hora sinto-me capaz de dar a volta ao mundo sem recurso a um balão, de tão cheio estar com o ar que arrecado internamente.

Por aqui ainda há muitos tabus à volta da flatulência humana e as pessoas incomodam-se muito quando esta ocorre, de maneira que vou retendo, na medida das minhas possibilidades.

O Palatinho manda um beijo e diz que gosta muito de ti.

Ai, que ansiedade e vontade de explorar novamente o teu buffet, restaurantezinho querido!

A ver se é hoje que tiro a barriga de misérias, japonoca da minha perdição!

De entre as todas as iguarias do teu buffet sem igual, selecionarei hoje 2 Uramakis de salmão, 3 Sashimi de atum e 3 Sashimi de peixe branco, sendo que já sabes que não podem faltar os meus 4 Tempuras de camarão.

Ah! E pensavas que ia ficar sem os meus 2 Akinaimaki da praxe, não? Eheheh.

Sabes que isto nunca me pode escapar, não é verdade?

Para sobremesa, um Muramaki de frutas e está feito.

Vai estar tudo uma delícia, como sempre, não tenho dúvidas.

Despeço-me calorosamente, com um agradecimento profundo pela tua generosidade gustativa e vasta oferta, a preços confortáveis para as minhas possibilidades.

Um abraço muito apertado e até já.”

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Carta aberta a São Pedro

Outubro 4th, 2010

Excelentíssimo Senhor São Pedro,

Venho por este modo repudiar de forma veemente as suas últimas acções climatéricas, que têm afectado de sobremaneira o território Português.

Como com certeza será do seu conhecimento, o País atravessa graves dificuldades, com cortes de variadíssima ordem e nos mais variados sectores, sendo por isso uma afronta o desperdício massivo de água com que, já por duas vezes nas últimas semanas, nos sobrecarregou.

Eu sei que pode dar a sensação que se pode fazer o que se queira deste pedacinho de terra, ao ver a drástica queda da força económica portuguesa, o deslizamento das contas públicas e as descargas de impostos em catadupa, mas isso não poderá servir de justificação para minimizar o efeito das vossas acções, nem servir de alento para a contínua imposição de queda de árvores em larga escala, o deslizamento de terras ou as descargas energéticas que as suas nuvens têm vindo a gerar com estrondo.

Mais, os ventos que nos têm enviado ultimamente passam a altíssima velocidade, e têm assobiado imenso na passagem, com um volume de som amplamente superior à sonoridade dos assobios para o ar dos nosso governantes, desequilibrando assim largamente a nossa balança assobial.

Peço-lhe encarecidamente, em meu nome e dos meus concidadãos, que trate de dar instruções para amenizar as condições climatéricas que nos têm sido impostas.

Estamos dispostos a ir até às últimas consequências, e novas formas de protesto poderão surgir nos próximos tempos, se da vossa parte não houver sinal de bonança.

Aceite os meus mais cordiais cumprimentos, extensíveis ao Senhor, seu patrão.