Metralhadora enfadonha

Agosto 18th, 2011

A metralhadora é o objecto mais entediante jamais inventado, e quem se atrever a dizer o contrário é um ovo crú com salmonelas.

Fumadas!

É chata, repetitiva, cinzentona, monótona, monocórdica, sempre a disparatar – “te-rréu-téu-téu, te-rréu-téu-téu, te-rré-téu-téu” – sempre a mesma coisa… uma seca!

Quando começa parece que ninguém a consegue calar e, como é evidente, não há paciência para aturar uma coisa daquelas durante muito tempo.

Por isso – nem é preciso muito -, passado um bocado toda a gente à sua volta fica a dormir.

Experimentem ir a um jantar e levar uma metralhadora convosco, e depois vejam as caras que as pessoas fazem.

Começam logo a imaginar aquele ritmo sincopado, enfadonho, com que as metralhadoras debitam as suas bojardas, o tédio insuportável, e muitas das vezes até se vão embora mal avistam uma a chegar perto da sua mesa – fogem! -, para não lhe dar hipótese de começar com o seu fastidioso metralhar.

Se levarem uma metralhadora a passear na rua ou à praia, vão ver quem nem os pedintes vos abordam, tal é a sua fama.

É de tal forma que há quem dê um tiro na cabeça, só porque sabe que se aproximam de si uma catrefada delas.

O senhor John Gatling, que supostamente inventou a primeira, não devia ser muito amigo do socializar.

Custava alguma coisa dotá-la de ritmos variados, de crescendos e diminuendos, mudanças de tom ou cambiantes de luzes?

Não, não custava…mas o senhor não devia gostar muito de surpresas, nem de dinâmica, nem de festa, nem conseguiria simplesmente manter o interesse de uma conversa de circunstância.

Preferiu então fazer tudo mais contido e previsível e depois deu nisto: uma coisinha insuportável e previsível, que faz com que as pessoas tombem, de tanto se aborrecerem de a ouvir.

Meus amigos da indústria do armamento, ponham os olhos no que a juventude gosta e observem as tendências, se não querem entrar numa longa crise.

De quem é que os jovens ingleses se fizeram acompanhar nas pilhagens?

De divertidos paus, glamorosas pedras e espectaculares bombas incendiárias caseiras.

Os sinais estão todos lá, não é preciso dizer mais nada.

Oficial de Cabeleireiro

Agosto 12th, 2011

Ora cá está algo verdadeiramente surpreendente.

Quando se pensava que já estava tudo inventado no que ao mundo capilar diz respeito, onde se incluem as profissões de barbeiro, cabeleireiro unisexo ou estilista capilar, eis que surge a EPAVE militarizando o sector, através da introdução de uma hierarquia, como se depreende da expressão “Oficial de Cabeleireiro”.

Talvez inspirados pelo filme Oficial e Cavalheiro, em que, sublinhe-se, Richard Gere aparece impecavelmente penteado, os responsáveis da EPAVE dão um novo élan ao manuseamento e desbaste de pilosidade craniana, transmitindo-lhe o charme e o rigor que faltava.

Mas não é qualquer um que chega a Oficial de Cabeleireiro.

Tudo começa com o treino, apelidado de “recurta”, onde aprendem a manejar as armas pontiagudas e de sopro, os rolos de mão, a transportar lacas, a disparar bitaites, a evitar pisar as meninas e a lidar com as brazucas.

Parte importante deste treino debruça-se depois sobre aspectos tecnicamente mais avançados, como estratégia de corte, negociação de vinténs e manobras de parlapiê, que os deixe preparados para enfrentar todo o tipo de cliente, por mais difícl que seja.

O último teste surge na já célebre Semana de Campanha, em que são postos à prova em salões repletos de clientes histéricas, na ânsia de aproveitar os preços invulgarmente baixos que são praticados naqueles dias.

O Baile dos Oficiais finaliza o curso, e aqui, de forma simbólica, os novos Oficiais rapam as gadelhas uns aos outros, atirando-as seguidamente ao ar, em sinal de alegria pelo finalizar de um duro ciclo.

Posteriormente recebem as insígnias de Sargento de Cabelaria, podendo progredir na carreira até chegar a eventualmente a Chefe de Estado Maior – General das Toucas Armadas.

Boa sorte, minhas bravas e meus bravos, nas vossas missões.

O bem estar dos escalpes da Nação depende de vocês!

O varão da droga

Março 15th, 2011

A minha vida sempre foi complicada, mas estava longe de imaginar que acabasse aqui sentado nesta gruta penitenciária, sem nada mais para fazer do que contar a minha estória.

A vida dá muitas voltas, e eu presenciei mesmo a muitas, acreditem.

Nasci fruto de uma relação íntima de uma dançarina exótica dos arredores de Nápoles com o seu instrumento de trabalho e desde o primeiro dia senti que era diferente das outras crianças.

Fui o primeiro filho varão da minha mãe e parece-me que não nasciam assim tantos varões nas redondezas, pela reacção das pessoas quando me viam no estojo em que a minha mãe me transportava para todo o lado.

Talvez os espermatozóides-menina estejam na moda – pensei – , e habituei-me à ideia rapidamente.

Até apreciava a minha unicidade, sentia-me distinto, exclusivo, importante.

Ainda criança de estojo comecei a frequentar os locais de trabalho da minha mãe, locais obscuros frequentados por toda a espécie de gente com dinheiro para estourar, mas onde a minha mãe reinava no cimo do palco.

A cor e o movimento do espectáculo sempre me seduziu e não descansei enquanto não consegui fazer parte de um número de strip numa casa nocturna, treinava nas caves e sótãos, mas só aos 15 anos ganhei corpo para me fixar numa sala a sério e fazer o meu primeiro espectáculo.

Vivia então um mundo de novidades e sonho, sempre com mulheres rodopiando à minha volta e aplausos orgásmicos a jorrar dos sofás, pondo frequentemente de pé partes da plateia.

Um sonho tornado realidade, que foi muito bonito enquanto durou.

Mas depois de alguns anos uma pessoa fica cansada, comecei a entender este negócio e a perceber que as dançarinas eram afinal quem ficava com todos os lucros e louvores.

Era a elas que estava reservado o convívio com os magnatas e estes vertiam-lhes rios de dinheiro no decote mais rapidamente que um gasolineiro de fórmula um.

Ninguém apreciava devidamente o meu trabalho e a frustração acumulava-se em mim como o lixo num aterro sanitário, até que num dia em que a sorte se distraiu me cruzei com uma pessoa que mudou a minha vida.

No intervalo de um show, encostado à janela partida do armazém do clube, no beco sombrio situado nas traseiras dos holofotes da entrada, fumava um cigarro descontraidamente quando fui abordado por um indigente de vestes rasgadas, que me abriu os olhos para a realidade.

À minha volta circulava muito dinheiro, muito mesmo, muitas jóias, carros bons, todo o luxo que se podia imaginar, e muito dele vinha da vida do crime, da extorsão, das armas, da droga.

Já nessa altura era uma pessoa marcada pelas cicatrizes da vida, mas era indesmentível que poucos seriam tão duros como eu e o meu corpo esguio tornava-me muito difícil de apanhar.

As palavras do sábio mendigo martelavam a minha cabeça noite após noite até que numa madrugada gelada tomei a resolução de começar a minha guerra contra os senhores do crime locais, e armado de um revólver Vareta que encontrei numa caixa de sapatos que pertenceu ao meu avô comecei a minha demanda.

Desenvolvi capacidades de camuflagem inauditas à época, atacava furtivamente e eles rapidamente sucumbiram ao meu poder.

Assumi assim o controle do crime organizado.

Durante vários anos controlei todos os esquemas: prostituição, jogo, bebida, segurança, roubos de carros, contrafacção, raptos e até roubo de guloseimas a crianças.

Mas a minha principal fonte de rendimento – e futuramente de desgraça – era a droga.

Controlava todo o processo, desde a produção à distribuição e ninguém ousava pensar em enrolar um charro sem que eu desse autorização.

Por isso me começaram a chamar o Varão da Droga.

O que eu não consegui controlar foi a tentação de usar os produtos que fabricava e vendia.

Comecei a empoeirar-me com cocaína de forma descontrolada, ficava com a visão turva e os sentidos adormecidos, imerso num mundo irreal de facilidades e de vã felicidade, e daí a injectar-me com heroína foi um pequeno passo.

Fui aos poucos ficando todo furado e uns jovens ambiciosos começaram a fazer-me frente.

Perdi o controlo de alguns negócios, primeiro as meninas, depois a jogatana e rapidamente perdi a protecção de polícias e juízes, que viram o seu valor de mercado aumentar com o aparecimento dos meus concorrentes.

Fui então indicado como um dos dez criminosos mais procurados no mundo e a partir daí a minha vida foi um inferno, de fuga em fuga, num corropio que nem os meus nervos de aço me ajudavam a suportar.

É inexplicável a sensação de saber que ao mínimo deslize estamos fundidos.

Ia-me valendo o facto de ser esguio para não ser apanhado facilmente, mas ao fim de muito fugir fui um dia apanhado numas redes apertadas de pesca à lampreia e encaminhado para este buraco, onde só me resta esperar pelo final dos meus dias.

Tolhido neste espaço soturno e insalubre, vejo agora que os meus primos que se dedicaram a uma vida de cortinados estavam afinal certos.

Não têm carros, mulheres, nem luxos, mas a luz é certinha a cada manhã e nada lhes corta o poder de continuar a sonhar.

Do mendigo nunca mais soube nada, mas agora desconfio que as vestes rasgadas não terão tido origem em decisões sensatas da sua vida.