Carta aberta ao Ministro da Saúde

Novembro 7th, 2013

Ex. Sr. Ministro da Saúde,

Escrevo-lhe para o congratular pelo meritório trabalho desenvolvido pelo seu Ministério, ao nível do controlo de custos.

Como cidadã atenta e responsável, que julgo ser, é meu dever alertá-lo, no entanto, para uma situação que poderá contribuir para a obtenção de resultados ainda melhores.

No nosso agregado familiar somos autodidatas nesta coisa da saúde e bem estar, sendo que temos obtido resultados notáveis nas nossas pesquisas caseiras, aplicando técnicas de baixo custo.

Nas linhas abaixo, chamaremos a sua atenção para dois resultados caseiro-laboratoriais de excelência,  que gostaríamos de partilhar com V. Exa.

Somos pais de quatro crianças portadoras de um grau de atividade considerável, que consequentemente as leva a ter vários acidentes domésticos, eventualmente preocupantes e geradores de constantes viagens para o hospital.

Desenvolvemos porém uma técnica infalível, de resultados comprovadíssimos, que aplicamos sempre em casos de emergência médica, e que és espantosamente barata sr. Ministro.

Chamamos a esta técnica: um beijinho.

É espantoso como resulta sempre!

Quer os nossos filhos batam com a cabeça num móvel, trilhem os dedos numa porta ou se esbardalhem no chão, a aplicação atempada de um beijinho no local da lesão, revela resultados surpreendentemente rápidos e eficazes.

Esta técnica é tão eficaz que são agora os próprios petizes, reconhecendo a ação poderosa da mesma, a vir ter connosco pedindo-nos um beijinho, sempre que têm um acidente doloroso.

Temos desenvolvido também outras técnicas, mais ao nível do bem estar, com resultados igualmente bons.

Diria mesmo épicos, se me for permitido, e modéstia à parte.

Neste caso trata-se de mais do que uma técnica, mas todas têm o uso da boca, no seu todo, associadas, devendo porém ser apenas aplicadas a adultos.

Devo dizer, numa pequena inconfidência, que por vezes me finjo mal disposta, cansada ou distraída, só para ser elegível enquanto recetora destas técnicas de bem estar.

Acho que seria de ponderar o reconhecimento oficial destas técnicas, enquanto catalizadoras do bem estar dos portugueses, autorizando-as em Centros de Estética e Massagens, SPAs, bastidores de desfiles de lingerie, praias e piscinas públicas.

Sei os riscos que corremos ao fazer estas experiências em humanos, e por isso mesmo aceitarei se, os membros do seu governo, quiserem pessoalmente aplicar estas técnicas a cavalos, para poderem comprovar in loco os seus resultados.

Os portugueses, só de saberem que vocês estão a aplicar pessoalmente estas técnicas bocais a cavalos, ficarão desde logo com um sorriso na boca, e os animais, seguramente, agradecerão o obséquio.

Grata pela sua atenção, e esperando ter sido útil, despeço-me com a mais elevada estima,

Benjamina Gargarejo

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Beijadores mineiros

Outubro 31st, 2013

Há pessoas que vão tão longe na sua demonstração de afeto, que mais parece que estão a fazer espeleologia bocal.

Acredito que lhes dê imenso prazer – não é isso que está em causa -, mas o facto de o fazerem em público aflige-me.

Não por mim, que até sou dado ao voyeurismo, mas pelos exemplos que se dão às crianças.

É que aquilo é perigoso!

Um tipo que se atreve a abrir tanto a goela e lançar tão longe a sua sonda bocal, corre sérios riscos de espetar a língua numa qualquer estalagmite, se não se põe fino!

A minha teoria é precisamente que esta prática começa ainda em criança, quando só nos satisfazemos depois de sorver o último nano-pingo de iogurte, espetando a ponta da língua até à base do frasco, e por isso mesmo acho que as crianças, ao verem estes beijos à mineiro, julguem que isto se aplica a tudo o que se gosta.

Depois vemos adolescentes amantes do desporto automóvel a sodomizar um cano de escape com a língua, ou um melómano a bater o recorde de profundidade num linguadão com um subwoofer.

E achamos estranho.

Vamos lá ter cuidado com isso juventude, que os efeitos nocivos destas práticas, no limite, incluem deslinguamento acidental.

E ninguém gosta que lhe chamem lingueta!

Até porque não dá para responder a não ser por gestos.

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Agente Feijão

Outubro 24th, 2013

No mundo da espionagem, uma das principais virtudes é a capacidade de passar despercebido.

A arte da camuflagem e do disfarce é muito importante para os agentes secretos e do seu bom uso poderá depender as sua sobrevivência.

Erroneamente, muitos têm no camaleão uma referência, mas existe alguém com muito mais a ensinar.

O guru desta arte é tão bom profissional, tão discreto, que poucos o reconhecem como agente secreto.

O Agente Feijão tem características únicas que lhe permitem entrar em qualquer casa do mundo, ser apreciado, fazer o seu trabalho sem ninguém dar nada por isso e sair de gás, por entre constrangimentos ou risos.

Tem a capacidade de se adaptar a qualquer circunstância, apresentando-se verde, vermelho, frade, preto ou manteiga, entre outras variantes mais ou menos conhecidas.

Consegue trabalhar com os mais variados tipos de agente, seja ele porco, búzio ou farofa, complementando-os na perfeição e denotando uma versatilidade acima de média.

A empatia que consegue estabelecer com as suas vítimas é tal, que mesmo gerando grandes explosões internas, as pessoas continuam a recorrer a ele.

Estejam atentos, a partir de agora, porque ele cairá sub-repticiamente na vossa sopa, quando menos estiverem à espera.

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Viajar

Outubro 17th, 2013

Se tiver que definir felicidade por outra palavra única, a primeira que me ocorre logo a seguir a “filhos”, “família” e “amigos”, é “viajar”.

É de certa forma um lugar comum afirmar que, se tivesse possibilidade, passaria a vida a viajar.

Para entenderem o que significaria para mim essa possibilidade, digo-vos que seria como insuflar um balão gigante com um interminável fluxo de felicidade.

Viajar, para mim, é sinónimo de aventura, sonho, descoberta, partilha, pessoas, sentidos, sentimentos, liberdade, conhecimento.

Já viajei de várias formas, utilizando diferentes meios de transporte, com mais ou menos dinheiro no bolso, a trabalho ou em lazer, dormindo em hóteis de luxo ou ao relento, por vários continentes, em zonas rurais, de praia ou urbanas.

De todas as viagens trouxe inevitavelmente riqueza, paixão, experiência, crescimento, maturidade e uma visão diferente, do mundo e do meu lugar nele.

Gostava de ter o desprendimento  e a coragem para fazer do viajar vida, mas tenho profundamente implantada em mim uma necessidade de segurança e estabilidade mínimas que me agrilhoam esta vontade.

Resta-me alimentar o vício como posso, a espaços, ou deixar que a minha mente viaje por mim e me traga um souvenir de cada lugar que visitar.

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Idosas de cabelo loiro

Outubro 14th, 2013

O DNA da mulher portuguesa merecia mais atenção da comunidade científica internacional.

Algo se passa com os genes das nossas senhoras, que sofrem mutações ao nível da coloração capilar com o passar dos anos.

O modelo padrão de uma mulher portuguesa nos dias de hoje, apresenta-se morena nos primeiros anos de vida, com tendência a aloirar com o passar dos anos.

A mulher portuguesa de cabelo grisalho ou completamente branco é, atualmente, uma espécie que corre mais perigo de extinção do que os ursos polares e a sua alva pelúcia.

É de tal forma usual as velhinhas portuguesas serem loiras, nos nossos dias, que já por três ou quatro ocasiões passei por momentos constrangedores, por pegar na mão de jovens loiras numa passadeira, julgando eu estar a ajudar uma senhora de idade a atravessar a rua.

O que me confunde mais, sociologicamente falando, é este paradoxo de as mulheres com mais anos de vida terrena, supostamente sábias, quererem camuflar os seus sinais exteriores de experiência de vida, permitindo-se serem confundidas com o estereótipo social de loira burra.

E tenho medo que isto se generalize a um ponto tal que, um dia, nos deparemos com uma qualquer reportagem fotográfica sobre as nossas aldeias históricas, onde se vislumbre, sob o peso dos negros lenços, uma melena platinada de fazer inveja à mais loira das aldeãs siberianas.

Valha-nos nessa altura, pelo menos, a manutenção do bigode, para que haja uma ténue preservação das nossas origens.

Ficará ainda por abordar a questão da coerência de pelugem corporal, que, por respeito às pueris gerontes, vou só deixar mencionada aqui, sem escaranfunchar.

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